quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

"Não quereis vós também vos retirar?"




“QUEREIS VÓS TAMBÉM VOS RETIRAR?”



24. Vendo, pois, a multidão que Jesus não estava ali nem os Seus discípulos, entraram eles também nos barcos, e foram a Cafarnaum, em busca de Jesus.
25. E, achando-O no outro lado do mar, disseram-Lhe: Rabi, quando chegaste aqui?
26. Jesus respondeu-Lhes, e disse: Na verdade, na verdade vos digo que Me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes.
27. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a Este o Pai, Deus, O selou.
28. Disseram-Lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus?
29. Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais Naquele que Ele enviou.
51. Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que Eu der é a Minha carne, que Eu darei pela vida do mundo.
52. Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como nos pode dar este a Sua carne a comer?
53. Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o Seu sangue, não tereis vida em vós mesmos.
54. Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia.
55. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida.
60. Muitos, pois, dos Seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir?
61. Sabendo, pois, Jesus em Si mesmo que os Seus discípulos murmuravam disto, disse-lhes: Isto escandaliza-vos?
62. Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do homem para onde primeiro estava?
63. O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que Eu vos disser são espírito e vida.
64. Mas há alguns de vós que não crêem. Porque bem sabia Jesus, desde o princípio, quem eram os que não criam, e quem era o que O havia de entregar.
65. E dizia: Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a Mim, se por Meu Pai não lhe for concedido.
66. Desde então muitos dos Seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com Ele.
67. Então disse Jesus aos doze: Quereis vós também vos retirar?
68. Respondeu-Lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivente.
” (João 6)


O capítulo 6 do Evangelho, segundo escreveu o apóstolo João, descreve a jornada da vida de um cristão, desde a maneira como ele pode encontrar Jesus Cristo até o seu último segundo de vida, quando ainda Jesus pergunta com precisão: “Quereis vós também vos retirar?”, a fim de verificar em nós uma posição em relação ao desejo de permanecermos com Ele e segui-Lo em qualquer situação.

A multidão procurava Jesus no mar. Jesus não estava no mar. Ele estava em Cafarnaum, do outro lado do mar.

O mar, numa interpretação bíblica, representa o mundo. Assim, transpondo a interpretação para uma visão espiritual, verificamos, sem muitos esforços, pessoas, multidões, buscando Jesus no mundo, nos prazeres que a vida lhes oferece, no materialismo. Quando Jesus foi encontrado por aquelas pessoas, Seu primeiro discurso foi orientando-as a trabalharem “não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna” (João 6.27). Em outras palavras, Cristo estava orientando aquele povo a buscar saciedade em coisas espirituais e não nas carnais, a pensar nas coisas do Céu, e não nas da terra (Colossenses 3.2), porque são as coisas espirituais que duram eternamente. As da terra passam.

Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela. Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, pois ele supre aos seus amados enquanto dormem.” (Salmos 127.1-2)

Essa palavra é reforçada pelo Senhor Jesus em Mateus 6.33, quando Ele nos alerta a buscarmos “primeiro o Reino de Deus e a Sua Justiça, e todas as coisas serão acrescentadas”. Diz também que onde estiver o nosso tesouro, ali também estará o nosso coração (Mateus 6.21). E isso deve ser considerado como principal eixo norteador das nossas vidas no caminho para a eternidade: Cristo Está onde eu penso que Ele está ou Cristo está onde Ele diz que está? Eu, enquanto ser humano, penso que Cristo está nas amizades, no sucesso, na fama, no dinheiro, no reconhecimento, nos prazeres do corpo, na libertinagem, na prosperidade financeira, no meu orgulho próprio, no luxo, e nas posses. Cristo diz que está na renúncia pessoal e material, na simplicidade, na humildade, na mansidão do caráter, no amor ao próximo, na contra-mão do mundo, no centro da vontade de Deus. A multidão não encontrou Cristo no mundo, como eu penso que Ele está. A multidão encontrou Cristo em Cafarnaum, do outro lado do mundo. Nós também O encontraremos lá.

Na Bíblia, Cafarnaum é célebre por ter sido a habitação do Salvador (Mateus 8.5-13, Lucas 7.1-10). Quando queremos encontrar Jesus, não devemos procurá-lo no mar, isto é, no mundo. Ele está em Cafarnaum. Ele está em Sua Casa. A casa de Deus neste mundo é representada pela Igreja. E é ali, com na Família de Deus, que encontraremos Deus.

A multidão atravessou o mar para chegar até onde Cristo estava. E essa também é a trajetória de todos que querem se achegar a Cristo: eles devem atravessar o mundo. Uma imensidão de ofertas é levantada para nos fazerem submergir no pecado e distantes de Deus. O mundo tenta nos atrair com todo tipo de dádivas. Nós precisamos atravessá-lo, obstinados por chegarmos ao outro lado, onde Cristo está. Isso implica diretamente em renunciar toda oferenda mundana, toda oblação do pecado:

Exterminai, pois, as vossas inclinações carnais...” (Colossenses 3.5a)

Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo; e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências.” (Romanos 13.14)

E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12.2)

Quando nos chegamos a Cristo, muitos de nós vai até Ele com a intenção de continuar a viver suas vidas como sempre bem lhes pareceu, mas agora com a garantia de não ir mais para o inferno. Contudo, quando aquela multidão se aproximou de Cristo, o discurso do Senhor foi duro, e Sua Palavra sobre a vida cristã e a salvação ecoou precisamente da necessidade da santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor (Hebreus 12.14).

Jesus disse que para termos o direito à vida eterna, necessário é comer Sua carne e beber o Seu sangue.

Comer a carne de Cristo, ao contrário do que explica e quer praticar a canibalística doutrina da transubstanciação (católica, onde o pão da ceia se torna verdadeiramente na carne de Cristo e o vinho em Seu sangue), significa digerir o sacrifício do Senhor Jesus na cruz, isto é, alimentar-nos dessa lembrança todos os dias, recordando sempre que foi por causa dEle que Deus nos recebeu de volta. É reconhecer nossa situação miserável e desgraçada longe de Deus. É admitir que nossos pecados e falhas de todas as eras foram perdoados porque Cristo um dia Se entregou como sacrifício para expirá-los diante de Deus. É viver com gratidão a isso, e tendo sempre esse alimento em nossos corações, nos prontificarmos a vivermos sob a dependência de Deus – em todos os seguimentos das nossas vidas, convencidos que fomos comprados por Ele e para Ele e que agora já não pertencemos mais a nós nem ao mundo, mas a Deus. Essa verdade é que nos alimenta. Essa é a carne que traz nutrientes para nossas vidas espirituais e que nos mantém vivos.

Jesus nos mandou fazer memória deste sacrifício (1Coríntios 11.24), e nós devemos saber que comer pão na Santa Ceia não significa absolutamente nada se não damos o devido reconhecimento do valor que tem esse sacrifício de Cristo para nossas vidas. O gesto de comer um pedaço de pão nos memoriais da Ceia é nada mais que um símbolo que traduz: “Sim, Senhor, eu estou me alimentando do Teu sacrifício! Estou me recordando que é por causa dEle que eu tenho vida e paz em Deus. Tua carne foi rasgada por chicotes e cravos para que eu recebesse o perdão de Deus. Eu nunca vou me esquecer disso. Quero me alimentar desta lembra enquanto eu viver.

Beber o sangue de Cristo também não significa praticar o vampirismo (como também sustenta a doutrina da transubstanciação). Segundo o dicionário Aurélio da língua portuguesa, o sangue é (1) um líquido que transita pelo sistema circulatório levando material nutritivo e oxigênio às células (sem os quais elas não vivem); (2) vida; (3) a família. E nessas três definições, entendemos que beber o sangue de Cristo significa , ter o caráter de Cristo em nosso ser, viver a vida de Cristo e pertencer à família de Cristo. Beber o sangue de Cristo é agir como Ele agiria, pensar como Ele pensaria. Sermos nutridos e oxigenados pela presença do Senhor em nossas vidas.

Jesus também nos mandou fazer memória do sangue que foi derramado no sacrifício do Calvário (1Coríntios 11.25), e nós devemos nos convencer que beber do vinho no cerimonial da igreja também não significará absolutamente nada se não temos em nossos corações a disposição de renunciar nossa própria vida para vivermos a vida de Jesus em nós. Quando tomamos o suco de uva na Ceia, representamos por este símbolo o nosso desejo de vivermos como Jesus viveu, de deixá-Lo nascer todos os dias dentro de nós. É como se disséssemos: “Sim, Senhor Jesus, eu acredito em Teu sacrifício, e aceito morrer para o mundo como o Senhor morreu, para que o Teu caráter nasça dentro de mim todos os dias. Aceito viver como o Senhor viveu e quero ser uma nova criação para Deus, porque somente sendo como o Senhor é eu serei aprovado e recebido pelo Pai. Foi para isso que o Senhor Se manifestou: para desfazer as obras do diabo. E eu aceito viver como Tu queres. Quero ser santo como Tu és.

Jesus explicou isso aos Seus discípulos, porque caminhar pela via da salvação não é tão fácil quanto pregam atualmente. A porta que conduz à salvação continua estreita, o caminho permanece árduo. Contudo, um evangelho “fácil” de ser vivido tem sido anunciado e tem crescido notoriamente, por causa dessa indisponibilidade em se carregar a cruz que ainda existe para quem quer ser recebido por Deus: a cruz da renúncia.

O fato é que quando temos essa consciência do que é comer a carne e beber o sangue de Cristo, é que entendemos também o quanto é necessário uma mudança radical em nosso modo de viver. Só então estaremos aptos a escolhermos ser como um dos três tipos de discípulos que são descritos nos versos 60 a 69 do capítulo 6 de João, que estamos estudando.

O primeiro tipo é o de pessoas que seguem Jesus por CONVENIÊNCIA. Só estão com Cristo enquanto ouvem e recebem o que lhes é agradável. Quando começam as lutas, as provas, as exortações e as correções, as tais deixam a igreja onde congregam e procuram outro local para satisfazerem seu ego ou, simplesmente, deixam Jesus.

O segundo livro das Crônicas dos reis de Israel nos conta uma história que ilustra bem essa situação:

Josafá, servo de Deus e rei de Judá (2Crônicas 17.1-5), foi visitar o rei Acabe (rei de Israel). Acabe o chamou para descer com ele para a guerra contra Ramote de Gileade. Josafá, porém, queria consultar a Deus se deveriam ir ou não guerrear. Acabe convocou seus 400 profetas e todos eles disseram que os reis poderiam ir à guerra porque eles venceriam os exércitos de Ramote de Gileade. Josafá, porém, insistiu em consultar um profeta de Deus. Acabe, porém, disse: “Ainda há um homem por quem podemos consultar ao Senhor; porém, eu o odeio, porque ele nunca profetiza o que é bom, se não sempre o mal. Este é Micaías, filho de Inlá.” (2Crônicas 18.7)

Os falsos profetas ficaram fazendo honras aos reis e declarando coisas boas sobre a suposta vitória que teriam na guerra. O mensageiro que foi buscar Micaías, orientou o profeta pelo caminho a dizer coisas boas como os outros profetas diziam. Mas Micaías declarou: “Vive o Senhor que o que meu Deus disser, isso falarei” (2Crônicas 18.12-13).

Frente a frente com os reis, Micaías, o profeta de Deus, disse que Acabe perderia a guerra. Por declarar também que um espírito de mentira havia se apoderado dos 400 falsos profetas de Israel, o servo de Deus foi espancado e lançado num cárcere onde deveria ser sustentado com “pão de angústia e água de angústia” até que o rei Acabe voltasse da guerra (2Crônicas 18.23-27).

O desfecho desta história é que Acabe foi morto na guerra como Micaías havia predito “e Josafá, rei de Judá, voltou em paz para sua casa, em Jerusalém.” (2Crônicas 18.28-34; 19.1).

A atitude de não ter querido receber a profecia “ruim” a seu respeito, fez com que o rei Acabe realmente vivesse a frustração de não dar ouvidos à voz de Deus e ainda, além de ser derrotado, ser também morto. Da mesma maneira, muitas pessoas vivem frustradas e insatisfeitas com suas vidas. Morrem até, espiritualmente, porque insistem em viver somente da maneira que lhes apraz.

Retomando o ocorrido entre Jesus e Seus discípulos, João 6.66 diz que “desde então muitos dos Seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com Ele”. Quando as verdades acerca de uma vida em santificação com Deus são declaradas, poucas pessoas permanecem no caminho da salvação.

Só a título de curiosidade, se traçarmos um paralelo entre este versículo e o que é narrado pelo Apocalipse 13, veremos que há uma semelhança interessante aqui: as pessoas que terão receberão a marca da besta a receberão porque se negaram a renunciar o mundo por amor a Cristo. Elas são as pessoas que ficarão aqui depois do arrebatamento da igreja e, pra que tenham ainda uma oportunidade de ir para o céu, terão que suportar a grande tribulação e não serem marcadas com o sinal da besta, que é 666. Enquanto que as pessoas que se negam a renunciar o mundo por não suportarem a perseguição que se levanta contra elas quando querem seguir Jesus a qualquer custo, estão enquadradas na referência 6.66 do evangelho de João.

O segundo tipo de discípulos está narrado no verso 64 do capítulo 6 de João. São as pessoas que seguem Jesus por INFLUÊNCIA. Elas não crêem em Cristo com o coração – só da boca para fora, mas estão lá, seguindo uma tendência, seguindo os pensamentos que acham interessantes, seguindo uma posição para não serem excluídas de alguma forma da sociedade.

São como a nação de Israel. Os judeus vieram Cristo realizando milagres. Eles receberam o Senhor Jesus de uma forma triunfal em Jerusalém, como o Rei, o Filho de Deus (João 12.12 a seguir, Lucas 19.28 a seguir, Mateus 21). Depois de alguns dias, os mesmos judeus estavam clamando: “Crucifica-O!”, sendo persuadidos pelos principais sacerdotes que queriam matar Jesus (Mateus 27.20-25).

Por terem desejado que o sangue de Cristo recaísse sobre eles e sobre seus filhos (Mateus 27.25), e por guardarem a mentira dos soldados não acreditarem que Jesus foi ressuscitado (Mateus 28.11-15), os judeus vivem em tribulação intensa até hoje. Da mesma maneira, pessoas que seguem Jesus só por conveniência não se firmam, são como folhas secas levadas por todo vento de doutrinas (Efésios 4.14) e não são felizes por não terem um fundamento sólido que sustente a sua fé.

Já os versos 68 e 69 de João 6 nos revelam um terceiro tipo de discípulos de Jesus Cristo, que seguem o Mestre por CONVICÇÃO, isto é, porque sabem que não há outra alternativa para a vida eterna. São pessoas que se deixam guiar por Cristo não por interesse nem por incerteza, mas porque sabem que só Ele é o Cristo, o Filho de Deus, que só Ele é o Senhor que pode salvar, que pode curar, que pode libertar e transformar qualquer situação.

Desde que encontramos Jesus, como aquela multidão O encontrou em Sua habitação, recebemos do Senhor todas as orientações necessárias para vivermos uma vida agradável com e para Deus. No decorrer da jornada, muitas pessoas se perdem. Não suportam as adversidades nem as correções, nem abandonam o velho homem para viver a novidade de vida em Cristo (Romanos 6.6; 2Coríntios 5.17).

Mas Jesus sabe que existem pessoas determinadas a viverem qualquer tipo de situação e suportá-la por amor a Ele. Pessoas dispostas a renunciar o que for preciso para que o Senhor reine em suas vidas. São pessoas que sabem que o sofrimento desta vida aqui aqui é passageiro mas a glória da vida futura é eterna. Elas têm convicto em seus corações o pensamento de Paulo que declara:

Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens.” (1Coríntios 15.19).

E por isso dedicam suas vidas em santificação a Deus e exoneração ao pecado, como um reconhecimento ao sacrifício do Senhor Jesus no Calvário, como gratidão a Deus pelo amor que só Ele teve e demonstrou por nós, e como demonstração de um desejo intenso de viver a eternidade com Cristo na Glória.

Todos os dias Jesus testa nossa fidelidade e decisão em segui-Lo. Sua pergunta é refeita a cada um de nós, constantemente: “Diante de tudo o que vos é necessário passar para que não percais o Céu, não quereis vós também vos retirar?

Quem vive com Jesus e para Jesus por convicção tem a resposta, não de fracos, nem de indecisos, mas de uma pessoa determinada a viverem com Deus em qualquer circunstância, e declara terminantemente:

Não, Senhor! Absolutamente, não há outro que eu queira. Prosseguirei Contigo, pois só Tu és o Cristo, o Filho de Deus. Só tens as palavras de vida eterna!

E que o Espírito Santo fale melhor em teu coração...

Em Cristo.