sábado, 13 de janeiro de 2007

O sublime amor de Deus



Na última quarta-feira, meu primo Rodrigo saiu para trabalhar pela manhã. No início da noite, quando voltava para casa do posto de gasolina onde é gerente, ladrões entraram em seu carro e o levaram para outro caminho, longe da cidade onde mora. Rodrigo só foi encontrado pela polícia no final do dia da sexta-feira, jogado em um lixão próximo à cidade de Luziânia-GO. Seu carro foi roubado, e meu primo agora está internado na U.T.I. do Hospital de Base de Brasília, para onde foi transferido ontem, inconsciente, com traumatismo craniano e uma bala alojada em sua cabeça.

Depois de longas 48 horas de angústia e espera que mais pareciam uma eternidade para sua mãe, irmãos, esposa e filha, recebemos a notícia que Rodrigo havia sido encontrado jogado em um lixão. E eu me pus a refletir sobre o amor que nós temos por nós mesmos, nos que se refere ao que recebemos de outras pessoas e também ao que nós mesmos cultivamos por nossas vidas.

Por causa de um carro, uma vida foi gravemente ferida e corre risco de falecer. Neste caso, o valor da vida foi até considerável: um carro. Não raramente vemos vidas sendo equiparadas à importância de 10 ou 100 reais, ou uma bicicleta. Há cerca de 5 meses assassinaram, à luz do dia, o dono da locadora em frente à minha casa por causa de um aparelho DVD. Não raro, assistimos reportagens sobre mães que jogam seus filhos em rios, latas de lixo, e por aí vai. Me recordo que quando eu tinha mais ou menos 6 anos de idade, encontraram a cabeça de um bebê dentro do esgoto próximo à minha casa. Há alguns dias vi num desses telejornais sensacionalistas daqui da cidade – com direito a close nas imagens repugnantes – a reportagem sobre uma mulher que havia sido encontra dentro de uma galeria de esgotos, ou, antes, o que foi possível encontrar do que sobrou do corpo da vítima que havia sido esquartejada 4 dias antes. E quem não se lembra do índio que morreu num hospital depois de ter seu corpo incendiado por jovens de classe média enquanto dormia numa parada de ônibus aqui em Brasília? E quantas outras atrocidades que têm zerado o valor da vida humana nós podemos citar? E de quantas delas nós não recebemos notícia ainda?

Nestor Volpini, cronista brasileiro, faz algumas observações interessantes sobre o valor da vida humana. Ele diz:

Diante dos episódios de violência recentemente desencadeados em São Paulo, estado e capital, sou novamente instado por mim mesmo a refletir sobre o valor da vida humana.

Dentre tantos detalhes do noticiário, um chama-me particularmente a atenção: a preocupação de que talvez a força policial, em revide aos ataques, saia matando a torto e a direito, podendo até justiçar inocentes. Pratica-se inclusive uma aritmética macabra: a cada policial morto, dois bandidos idem. Em suma, nesta altura, a vida humana transforma-se em mercadoria de barganha. O valor não é mais o valor individual mas o valor populacional e, como tal, pura e simplesmente um número.

Esta é uma realidade universal. Entre Palestinos e Israelenses, por exemplo, aplica-se a mesma aritmética. A cada atentado terrorista palestino, corresponde um revide judeu, em geral, de maior intensidade. No Iraque noticia-se, até agora, a morte de cerca de dois mil e quatrocentos militares americanos. Acaso, do ponto de vista do presidente dos Estados Unidos, isto significa mais que um número?

E o que tem a ver essa prosopopéia com a violência desencadeada por organizações criminosas? Tudo, eu diria. O valor da vida humana tem que ser examinado sob duas vertentes: a do individual e a do coletivo.

As autoridades responsáveis pela carceragem nem sempre atentam para este importante detalhe: o valor das vidas humanas que estão sob sua responsabilidade. O valor efetivo da vida de um presidiário, numa cela, solitário, sob regime disciplinar diferenciado, é zero do ponto de vista social e quase isto do ponto de vista individual. Porém, nesse resto de valor individual pode estar armazenado um enorme potencial de violência, e não é difícil entender. Um preso, nas condições descritas é, antes de tudo, um inconformado e lutará com todas as suas forças e empregará todos os meios de que dispuser, violentos ou não, para sair da condição de morto-vivo. Quem já está no fundo do poço não tem como afundar mais. Veste-se de uma coragem infinita e sem seletividade. A vida do semelhante, deste ponto de vista, vale tanto quanto a sua: nada. E se for preciso, mata com a maior frieza na crença de estar realizando seu auto-resgate. Esta pode não ser uma atitude humanitária mas é, certamente, consentânea com a natureza humana.

Do mesmo modo, quando se amontoa num recinto previsto para alojar xis delinqüentes, duas ou três vezes mais do que uma cela é capaz de comportar, não é diferente de guardar um monte de sacos de feijão num armazém. De novo a vida humana se reduz a um simples número. Aliás, não é por acaso que se usa a expressão ‘população carcerária’.

Lamento que, no limiar do século vinte e um, o panorama que se descortina à minha observação, a menos que eu seja portador de grave miopia mental, mostra uma humanidade sob certos aspectos tangente e sob outros abaixo da animalidade.(VOLPINI, Nestor. Para Ler e Pensar: O valor da vida humana. Disponível em http://www.paralerepensar.com.br/nestor_ovalordavidahumana.htm)


É assim que somos vistos uns pelos outros: como seres cuja importância se reduz a nada (ou quase isso). E a minha reflexão hoje, na verdade, não é sobre o meu inconformismo acerca do mundo – porque o conformismo não deve realmente existir na vida de um cristão autêntico (Romanos 12.2). A minha reflexão nos chama a atenção para o fato de nós, cristãos, não reconhecermos o valor que Jesus Cristo soube dar a cada um de nós.

Somos vistos uns pelos outros como lixos de total insignificância. E quando encontramos Jesus Cristo que nos valorizou a ponto de deixar toda Sua vida de glórias e morrer numa cruz para nos livrar do castigo e da morte eterna, nós simplesmente nos damos ao luxo de exigir dEle “coisas e favores” para que possamos segui-Lo. Quando fazemos menos que isso, pensamos que Jesus nos salvou porque Ele “precisa” de nós e, por isso, nos vemos no direito de obedecê-Lo e segui-Lo somente até onde e como nos convém.

O mundo inteiro nos despreza. E quando vemos em Jesus Cristo o amor que jamais imaginávamos existir, de desprezíveis passamos a ser desprezadores. Tratamos Jesus como alguém que pode esperar o quanto for necessário, isto é, enquanto nós não terminamos de resolver nossos assuntos e não decidimos o que fazer das nossas vidas. Ele demonstra esse amor por nós e nos faz os seres mais queridos e amados de todo o mundo. E nós respondemos da seguinte forma: “Tudo bem, Jesus, eu vou ser ‘crente’, mas só vou aos cultos quando der, vou continuar minha vida com liberdade e fazendo todas as coisas que eu gosto, não quero saber de mudanças radicais e nem quero que me chamem de ‘crente’, porque isso ta fora de moda. E tem mais: eu espero que o Senhor ouça todas as minhas orações e responda todos os meus pedidos, porque se não chegar a providência, eu troco de deus. Afinal, eu nasci para ser cabeça, e não calda.” Tirando a força das expressões, esse tem sido o pensamento da maioria dos cristãos de hoje.

O primeiro livro do profeta Samuel, no capítulo 12 e verso 24, diz:

Temei ao Senhor e servi-O fielmente de todo o vosso coração; porque vede quão grandiosas coisas vos fez.

Diferentemente das nossas atitudes egoístas e arrogantes diante de Deus, o Senhor induz o profeta a orientar Israel sobre a maneira correta para conviver com Deus: temendo-O e servindo-O fielmente de todo o coração. Em outras palavras, respeitando-O, reverenciando-O, obedecendo de coração a Sua doutrina, porque Ele é o Senhor acima de tudo e de todos, e em qualquer situação.

A primeira grande coisa que o Senhor nos fez foi nos amar. Nos amar tanto, a ponto de garantir-nos o direito à vida eterna, mesmo sendo nós tão miseravelmente merecedores da condenação:

Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Romanos 5.8)

Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu Seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3.16)

Um amor que não se encontra igual em todo o universo. Um amor incondicional, que foi voltado para nós e nos encontrou no mais intenso lamaçal de pecados, mas que não privou-Se a Si mesmo de entrar nesse lamaçal para resgatar Seus amados. Um amor que não esperou nada em troca, mas simplesmente amou. Um amor que não aceita recompensas porque não se vendeu. Não. Ele se doou. Um amor real, cuja imensidão jamais poderá ser calculada. Um amor inexplicável, incomparável e absoluto, que excede todo o entendimento (Efésios 3.19).

Obedecermos a Deus e dedicarmos toda a nossa vida a Ele é o mínimo que podemos fazer como gratidão por esse amor que nos resgatou da triste sorte que nos aguardava e da qual ninguém mais poderia nos livrar. Procurarmos agradar a Deus com tudo o que somos e fazemos, é a nossa menor oferta de louvor e gratidão por esse amor que Ele nutriu em Seu coração por nós, sendo nós ainda tão pecadores, desmerecedores e vis.

E a segunda grande coisa que vejo, é o fato de Deus ter nos aturado até aqui, com toda essa nossa persistência em não mudarmos, mesmo já conhecendo o Seu grande amor já mais que declarado por nós.

Paulo afirmou que “o amor de Cristo nos constrange” (2Coríntios 5.14). Creio que ele tentava imaginar o limite desse amor e não o encontrava, ao mesmo tempo que observava a insignificância do ser humano diante de Deus. E acabou ficando “sem jeito” e até “envergonhado” com o que viu: pessoas que se rebelavam contra o seu Criador, desprezavam Sua bondade e santidade, buscavam no inimigo de Deus o prazer e as provisões, enquanto o Senhor Deus as chamava pacientemente de volta para Si, dando-lhes uma nova oportunidade para reconstruírem suas vidas com Ele, sob as Suas asas, onde sanaria todas as suas necessidades e as manteria seguras de todo o mal que quisesse lhes destruir (Salmos 91).

Pode-se imaginar alguém além de Deus com tanto amor assim? Creio que sua resposta, como a minha, seja um decisivo “não”. Guardar o temor e servir a Deus... essas atitudes brotam naturalmente de corações gratos ao Senhor pelo amor e pelas misericórdias de Deus sobre nós.

O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; bom entendimento têm todos os que cumprem os seus mandamentos” (Salmos 111.10), diz o salmista. E o provérbio 10.27 afirma que “o temor do Senhor aumenta os dias, mas os perversos terão os anos da vida abreviados.

Deus não só nos amou como nos suportou até este momento suprindo todas as nossas necessidades e Se dispondo a nos acolher em qualquer tempo que nos voltarmos para Ele. Chegará o momento em que esta graça de Deus se findará, porque Jesus virá buscar as pessoas que O amaram – não tanto quanto Ele nos amou –, mas que O amaram com toda a intensidade que puderam. Pessoas que não mediram esforços para demonstrar a Deus sua gratidão pela bondade e pelo amor que Ele expressou por todos.

Jesus nos ama tanto que Ele Se recusa a nos deixar aqui pela eternidade neste mundo horrível e fétido de pecado. Mas Ele não forçará ninguém a ir com Ele, porque, embora Seu amor seja sublime e incontável, ele é manso e educado. Não oprime ninguém.

Por isso, nós que nos chamamos povo de Deus, enquanto temos tempo, vamos nos empenhar em viver para Deus, não uma vida de rótulos e máscaras, mas uma vida sincera de renúncias e santificação; uma busca constante da comunhão e intimidade com Deus, diferente de ir quando der ao culto ou de andar por aí com uma Bíblia embaixo do braço. A verdadeira libertação acontece não quando entramos numa igreja e assumimos o pseudônimo “evangélico”, mas sim quando nos decidimos a expelir todo o nosso “eu” das nossas decisões e valores, e nos dedicar a obedecer e satisfazer nosso Rei, reconhecendo que somos nós quem precisamos dEle (e não o contrário, como querem muitos). Foi Jesus quem nos amou primeiro com um amor que as palavras de todo o mais requintado vocabulário não poderão descrever.

Vivermos em temor e obediência a Deus é o mínimo que podemos fazer em gratidão e louvor Àquele que jamais jogaria nossas vidas num lixão qualquer, mas que nos recolheu de lá (onde jazíamos por causa do pecado) e nos acolheu como príncipes... e nos fez assentar entre os sacerdotes.

A Cristo somente seja a glória e o louvor para todo o sempre! E a nós, a nobre honra de servi-Lo de todo coração e com temor em qualquer tempo. Amém.