domingo, 15 de abril de 2007

Invasão Canina



INVASÃO CANINA


Há alguns meses, orando numa madrugada em favor da Igreja, o Senhor me deu uma visão acerca da realidade do que está acontecendo diante de Seus olhos na obra que Ele confiou aos homens neste mundo.

Nesta visão, cães da raça dobermann invadiam a congregação. Eles traziam em suas bocas pedaços de ossos velhos, carniças que apanharam na rua, e as ofereciam às ovelhinhas branquinhas que estavam dentro do templo. Algumas ovelhinhas aceitavam dessas carniças e comiam calmamente, como se tivesse gosto de grama verde e como se fossem um excelente alimento para elas. Outras se recusavam, e eram imprensadas contra a parede por esses cães ferozes. E havia ainda algumas que berravam alto com grande desespero, porque viam outros cães enterrando dessas carniças no chão dentro da Igreja.

Desde então, o Espírito Santo me tem impelido a clamar com grande pranto pelo perdão de Deus ao Seu povo, que tem permitido todo tipo de imundícies entrar dentro da Igreja Santa. E hoje Ele me induziu a escrever sobre isso também.

Há atualmente um evangelho diferente do de Cristo, sendo pregado em nome de Cristo. É um evangelho fácil, que não exige renúncia nem mudança de vida para que Deus seja o centro. É um evangelho triunfalista, que não aceita dificuldades, nem perdas de nada, ainda que esta perda se refira à morte do velho homem auto-suficiente e praticante assíduo do pecado. Um evangelho materialista, que já não anuncia a volta de Cristo, mas a prosperidade aqui na terra como a obra completa do Senhor para nossas vidas. Um evangelho que prensa Deus contra a parede e exige dEle tudo o que se quer, da maneira como se quer e no momento em que se quer, com direito a ameaçá-Lo e tudo mais, caso Ele não cumpra nossa vontade. Como se Deus precisasse de nós para alguma coisa. Um evangelho barato, que se encontra em qualquer esquina a um precinho simbólico e que, se não agradar, pode ser devolvido pelo cliente para que se adquira outro mais conveniente, de acordo com o gosto de freguês, logo ali, do outro lado da rua. Um evangelho de modas, que acompanha as tendências e se adapta às exigências da época, para que possa garantir boa rentabilidade aos seus organizadores.

Todo o sacrifício que temos que fazer para viver esse evangelho é deixar nossos lares uma vez por semana, no domingo, preferencialmente (quando não temos nada mais importante para fazer), para irmos ao templo, onde podemos reencontrar amigos, colocar assuntos em dia, verificar se algum membro já possui uma roupa mais interessante do que a última com que desfilamos pelos corredores do templo quando estivemos lá pela última vez...

Bíblia? Só para pastor e alguns obreiros. Não combina com os modelitos da atualidade. Este evangelho é light e deixou expressamente declarado que adotar a Bíblia como regra de conduta é se prender às exigências dos autores para a época em que viveram. Andar com a Bíblia no meio da rua ficou ultrapassado.

E os hinos da Harpa Cristã já foram quase que totalmente substituídos por outros mais modernos, mais dançantes, mais jovens e mais envolventes.

Hoje temos outra realidade, portanto as mensagens de púlpito vêm adequadas aos interesses comuns atuais, de acordo com o que se aprende nas faculdades de Teologia. Essa é a regra ditada por esse evangelho que ensinou o caminho para que as mensagens puras e genuínas da Palavra de Deus fossem substituídas por discursos elaborados com cinco tópicos, sete subdivisões e quatro itens em cada divisão, por exemplo, e que podem ser retirados de algum livro ou encontrados através de sites de busca na Internet.

Parece exagero, mas é o que tem acontecido dentro da maioria de nossos templos, no seio da Igreja. E o pior, é que essa realidade traz consigo outra situação ainda mais alarmante: cada vez é menor o número de pessoas que guardam o compromisso de viverem uma vida separada, em santificação, como requer a Palavra de Deus (Hebreus 12.14; Romanos 12.2; 2Timóteo 2.4-5). E por isso, a maioria não se posiciona diante de Deus para deixar “os primeiros rudimentos do mundo” (Gálatas 4.3), mas permanece vivendo a condição do velho homem (Gálatas 2.20), preso à prática do pecado, libertino, orgulhoso, infiel, insubmisso, egoísta, honrando a Deus somente com lábios e não com o coração (Isaías 29.13; Mateus 15.8; Marcos 7.6), praticando a idolatria em seus mais diversos segmentos. Muitas vezes extremamente conhecedor da Palavra de Deus, mas raramente praticante dela:

E sede cumpridores da Palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos. Porque, se alguém é ouvinte da Palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural; porque se contempla a si mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era.” (Tiago 1.22-24)

Música em vez de louvor. Comentários e conversas paralelas, em vez de reverência à presença do Santo Deus. Acerto de contas, afrontas, piadinhas e pedilanças aos membros, em vez do aproveitamento total do período reservado para ministrar exclusivamente a mensagem do Evangelho (que, diga-se de passagem, cada vez mais está espremida entre longos períodos de cantos). Exigências a Deus em vez de adoração. Determinações do homem em vez de submissão a Deus. Ousadia em vez de humilhação e quebrantamento. Triunfalismo em vez de arrependimento. Enfim, tantas irregularidades e transformações que têm revertido nossos cultos em encontros sociais a pessoas interessadas.

Numa época onde tudo o que é melhor é o que é mais prático, os momentos dos cultos ao único Deus Vivo estão sendo reduzidos cada vez mais, para dar lugar aos programas pessoais, profissionais e familiares, que têm ocupado maior importância na escala de valores das pessoas atualmente. A esse respeito, quero citar um comentário do irmão Ivan Lessa (Evangelizart):

Hoje vivemos a época do evangelho fast-food, onde o negocio é se satisfazer sem se alimentar, tem que ser tudo muito rápido: eu chego na igreja, bato meu cartão de ponto, assisto ao culto e quero minha benção, e se Deus não me abençoar como eu quero e na hora que eu quero, eu encosto Ele na parede e determino que Ele tem que me abençoar!!

Qualquer dia vamos entrar num Mc Gospel´s, digo, numa igreja em que, ao invés da recepcionista, nós vamos ter uma atendente:

Atendente: Boa noite senhor, qual o seu pedido?
Crente (?): Deixe-me ver, eu vou querer um TrioBigBenção, com vitórias fritas grandes.
Atendente: E pra beber, senhor?
Crente (?): Me dá uma unçãozinha diet média e embrulha pra viajem por que hoje tem jogo na TV e eu não posso perder muito tempo aqui...

Seria cômico, se não fosse trágico...
” [1]

Houve um tempo em que os profetas de Deus começaram a alçarem suas vozes a esse respeito. Mas parece que o comodismo e o conformismo já se instalaram, e cada vez mais vemos obreiros de Deus e membros em geral se agregando ou, no mínimo, sendo coniventes a esses movimentos estranhos dentro da Casa de Deus.

Na visão que tive, os primeiros tipos de ovelhas eram as que estavam comendo pacificamente as carniças oferecidas pelos cães. E isso se enquadra perfeitamente aos crentes que estão admitindo todos os incentivos o que o mundo lhes oferece para suas vidas como cristãos, a fim de entrarem no céu da maneira mais cômoda, como se tudo fosse conveniente aos filhos de Deus desde que o rótulo que os identifique seja Jesus Cristo. Se enquadra também aos coordenadores e pastores que se sujeitam a acatar até mesmo heresias, no ímpeto de segurar membros em suas congregações.

A Palavra de Deus nos adverte:

Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma.” (1Coríntos 6.12)

Em 1Tessalonicenses 5.21, o apóstolo Paulo nos admoesta a examinarmos tudo e retermos e bem. Não nos ensina a acolhermos tudo o que é chegado a nós. É certo que usos e costumes mudaram desde a época em que a Bíblia foi escrita até os dias de hoje. Mas os princípios de Deus são eternos e não mudam nunca. Por isso, nem tudo o que de fora é oferecido aos filhos de Deus deve ser abraçado por eles.

Acontece, porém, que muitas ovelhas – como na visão – são imprensadas contra a parede pelos próprios cães, exatamente por se negarem a comer da comida que o mundo oferece. E aqui começa um grande conflito interno em cada uma delas. Muitas chegam mesmo a acreditar que o fardo de um cristão seja pesado demais, porque passam a ser perseguidas, humilhadas, mal-tratadas por pessoas que se recusam a entregar o domínio de suas vidas a Deus e ainda querem convencer as ovelhas do Senhor a agirem como elas. Não falo aqui somente de pessoas que não pertencem à igreja, mas também de pessoas de dentro das igrejas que, por falta de sabedoria ou pura falta de libertação, não possuem o caráter de Cristo e ainda se acham no direito de atacar quem procura santificação e intimidade com Deus.

O mundo e também muitos crentes não convertidos tendem a taxar de vários adjetivos escarnecedores àqueles que procuram viver uma vida santa com Deus. Estes são cristãos que entendem que foram “chamados à liberdade” e, por isso, não usam “da liberdade para dar ocasião à carne” (Gálatas 5.13), mas preferem sofrer as pressões alheias porque estão convencidos que “mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5.29). Há quem os revide até mesmo dentro da Igreja, que é exatamente o lugar de onde mais deveriam receber apoio.

Na visão havia também ovelhas que berravam porque viam cães enterrando ossos podres no chão da igreja. Eram bem poucas. E expressa bem a situação real dos profetas de Deus que têm se calado diante de todos os absurdos que se fazem dentro da Casa de Deus. Não que a justiça nos pertença, mas se Deus tem revelado e mandado Seus profetas anunciarem a verdade, o correto e inquestionável é que obedeçamos.

Vemos, porém, profetas se calando e se deixando convencer pelas amizades, favorecendo uns e outros por causa de suas influências, entregando apenas palavras convenientes e agradáveis, por vários motivos, dentre os quais os diversos medos que os seguem. Medo de perderem o título dentro da congregação, de perderem as amizades, de perderem o prestígio. Mas antes de concluir este texto, quero falar sobre João, o Batista.

João, o Batista, foi um dos mais notáveis profetas descritos pela Bíblia.

Um homem cheio da autoridade de Deus, que lhe impulsionava a ministrar a Palavra do Senhor como ela é, sem embaçá-la, sem enfeitá-la, sem distorcê-la.

No estilo de João, o Batista, Deus tem chamado muitos sobre a terra e tem procurado mantê-los íntegros até o fim de suas vidas como foi João. Mas poucos têm atendido a este chamado.

Ele chegou mesmo a ser preso por causa da veracidade da Palavra que ministrou sobre o rei Herodes, por possuir a mulher de seu irmão (o que não lhe era lícito, segundo as leis judaicas).

Não se deixou convencer pelas forças que poderiam e queriam lhe oprimir, mas permaneceu diante de Deus e dos homens com retidão, anunciando o Reino dos Céus e preparando o caminho para a chegada do Cristo Jesus, o Messias enviado por Deus para resgatar e salvar o homem pecador arrependido.

É certo que João também teve seu momento de depressão, onde, por um momento, duvidou daquilo tudo que tinha pregado. Ele mesmo que havia testemunhado sobre Cristo, dizendo: “Eu não conhecia Jesus, mas O que me mandou a batizar com água, esse me disse: Sobre Aquele que vires descer o Espírito e sobre Ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo. Eu vi e tenho testificado que este é o Filho de Deus.” (João 1.33-34), encontrou-se num cárcere, aparentemente sozinho, aparentemente abandonado, aparentemente sem nenhuma perspectiva de futuro, e questionando sobre Jesus: “És Tu aquele que havia de vir ou esperamos outro?” (Mateus 11.2-3)

Talvez se sentisse assim porque o Messias que havia chegado não foi lhe tirar daquela prisão. A dificuldade daquele momento talvez lhe tenha feito esquecer por alguns minutos sobre as “loucuras” do agir de Deus (1Coríntios 1.27-29).

A recompensa do Senhor para a vida deste profeta viria após sua morte.

Talvez ele não entendesse, mas ser degolado e ter sua cabeça colocada sobre uma bandeja revelou às gerações posteriores o valor que tem um profeta sobre a face da terra. Essa aparente tragédia na verdade era um projeto que lecionaria valores extraordinários para os profetas de tempos futuros. E assim também acontece conosco. Nossas lutas e momentos difíceis de hoje, principalmente dentro da Igreja, contra as ofertas do mundo, serão contadas amanhã aos nossos filhos e netos como experiências que nos aproximaram mais de Deus, que honraram a Igreja na terra e que glorificaram o nome do Senhor.

Herodes havia prometido metade do seu reino à filha de Herodias por ter dançado e lhe agradado. A menina, porém, instruída por sua mãe, pediu num prato a cabeça de João Batista (Mateus 14.1-12).

A integridade daquele profeta custou-lhe a vida. Mas deixou um dos maiores legados aos profetas que Deus levantaria posteriormente. A morte de João Batista, ainda que aparentemente ilógica ou desnecessária, revela a todos nós que a cabeça de um profeta, ainda que morto, vale mais que a metade do reino mais poderoso que possa haver instituído pelo homem sobre a terra.

João teve seu fim físico determinado com aquela decisão de Herodes em mandar matá-lo. Mas sua história ficou registrada como um exemplo a ser seguido por todos nós: que ainda que nos custe a própria vida, devemos seguir com integridade até o fim, pois somos profetas de Deus. Ainda que queiram arrancar nossa cabeça, morramos com dignidade e honra, declarando que só Jesus Cristo é o Senhor e não nos permitindo corromper por nada neste mundo, ainda que as ofertas deste mundo sejam tão atraentes quanto as que se chegam a nós hoje.

Lá no Céu, com certeza, encontraremos milhares de pessoas que seguiram o exemplo de João Batista para permanecerem fiéis a Deus até o fim, mesmo tendo seu momento de frustração como ele teve naquele cárcere... mas serão gratas a ele pela lição que nos deixou. E darão graças ao Espírito de Deus que lhes fortaleceu e orientou a servirem sempre a Cristo, suportando tudo por amor Àquele que muito mais nos amou e muito mais fez por todos nós!

Os verdadeiros profetas de Deus trazem consigo esse caráter de Cristo, de se exporem ao que parece ridículo aos nossos olhos humanos, a fim de realizarem proezas (que envolvem desde o milagre de ressuscitar um morto em seu corpo físico até o milagre de revelar pecados ocultos e exortar quem precisa ser exortado). Obedecem a Deus e se recusam a viver de maneira que sejam confundidos com o mundo. Correm o risco de serem abandonados (e na maioria das vezes o são), de serem excluídos e discriminados. Mas sofrem tudo com amor por Jesus. Só por Jesus!

Até mesmo a sanidade de um servo fiel do Deus Vivo, muitas vezes, por causa da ousadia que ele tem no Senhor, é questionada. E, por vezes, tentam lhe impedir de realizar o que Deus determinou que ele fizesse. Contudo, ainda que seu ministério dure alguns anos e depois sua cabeça seja posta em uma bandeja (como a João Batista), ainda que sua sanidade seja questionada, ainda que seja tido como “ridículo” por se expor tanto em nome do Senhor a quem serve... ainda que suas atitudes sejam consideradas ousadas por demais... um cristão autêntico sabe que feliz será todo aquele que não se escandalizar dele... e não deve se calar. Mesmo que seu trabalho não seja reconhecido nesta terra enquanto lhe houver vida, quando esse servo chegar no céu, certamente alguém lhe dirá: “Obrigada por ter dito o que eu precisava ouvir – e não o que eu queria ouvir... desde aquele dia a minha vida mudou, e hoje estou aqui!”.

A realidade da Igreja atualmente é alarmante. Estamos vivendo dias difíceis onde o favoritismo, o paternalismo, as amizades têm influenciado notoriamente os trabalhos desenvolvidos pela igreja. E o mundanismo se inserido tragicamente no curso da relação entre os homens e Deus.

Cabe a cada um de nós, adoradores do Deus Altíssimo, não só denunciar este mal, mas também de interferirmos, com nossas atitudes e estilo de vida, baseados num relacionamento sólido com Deus, que garantirá a vitória da Igreja sobre toda ação externa que a queira contaminar e desviar dos propósitos de Deus.

Ainda há cristãos autênticos sobre a terra.

Que o próprio Deus possa testemunhar a esse respeito em nosso favor.

E que Ele mesmo nos ajude e abençoe.

Amém!


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[1] Disponível em