quarta-feira, 30 de maio de 2007

Cultos (IR)Reverentes?



CULTOS (IR)REVERENTES?


O dicionário Aurélio define adoração como culto a uma divindade; culto, reverência e veneração. O mesmo dicionário define o verbo adorar como render culto a (divindade); reverenciar, venerar (Dicionário Aurélio Eletrônico). As palavras que definem adoração, no Velho Testamento, significam ajoelhar-se, prostrar-se, como em Êxodo 20:5. As palavras que definem adoração, no Novo Testamento, significam beijar a mão de alguém, para mostrar reverência; ajoelhar ou prostrar-se para mostrar culto ou submissão, respeito ou súplica, como em Mateus 4:10 e João 4:24. Adoração então é uma atitude de extremo respeito, inclusive ao Divino, que se expressa com ações singulares de reverência e culto.

A reverência e o culto a Deus, na prática de vida de um adorador verdadeiro, não se confirmam somente nos momentos de reuniões com os irmãos espirituais nos templos, mas define e embasa todo o seu estilo de vida, e revela-se através de suas atitudes.

Desde a menor à maior ação, o verdadeiro adorador preocupa-se em respeitar profundamente, isto é, reverenciar e cultuar, ou seja, glorificar a presença do Todo-Poderoso, porque sabe que sua prática de vida deve ser um convite para Deus Se fazer presente permanentemente.

Há pessoas que se dizem crentes, cristãs, adoradoras, enfim, mas que não respeitam a presença do Eterno em suas vidas. Todos os ensinamentos que Ele lhes transmite deixam de ter algum valor ou exercer alguma influência quando a questão é o estilo de vida que elas têm em seus relacionamentos com o mundo e longe das vistas dos irmãos. Ser cristão aqui é uma maneira de vida autônoma, que foge do respeito, da reverência e do culto ao Altíssimo.

Comumente essas mesmas pessoas também não respeitam a presença de Deus nem mesmo nos cultos realizados nos templos. Constantemente vemos pessoas comendo durante o culto, mascando chiclete, desenhando, conversando, jogando no aparelho de telefone celular, praticando todo tipo de dispersão, além do reforço que dão às gracinhas que muitos dirigentes e preletores se prestam a fazer sobre os púlpitos com a pretensão de tornar os cultos mais “dinâmicos” e “agradáveis”.

Uma reunião nos templos para cultuar em comunidade a Divindade de Deus, torna-se um ato sacrificante para pessoas que carregam rótulos mas não conteúdos. Contudo, é necessário que, de alguma maneira, as tais demonstrem uma vida com Deus, nem que seja simplesmente saindo de suas casas e se dirigindo às congregações para lembrar aos demais que elas estão à frente de algum departamento interno; que possuem boas vozes para cantos; que conhecem a Bíblia de cor e salteado; que dão altas ofertas; para exibirem seus carros, roupas e o que mais lhes convier; ou, meramente, para “bater o ponto” e mostrar ao pastor e aos outros congregados que elas ainda fazem parte do rol de membros daquela instituição.

A nossa motivação para estarmos reunidos com outras pessoas num templo hoje e prestarmos um momento coletivo de adoração a Deus, para muitos, tem contrariado as declarações expressas pelo salmista:

Quão amáveis são os Teus tabernáculos, Senhor dos Exércitos! A minha alma está desejosa, e desfalece pelos átrios do Senhor; o meu coração e a minha carne clamam pelo Deus vivo. (...) Bem-aventurados os que habitam em Tua casa; louvar-Te-ão continuamente. (...) Porque vale mais um dia nos Teus átrios do que, em outra, mil. Preferiria estar à porta da Casa do meu Deus, a habitar nas tendas dos ímpios.” (Salmos 84.1, 2, 4, 10)

Vejo, na maioria das pessoas cristãs de hoje, uma distância muito grande daquilo que faria Deus as considerar homens e mulheres segundo o Seu coração. E observo a reação de Davi – um homem segundo o coração de Deus (1Samuel 13.14; 16.1-13) – em relação ao culto que ele prestava ao seu Senhor.

Primeiramente, é importante observar que só de ter sido convidado para estar na Casa do Senhor, Davi alegrou seu coração. Imagino a alegria contagiante que tomava conta de Davi quando ele realmente podia entrar à Casa de Deus e sentir a presença do Grande Rei. Vemos um pouco disso apenas pelo fato de Davi se demonstrar tão satisfeito com a glória de Deus representada pela arca do Senhor, quando Davi a pôde levar de volta para Jerusalém:

E Davi, e toda a casa de Israel, festejavam perante o Senhor, com toda a sorte de instrumentos de pau de faia, como também com harpas, e com saltérios, e com tamboris, e com pandeiros, e com címbalos. (...) E Davi saltava com todas as suas forças diante do Senhor; e estava Davi cingido de um éfode de linho. Assim subindo, levavam Davi e todo o Israel a arca do Senhor, com júbilo, e ao som de trombetas.” (2Samuel 6.5, 14, 15)

A presença de Deus na vida de Davi era celebrada com júbilo, com festa, com reverência e sincero louvor. E traço um paralelo com o tipo de culto que vemos sendo prestado hoje dentro das congregações. Nitidamente observamos que Deus, em muitas dessas reuniões, não consegue Se fazer presente, porque os corações ali estão mais interessados em receber o que já comunicaram que queriam a Deus, ou em ver o cantor e o ministro da Palavra, do que em cultuar a Deus. Jesus disse que onde houvesse dois ou três reunidos em Seu nome Ele ali está (Mateus 18.20). Comumente vemos reuniões com um número bem maior de pessoas que proferem o nome de Cristo com os lábios, mas cujo coração se encontra bastante distante dEle.

Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Isaías 29.13; Mateus 15.18; Marcos 7.6)

E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração.” (Jeremias 29.13)

Quando Deus Se manifesta, por amor à minoria adoradora, em meio ao descaso que a maioria demonstra à Sua Santidade, essa minoria é que realmente consegue percebê-Lo com veracidade e ser transformada pela Sua presença nesses encontros. E isso justifica o que temos visto, que as igrejas têm sofrido um inchaço quantitativo e uma desnutrição espiritual, pelo que observamos tantas pessoas reunidas cantando e orando em nome de Deus mas poucas delas sendo verdadeiramente regeneradas pelo Espírito Santo.

A Bíblia diz que Deus procura os adoradores que O adoram em espírito e em verdade (João 4.23-24). Se Ele “procura”, Ele o faz hoje, agora, neste momento. Significa que mesmo tendo sete bilhões de pessoas no mundo, e quase a metade delas sendo denominadas cristãs, mesmo com toda a Sua onipotência e onisciência, Deus ainda está tendo dificuldades para encontrar verdadeiros adoradores. Ele ainda está procurando porque gente dessa natureza tem sido difícil de ser encontrada.

Outra característica que nos faz entender que Davi era um homem segundo o coração de Deus, além do fato de ser alguém que tinha prazer em estar na Casa do Senhor para cultuá-Lo, é o fato de Davi guardar em seu coração o zelo pelas coisas que se referiam ao Senhor. No capítulo 69 do livro dos Salmos, Davi declara a Deus:

Porque por amor de ti tenho suportado afrontas; a confusão cobriu o meu rosto. Tenho-me tornado um estranho para com meus irmãos, e um desconhecido para com os filhos de minha mãe. Pois o zelo da Tua casa me devorou, e as afrontas dos que Te afrontam caíram sobre mim.” (Salmos 69.7-9)

O culto prestado por Davi não se limitava a freqüentar o tabernáculo. Em sua vida diária, Davi se preocupava em reverenciar o Senhor. A Bíblia nos conta de Davi afrontando e enfrentando um gigante filisteu que insultava Deus e Seu povo (1Samuel 17). Em outra passagem, nos mostra o servo de Deus deixando de assassinar Saul, seu maior inimigo naqueles dias, por respeito e confiança na autoridade de Deus (1Samuel 24.6). Revela um Davi jubiloso celebrando a presença de Deus (2Samuel 6.5, 14, 15) e contagiando as pessoas ao redor. Mostra também Davi preocupado em construir um tabernáculo para Deus com igual ou melhor requinte que a casa em que ele mesmo morava (2Samuel 7.2). Mais à frente, traduz um Davi que se demonstra preocupado em não oferecer sacrifícios a Deus que não lhe custem nada (2Samuel 24.24).

Embora a Bíblia também nos conte desse mesmo Davi sendo traído pelo desejo de sua carne e, por um deslize, tornar-se um adúltero e homicida (2Samuel capítulos 11 a seguir), o servo de Deus sofreu as conseqüências de seus atos (“Deus não tem o culpado por inocente” – Êxodo 34.7; Números 14.18; Naum 1.3) mas sempre encontrou o caminho de volta para Deus, que era o arrependimento, a confissão e a contrição:

Então disse Davi a Natã: Pequei contra o Senhor. E disse Nata a Davi: Também o Senhor perdoou o teu pecado; não morrerás.” (2Samuel 12.13)

Quão importante para nós é sermos puros? Quanto significa para nós sermos justos hoje? Para Davi, que tinha experimentado a sublimidade de compartilhar um relacionamento íntimo e santo com Deus e a dor de desapontar Deus miseravelmente, guardar seu coração era de máxima importância. Ele não queria ter nada a ver com a maldade. Ele não queria ser atraído por ela. Ele não queria ser parte daqueles que cometiam coisas ruins. Ele nem queria participar das luxúrias e festas. Ele nem mesmo queria ser confundido com outras pessoas:

Não permitas que meu coração se incline para o mal, para a prática da perversidade na companhia de homens que são malfeitores; e não coma eu das suas iguarias.” (Salmos 141.4)

O que temos visto em tempos hodiernos é que o nome de Deus tem sido ridicularizado e Sua integridade açoitada em muitas rodinhas de escarnecedores e também pelas bocas de muitas pessoas respeitáveis diante das sociedades. A maioria dos que se dizem cristãos se calando e, pasme(!), muitos até participando de tais comportamentos.

Não esporadicamente vemos os bens materiais separados para prestarmos culto a Deus – como instrumentos musicais, edifício da congregação, bancos e móveis dos templos, etc – sendo mal-utilizados e mal-conservados, tanto pelos que os manuseiam diretamente quanto pelos que indiretamente se utilizam deles.

E isso também entristece o coração de Deus.

Existem lugares no mundo onde os cultos a Deus são realizados dentro de galerias subterrâneas de esgoto ou no interior de florestas densas... onde não se pode nem mesmo andar com a Bíblia nas ruas, quanto mais realizar cultos, seja em templos, seja nas praças públicas, com instrumentos em alta potência como fazemos aqui no Brasil, tamanha é a repressão ao Evangelho e à pessoa de Jesus Cristo. Deus nos dá o privilégio de vivermos em uma nação livre (por enquanto) em relação à expressão religiosa, onde podemos usar de todos os meios que dispomos tecnologicamente falando, para divulgarmos o Evangelho e prestarmos cultos coletivos a Ele. Mas pouco valor tem sido dado a isso. Prestamos um culto deficiente a Deus, tanto pelo fato de não fazermos o nosso melhor e nos empenhar em divulgar o Evangelho como poderíamos fazer, quanto pelo fato de não valorizarmos e zelarmos dos bens materiais que o Pai nos concedeu para nos ajudar nessa missão.

Davi chegou a declarar a Deus que se tornou um estranho para com seus irmãos (Salmos 69.8) porque não admitia viver como eles, fazendo tão pouco ou nenhum caso da pessoa e das coisas de Deus, igualando-Os ou diminuindo-Os abaixo de nós e das nossas coisas.

Cultuar a Deus para Davi não poderia ser um ritual realizado de qualquer forma. Deveria haver adoração sincera, preocupada em agradar a Deus. Deveria haver uma escala de valores a ser seguida rigorosamente, onde Jeová apontava sobre tudo, com total primazia e soberanamente entronizado. E essa consciência se converteria em uma postura a ser permanentemente seguida pelo adorador.

Para nós também não deve ser o contrário. Se quisermos oferecer cultos aceitáveis a Deus, que O agradem e O incomodem a Se mover para nos assistir, urge a necessidade de revermos o que temos prestado a Ele, como temos feito e com que propósitos.

Isaías nos fala como era o comportamento dos Serafins que prestavam culto a Deus. Eis a visão do profeta:

...eu vi também o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e a Sua glória enchia o templo. Serafins estavam por cima dEle; cada um tinha seis asas; com duas cobriam os seus rostos, e com duas cobriam os seus pés, e com duas voavam. E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da Sua glória.” (Isaías 6.1-3)

Atentemos para a ordem dos fatos: primeiramente, eles cobriam os rostos, depois foi observamos que cobriam os pés, e depois, que voavam. Cobrir os rostos nos indica a indignidade dos seres em olharem para o Senhor. Aqui, reconhecemos que, se os Serafins, que não possuem pecado, que são santos e puros, não se acharam dignos de ver Deus, de estarem em Sua presença. Menos ainda podemos dizer de nós, que somos, desde muito, separados de Deus por causa dos nossos pecados – e que tanto têm se acumulado no decorrer dos anos.

Cobrir os pés está diretamente para o fato de prestarmos reverência à presença de Deus. Em Horebe, Moisés viu uma sarça arder em chamas e não se consumir. E foi visitado por Deus. Logo prontificou-se a se aproximar para ver melhor “essa grande visão” (Êxodo 3.3), mas foi repreendido por Deus:

E disse [o Senhor]: Não te chegues para cá; tira os sapatos de teus pés; porque o lugar em que tu estás é terra santa.” (Êxodo 3.5)

O lugar tornou-se santo por causa da presença de Deus. Quando Deus Se manifesta no meio das nossas vidas, é hora de tirarmos as sandálias dos nossos pés, de respeitarmos, de reverenciarmos a Santidade do Rei. Nada pode nos envolver mais que a glória de Deus. Nada pode tirar nossa atenção dEle. Nada pode nos distrair ou nos seduzir mais. Nada!

É certo que temos a liberdade para adorar a Deus (2Coríntios 3.17). Mas muitas vezes deixamos de admirar a presença de Deus, nos atando a outros acontecimentos absoluta e infinitamente menores que o manifestar de Deus. Não podemos igualar Deus aos outros, nem considerar o que Lhe é relativo como algo corriqueiro ou simples, sem grande valor. Não é de qualquer jeito que devemos cultuar o Rei. Este Rei está acima de qualquer outro principado que possa existir. Ele mesmo criou tudo o que há e instituiu os reis e autoridades sobre a terra (Romanos 13.1). Portanto, todo o nosso melhor ainda será pouco para Seu nível de dignidade.

Lembremos, porém, que, segundo a carta de Paulo aos coríntios, nós somos o templo da morada do Espírito Santo:

Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo.” (1Coríntios 3.17)

Pelo que concluímos que o nosso culto a Deus não deve se limitar apenas às reuniões com os membros da congregação. Não. Sendo Deus Santo, se o lugar onde Deus está é santo, e se o Deus Santo habita em nós, também devemos ser santos, como Ele é. E nossas vidas devem ser sempre um templo onde o culto em louvor e adoração ao Santo dos santos é permanente e agradável.

Mas, como é Santo Aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque Eu sou Santo.” (1Pedro 1.15-16)

Seguindo essa determinação do Pai, certamente provaremos a real presença de Deus e o impacto que ela pode exercer sobre nós. Conseqüentemente, procuraremos deixar os embaraços que nos impedem de ver a glória de Deus. Certamente provaremos a presença de Deus e não mais desejaremos nos perder dela. Certamente nos esforçaremos para permanecer sempre diante dEle, onde há abundância de alegrias e delícias perpétuas (Salmos 16.11), onde até a tristeza salta de prazer (Jó 41.22).

Será o início de uma nova realidade acerca da adoração, o Senhor Se agradará do nosso culto e seremos verdadeiros tabernáculos ambulantes que levam a glória de Deus pelo mundo.

Que o Espírito Santo fale melhor aos nossos corações.

Em Cristo...