domingo, 1 de julho de 2007

Face a Face




Às vezes é tão difícil para nós nos apresentarmos diante de Deus e expor tudo o que se passa conosco!

A vergonha pelos erros que cometemos nos inclina a fugir da presença do Senhor, assim como aconteceu no Éden. Depois que Adão e Eva pecaram, eles se esconderam da presença de Deus porque estavam com vergonha da sua nudez.

Mas nos apresentar arrependidos diante de Deus é o que provoca a glória da segunda casa.

Nosso primeiro estado era prepotente e orgulhoso, embora nenhum mérito tenhamos que sejam suficientes para sustentarmos tais posturas.

Os erros nos fazem entender quem somos: somos falhos, limitados, necessitados da ajuda de alguém maior que nós, que nos possa manter em pé. Quando olhamos para Deus e encontramos nEle essa força, reconhecemos nossa real essência e podemos nos despir de todas as máscaras, de todas as folhas de figo que improvisamos para cobrir nossas vergonhas.

Há um trecho de um dos livro de Max Lucado que ilustra bem esse fato de, acerca de tentarmos cobrir-nos com o que nos parece correto, justo, conveniente. Quero citar:

Durante anos, possui um elegante terno, com paletó, calça, e até um chapéu. Considerava-me totalmente garboso nesse conjunto, e estava cer­to de que os outros eram da mesma opinião.

As calças, talhei-as do tecido de minhas boas obras, fortemente urdido de trabalhos realizados e projetos completados. Alguns estudos aqui, al­guns sermões ali. Muita gente elogiava minhas calças, e, confesso, eu tinha a tendência de puxá-las em público para que as pessoas pudessem notá-las.

O paletó era igualmente impressionante; teci­do de minhas convicções. A cada dia, eu me ves­tia em profundo sentimento de fervor religioso. Minhas emoções eram absolutamente fortes. Tão fortes que, para dizer a verdade, muitas vezes eu era solicitado a exibir meu manto de zelo em público, a fim de inspirar a outrem. Claro, eu aquiescia feliz.
Enquanto isso, tinha também de expor meu chapéu — um quepe emplumado de sabedoria, feito por minhas próprias mãos, tecido com fibras de opinião pessoal. Eu o usava orgulhosamente.

Certamente, Deus está impressionado com minhas vestes, pensa­va eu com freqüência. Ocasionalmente, impertigava-me em sua pre­sença para que Ele pudesse elogiar meus trajes feitos sob medida. Ele nunca falava. Seu silêncio deve significar admiração, convenci a mim mesmo.

Mas então o meu guarda-roupa começou a deteriorar-se. O tecido de minhas calças esgarçou-se. Minha melhor obra, ei-la a desintegrar-se. O que eu fazia já não podia concluir, e o pouco que intentava já não me constituía motivo de orgulho.

Não há problema, pensei. Vou trabalhar duro. Mas o trabalho duro era um problema. Havia um buraco em meu paletó de convicções. Minha determinação estava puída. Um vento frio golpeou-me o peito. Agarrei meu chapéu, e puxei-o firmemente para baixo. A aba rasgou-se em minhas mãos.

Após um período de poucos meses, meu guarda-roupa de justiça própria desfez-se completamente. De cavalheiro vestido sob medida, passei a mendigo esfarrapado. Receando pudesse Deus agastar-se com os meus trapos, remendei-os melhor que pude, e cobri meus erros. As roupas porém estavam muito gastas. E o vento era gelado. Desisti. Voltei para Deus. (O que mais podia fazer?)

Numa quinta-feira invernal, entrei em sua presença, buscando não aplausos, mas aconchego. Minha oração foi débil.

— Sinto-me nu.

— Você está nu. E tem estado assim por um longo tempo. O que Ele fez a seguir, jamais esquecerei.

— Tenho algo para lhe dar — disse-me ele. E gentilmente removeu o restante dos fiapos, e apanhou um manto — um manto real, uma veste de sua própria bondade. Colocou-o em torno de meus ombros. Suas palavras soaram cheias de ternura: — Meu filho, agora você está vestido com Cristo. (Ver Gl 3.27).

Embora houvesse cantado o hino milhares de vezes, só então o compreendi:

Vestido unicamente de sua justiça,
Irrepreensível perante o trono.


Tenho o pressentimento de que alguns de vocês sabem do que es­tou falando. Você vem usando um traje feito por si mesmo. Você tem confeccionado suas vestimentas, honrado suas obras religiosas, e... já notou um rasgo no tecido. Antes que você comece a remendar-se a si próprio, gostaria de partilhar com você alguns pensamentos sobre a maior descoberta de minha vida: a graça de Deus.
” (Max Lucado – Nas Garras da Graça. CPAD)

Depois do erro, a acareação.

Max e Deus tiveram que ficar frente a frente para uma conversa franca. Eu também tenho que passar por esse processo constantemente. E você? Quem tem sido diante de Deus? Que roupa tem usado? Que máscara tem exibido?

Adão e Eva tiveram que ficar frente a frente com Deus para confrontar os seus valores, reconhecer e confessar os erros.

Na verdade, houve um jogo de empurra-empurra. A culpa era de todos (Adão, Eva e a serpente), mas a responsabilidade era assumida por ninguém. Adão disse que foi a mulher. A mulher culpou a serpente. A serpente sabia que era o diabo nela. E isso irritou ainda mais a Deus. Além de desobedecerem a ordem do Senhor, também não assumiram a culpa pelo erro. E o resultado catastrófico dessas atitudes nós vivemos ainda nos dias de hoje e se estenderá até a eternidade para as pessoas que não alcançarem a salvação.

Nossa arrogância e orgulho nos impedem de reconhecer nossos erros, e nos mantêm numa posição independente de Deus, que nos induz a tentar “nos virar” com o que temos, isso é, resolver nossas vidas segundo o que conseguirmos fazer para nós mesmos. Colocamos remendos nas nossas ações erradas e queremos que pareçam corretas. Como Adão e Eva, tentamos nos vestir descentemente com folhas de figo.

Dá pra imaginar uma roupa decente tecida com folhas de uma figueira?

Só depois do diálogo sincero entre eles e Deus é que o Senhor ordenou o destino de cada um e, finalmente, teceu novas vestes para eles, de acordo com o Seu conceito de decência, de pudor (Gênesis 3.21). Anos depois, ainda vemos o Senhor preocupado com lembrar ao mundo sobre trajes honestos (Deuteronômio 22.5; 1Pedro 3.1-6).

Não. Eu não vou desviar esta mensagem para falar sobre usos e costumes, embora esse assunto também seja bastante apropriado para tratarmos sobre a dependência de Deus.

Quero, porém, levantar a certeza que Deus quer de nós a permanente prática de uma vida conjugada com a Sua vontade. Não só nos momentos após a queda, em que nos apresentamos a Ele machucados, feridos, muitas vezes vencidos, cansados da luta pela nossa sobrevivência neste mundo tão perigoso. Mas Deus quer que Sua perfeita vontade seja a prioridade em nossas vidas em todos os nossos anos de existência... assim como falou sobre a roupa! Aquilo que Ele ensinou deveria permanecer. O caráter que Ele nos deu deveria permanecer também.

Por isso Ele nos garante Sua graça. Por ela podemos receber o imerecido favor do perdão e da ajuda divina, para que possamos recomeçar com uma nova roupagem, uma nova realidade...

Mas para que isso aconteça, é necessário que estejamos sempre dispostos a enfrentar uma apresentação voluntária de nós mesmos ao Senhor.

A esse encontro, não devemos, contudo, aparecer como simples objetos passíveis de ser avaliados e lançados no lixo caso haja uma reprovação da parte de Deus.

Não.

O nosso encontro com Deus é exatamente para que Ele nos ajude a entender o que está errado, e nos mostre Sua intenção e Seus planos para nos ajudar a vencer nossas fraquezas e combates. Que graça maravilhosa!

Se permanecermos mascarados diante dEle, sem abrir nosso coração com sinceridade e sem demonstrarmos nossa real necessidade de recebermos Sua ajuda, então, realmente Ele não terá como nos ajudar, e toda nossa vida frustrada permanecerá exatamente ou ainda pior de como está.

Mas se seguirmos pela via do arrependimento, da humildade e da dependência de Deus, então teremos a experiência da renovação. Nossas vidas serão reorganizadas, nossas motivações alinhadas à vontade perfeita do Senhor.

Não seremos mais os mesmos.

E a glória da segunda casa será, verdadeiramente, maior que a da primeira, porque conhecemos Deus face a face.



Que o Espírito Santo fale melhor em teu coração.