sexta-feira, 14 de março de 2008

Lógica Ilógica



LÓGICA ILÓGICA


Problemas de maiores ou menores proporções surgem a todo instante em nossas vidas e cada um de nós têm uma maneira pessoal para lidar com eles. Algumas pessoas simplesmente desistem de lidar com eles, pelo simples fato de não compreenderem suas causas.

Meditando sobre Pedro e sua reação diante dos soldados que prenderiam Jesus no Getsêmani, podemos obter um novo retrato sobre a nossa fragilidade e limitação.

Quando o problema surgiu diante de Pedro, sua primeira reação foi lutar contra ele com seus próprios meios. Com velocidade e precisão, na tentativa de defender Jesus, o discípulo desembainhou sua espada e, com uma manobra digna de elogios, zap! ...deixou Malco, um dos soldados da guarda envergonhado, dolorido e sangrando.

Pedro cortou a orelha do soldado com sua espada. E às vezes eu fico pensando: “Por que Pedro não tentou degolar o soldado em vez de amputar-se a orelha? Quem sabe se cortasse-lhe o pé, ou a mão, mas... a orelha?” , pois a falta da orelha ao impediria Malco de continuar lutando para cumprir sua missão de prender Jesus.

Segundo a narrativa de João (18.4-10) – que também esteve presente nesse episódio, os soldados estavam ajoelhados diante de Jesus quando Pedro tirou sua espada e atacou Malco (v.10). É bem provável que Pedro tenha se aproveitado da situação, do fato de estar do lado de Jesus e ver o inimigo, literalmente, prostrado diante do Rei, para tentar dominá-lo.

Talvez tenha se passado pela cabeça de Pedro algo assim: “Ei! Eu tirei a orelha dele e nós podemos tirar as orelhas de vocês também! Não brinquem conosco, pois Jesus está aqui!”. Independente, porém, do que Pedro tenha pensado, uma coisa é certa: Pedro pensou que aquele pequeno grupo de discípulos que acompanhava Jesus poderia vencer uma multidão inteira armada com espadas e porretes, cheia de fúria (João 18.3; Lucas 22.52; Marcos 14.43). Tanto que logo sacou sua espada e enfrentou um dos soldados (Lucas 22.49-50).

Semelhanças para com a nossa maneira de pensar e agir diante dos nossos problemas não são meras coincidências, mas fatos reais que se repetem como um ciclo vicioso.

Pelo fato de sermos cristãos, carregamos o nome de Cristo e muitas vezes acreditamos que temos todo o domínio das situações; acreditamos que sempre e sempre o mal será derrotado diante de nós. Confiamos tanto que a presença de Jesus inibirá completamente o agir do mal, que a qualquer instante estamos aptos a sacarmos nossas espadas e cortarmos as orelhas dos que nos perseguem ou aborrecem. Que regozijo para nós é vê-los sangrando e se sentindo humilhados, ajoelhados à nossa frente!

Seria realmente um triunfo, se não fosse uma tragédia!

Confiar que nossa condição de seguidores de Cristo nos isenta do agir do mal, nos livra de todas as doenças e das perseguições é uma lástima que tem dominado muitas mentes e corações embaçados pela nuvem do “paternalismo divino”, que prega a filosofia sobre um “Deus bonzinho, que jamais expõe Seus filhos ao sofrimento, pois Ele é puro amor!”

Mas veja as palavras de Jesus a seguir:

“Então Jesus disse-lhe: Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão. Ou pensas tu que Eu não poderia agora orar a meu Pai, e que Ele não Me daria mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (Mateus 26.52-54)

Jesus poderia ser socorrido. Para Deus, nada seria (nem é) impossível. Mas havia um plano, um propósito a se cumprir que Pedro desconhecia. A presença de Jesus não inibiu o agir do mal naquele momento. Mas, ao contrário, permitiu-lhe, inclusive, ser vitorioso por um período de tempo:

“Tenho estado todos os dias convosco no templo, e não estendestes as mãos contra Mim, mas esta é a vossa hora e o poder das trevas.” (Lucas 22.53)

Outra vez...

“Eu estava com vocês todos os dias no pátio do Templo, e vocês não tentaram Me prender. Mas esta é a hora de vocês e também a hora do poder da escuridão.” (Lucas 22.53 – NTLH)

Tratava-se uma vitória temporária das forças do mal (1Coríntios 2.8); a vitória final pertence a Deus (João 1.5; Colossenses 1.13).

E quando isso acontece conosco, isto é, quando oramos, jejuamos, consagramos, imploramos, determinamos, esperamos... e nada acontece? E quando Jesus nos diz que nossa espada não mudará os planos de Deus? E quando nossa ação não inibe o agir do mal nem estimula Cristo a Se manifestar a esse favor?

E quando aquela situação desconfortável não muda, por mais crentes que sejamos? E quando não recebemos a cura daquela triste doença, por mais fé que tenhamos? Será mesmo que temos base bíblica para sustentar que Deus não Se importa? Será mesmo que Deus Se esqueceu?

Não é o que parece, conforme nos explica Jesus:

“...Não beberei Eu o cálice que Meu Pai Me deu?” (João 18.11)

Eclesiastes 3.1 diz que para tudo há um tempo e um propósito. Se Deus deu essa missão para Cristo, algum porquê havia. E nós, que fomos alcançados por Sua maravilhosa Graça, conhecemos bem esse porquê:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu Seu Filho unigênito, para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3.16)

Conosco não é diferente. Se Deus expôs o Seu Ungido de tal maneira para que um propósito tão necessário fosse concretizado, não nos sujeitaria também à prova, à espera, para realizar grande obra em nós ou através de nós também? Ora, “na verdade... não é o servo maior que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou” (João 13.16). São palavras de Jesus: “...Se a Mim Me perseguiram, também vos perseguirão; se guardaram a Minha palavra, também guardarão a vossa” (João 15.20). Se Jesus foi provado no deserto, também nós seremos. Se Jesus sofreu, também nós sofreremos. Se Jesus foi exaltado por Deus, também nós seremos se ao nosso Senhor, assim como Jesus, também permanecermos fiéis.

Não foi a fé de Pedro que falhou. Foi a sua maneira de interpretar e responder ao problema que estava errada. Havia um propósito de Deus e, antes de atacar o soldado, Pedro deveria ter atentado para isso e procurado conhecer melhor esse propósito. Cristo, em outras ocasiões anteriores, lhe alertou sobre tal.

A vitória de Jesus não consiste em vencer pessoas, mas sim o mal que atua nelas.

Malco era um mandado, submisso às ordens dos seus superiores. Jesus o amava e sabia dessa sua condição. Por isso, curou sua orelha e não permitiu a Pedro ser honrado naquela situação mais do que o seu problema (Lucas 22.50-51).

O gigantesco problema espiritual do mundo inteiro estava lá e tinha que ser enfrentado de frente, mas não com espadas nem pela força dos braços dos discípulos ou de Jesus. A coragem de Jesus não estava em fugir mas em enfrentar o inferno e a morte para resolver o problema que nós não poderíamos resolver. E, embora Jesus estivesse prestes a sofrer fisicamente tantas dores, o propósito principal era curar os nossos espíritos. Em vez de escolher salvar aquele pequeno grupo de discípulos, Jesus escolheu salvar a humanidade. Levaria algum tempo até que os seguidores de Cristo compreendessem isso. Mas aconteceu. Aleluia!

Às vezes leva muito tempo para nós também entendermos os propósitos de Deus ao permitir determinadas situações adversas nos alcançarem, nos atingirem. Diante de cada uma delas, antes mesmo de usarmos o nome de Cristo para tentarmos reverter o quadro, devemos, com atenção espiritual, sabedoria e discernimento, buscar do Senhor a lição que Ele pretende nos dar através de tal permissão e também graça para suportarmos o dia da angústia com gozo no Senhor e esperança na Sua Palavra, “pois sabemos que todas as coisas trabalham juntas para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que Ele chamou de acordo com o Seu plano.” (Romanos 8.28 - NTLH)

Sem sabedoria e sem humildade para conhecer mais sobre a vontade de Deus, Pedro lutou com sua espada, por alguns instantes teve a sensação de gozo, foi envergonhado, viu o mal vencer como se fosse infalível, perdeu as forças e negou Jesus por três vezes seguidas, até, então, ser despertado a olhar para dentro de si mesmo e verificar, com grande amargor na alma, a necessidade da mudança no seu interior.

Mais alguns dias e Pedro entenderia que era verdadeiramente necessário que Jesus morresse.

Muitas outras pessoas não têm a mesma paciência. É a triste realidade de quem se precipita em julgar Deus e desvalorizar a Sua inteligência, por falta de paciência em esperar ou pela insuficiência de forças para suportar aquilo que desconhece, ainda que essa realização não aconteça aqui nesta vida, mas na vindoura. São pessoas imediatistas, que buscam glórias (menores ou mais significantes) aqui e não vivem com vistas à eternidade.

Nem sempre os porquês de Deus são explicáveis realmente. Mas nem por isso devemos abandonar nossa fé no Senhor e deixar o Seu propósito para nós, pois o quesito fundamental para sujeitar-nos a vivermos essa “lógica ilógica” é a fé que Deus deu a cada um de nós (Romanos 12.3). Sem ela, jamais poderemos suportar e esperar a providência divina para nossas vidas.

“Alegrem-se por isso, se bem que agora é possível que vocês fiquem tristes por algum tempo, por causa dos muitos tipos de provações que vocês estão sofrendo. Essas provações são para mostrar que a fé que vocês têm é verdadeira. Pois até o ouro, que pode ser destruído, é provado pelo fogo. Da mesma maneira, a fé que vocês têm, que vale muito mais do que o ouro, precisa ser provada para que continue firme. E assim vocês receberão aprovação, glória e honra, no ia em que Jesus Cristo for revelado.” (Palavras de Pedro: o mesmo que negou Jesus três vezes seguidas, o mesmo que não compreendia o grande propósito de Deus para o mundo! - 1Pedro 1.6-7)

Já vi alguns crentes questionando Deus acerca do sofrimento a que outras pessoas, aparentemente tão corretas, ao submetidas.

Não quero ter uma resposta para tudo, mas há algumas explicações cabíeis: muitas vezes o sofrimento é conseqüência dos nossos erros do passado. O pecado é perdoado e somos isento da sua condenação (Romanos 8.1), mas as conseqüências dele ficam e nós devemos arcar com cada uma delas (Provérbios 26.27).

Outras vezes, há lições, preciosos ensinamentos que o Senhor sabe serem necessários nos transmitir, a fim de moldar nosso caráter e nos tornar filhos mais parecidos com Ele:

“Eu repreendo e castigo todos quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te.” (Apocalipse 3.19)

“...Não rejeites a correção do Senhor, nem te enojes da Sua repreensão. Porque o Senhor repreende aquele aquém ama, assim como o pai ao filho a quem quer bem.” (Provérbios 3.11-12)

“Dirige os meus passos nos Teus caminhos, para que as minhas pegadas não vacilem.” (Salmos 17.5)

“O Senhor prova o justo...” (Salmos 11.5a)

Há, ainda, a responsabilidade de Deus provar um justo para revelar Sua glória e convencer um injusto. Pessoas fiéis e crentes em Deus sabem que Ele tem um motivo, ainda que desconhecido, para permitir qualquer acontecimento em nossas vidas. Muitas vezes, realmente, esses motivos desafiam nossa fé, mas não podem desativá-la se atentarmos sempre para o fato de que Deus nunca perde o controle de situação alguma.

Para um justo é mais fácil suportar uma provação, mesmo que venha por razões alheias ao seu entendimento, porque pessoas verdadeiramente convertidas a Deus não negam sua fé no Altíssimo, mas buscam nEle as forças e a sabedoria que precisam para suportar.

Com o passar do tempo, Deus realiza milagres, Sua glória e poder Se manifestam e vidas incrédulas percebem a grandeza de Deus, geralmente se rendendo a Ele e à Sua maravilhosa Graça. É como se Deus estivesse agindo por tabelinha para alcançar a vida de um ímpio, pois se o fizesse diretamente, pela falta de sabedora e de fé dos incrédulos, certamente o Senhor os perderia de vez.

Paulo fez colocações desse tipo em muitos versos da Bíblia, como:

“Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus Cristo para dar testemunho do Evangelho da graça de Deus.” (Atos 20.24)

“Porque pra mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho. Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei então o que deva escolher. Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor. Mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na carne. E, tendo esta confiança, sei que ficarei, e permanecerei com todos vós para proveito vosso e gozo da fé.” (Filipenses 1.21-25)

O sofrimento a que o apóstolo era submetido tinha também o motivo de ajudar as pessoas a se encontrarem e se firmarem no Evangelho salvador de Jesus.
O próprio Jesus foi submetido a isso. Ele é justo, santo, puro, sem pecado algum, mas foi submetido às piores ações do mal em favor da humanidade:

“Ele foi rejeitado e desprezado por todos; Ele suportou dores e sofrimentos sem fim. Era como alguém que não queremos ver; nós nem mesmo olhávamos para Ele e O desprezávamos. No entanto, era o nosso sofrimento que Ele estava carregando, era a nossa dor que Ele estava suportando. E nós pensávamos que era por causa das Suas próprias culpas que Deus O estava castigando, que Deus O estava maltratando e ferindo. Porém, Ele estava sofrendo por causa dos nossos pecados, estava sendo castigado por causa das nossas maldades. Nós somos curados pelo castigo que Ele sofreu, somos sarados pelos sofrimentos que Ele recebeu. (...) O meu Servo não tem pecado, mas Ele sofrerá o castigo que muitos merecem, e assim os pecados deles serão perdoados.” (Isaías 53.3-5,11b - NTLH)

Pedro não prestou atenção nesse caso e, por isso, precipitou-se em “socorrer” Jesus da situação horrenda a que seria submetido pelas próximas horas.

Quando, finalmente, Pedro olhou para si mesmo e viu que tudo foi para que houvesse mudança nele também, então o discípulo compreendeu que os planos de Deus, ainda que incompreensíveis, devem ser aceitos, pois nossos pecados, nossas limitações, muitas vezes nos impedem de compreender que Deus é o Santo, o Senhor, e que os Seus propósitos são necessários e indiscutíveis. Se não conhecermos os Seus porquês aqui neste mundo, certamente os descobriremos na eternidade. Foi por isso e desde então que Pedro dedicou seus dias a anunciar o amor e o perdão de Deus ao mundo, a ponto de morrer por isso.

“Eloí, Eloí, lama sabctâni?” (Marcos 15.34a)

“Deus Meu, Deus Meu, porque Me desamparaste?” (Marcos 15.34b)

Esse foi o clamor de Cristo, quando nem Ele entendeu o motivo de Deus ter Lhe desamparado. Contudo, ele levou Sua cruz até o fim e não Se desviou da presença do Pai.

Mesmo ali, em Seus últimos minutos de vida, e sem motivos aparentes para que Deus O tivesse desamparado, foi nas mãos dEle que Jesus preferiu entregar o Seu espírito, pois não há lugar mais seguro, nem mais certo nem mais necessário em que podemos estar, se não nas mãos de Altíssimo Deus.

Que esse ensinamento seja um modelo sempre seguido com honra por cada um dos filhos de Deus, em todos os seus momentos, seja a lógica revelada a nós ou simplesmente um desafio à nossa fé.

Amém.