domingo, 3 de agosto de 2008

A ordem é pra marchar!


Um mar à frente. Montes por todos os lados. Faraó e um grande e poderoso exército em fúria atrás. E no meio disso tudo, um líder cheio do poder de Deus mas que não sabia o que fazer com esse poder, guiando cerca de três milhões de pessoas [1] amedrontadas, com os nervos à flor da pele, prevendo sua própria desgraça (Êxodo 14.10-12).

Acima, porém, um Deus misericordioso e paciente, que tolera as murmurações dos hebreus e dá-lhes uma ordem nada razoável: “Diga ao povo que marche!” (Êxodo 14.15).

Qualquer pessoa, em sã consciência, questionaria a ordem de Deus numa situação dessas: “Marchar? Pra onde? O Senhor enlouqueceu? Ficou cego?... Não está vendo o tamanho desse mar aí à frente?”. Moisés também não deve ter entendido bem o que Deus lhe mandou fazer, tanto que a Bíblia é enfática em narrar os detalhes da instrução do Senhor:

Erga a Sua vara e estenda a mão sobre o mar, e as águas se dividirão para que os israelitas atravessem o mar em terra seca.” (Êxodo 14.16)

Essa iniciativa ousada de tocar nas águas, isto é, ativar o poder, a autoridade que Deus já havia lhe concedido, Moisés não teve. Tenho certeza que eu também não teria. “Por que clamas a Mim, Moisés?” (Êxodo 14.15). Parece que vejo o Senhor hoje Se expressando assim: “Elaine, eu já estou te capacitando há tempos, já te dei autoridade para fazer algumas coisas, você tem andando Comigo... por quê, então, você está aí, parada, diante dessa adversidade, clamando a Mim? Tome uma atitude de acordo com o que eu já tenho te ensinado, usa o que eu já coloquei em tuas mãos e... marche!

Parece um absurdo, mas nessas horas de angústia, nossa tendência natural é nos esquecer de tudo o que o Senhor tem nos ensinado. E, por mais incrível ainda que pareça, tudo o que Ele tem nos ensinado se resume a uma palavra: “MARCHE!”. Marchar sob as Suas instruções, direcionados por Ele, resguardados por Ele e alçando-O como a nossa bandeira. Ele não nos disse: “LUTE!”. Ele disse: “MARCHE!”. Quem pelejará, quem lutará, é Ele, o Senhor (2Crônicas 20.15). A nós cabe somente descansarmos das preocupações e obedecer por fé a Sua ordem... e prosseguir avante!

Interessante como o sentido de cada palavra e expressão bíblica não foge do seu significado mesmo com tantas variedades de línguas existentes no mundo. Há alguns dias, eu estava precisando de uma mensagem para ministrar em um culto no lar. Pedi ao Senhor que me desse aquilo que Ele queria falar às pessoas presentes ali, segundo as necessidades de cada um. E o Pai dirigiu-me a buscar no dicionário da língua portuguesa o significado da palavra “marchar”. E pude compreender bem como nada está escrito simplesmente para completar a lógica de uma frase bíblica.

Certa vez, um ministro do Senhor, um homem de pouca aparência e formosura que se tornou uma referência de vida santa com Deus pra mim, disse uma frase simples (como tudo o que ele ministra) mas forte suficiente para causar grande conflito quando nos dispomos a meditar sobre a Bíblia (também como tudo o que ele ministra – creio que esse seja o verdadeiro Evangelho). São palavras do Pastor Valmir Santana [2]: “Em se tratando da Palavra de Deus, um único ponto final é suficiente para contar toda uma história”.

O fato é que as palavras contidas na Bíblia, como a própria Bíblia nos lembra, não foram escritas ali por homens que as tenham utilizado simplesmente para expressar a sua compreensão de mundo, de Evangelho ou de Deus. Não. Elas foram trazidas até os corações dos homens que as escreveram pelo próprio Espírito Santo, que Se encarregou pessoalmente de enchê-las com uma profunda e divina inspiração, capaz de mover o íntimo de pessoas de todas as classes, culturas e tempos.

A palavra “marchar” não foi dita sem um propósito. O Senhor poderia ter dito a Moisés: “Diga ao povo para continuar.”, ou “Diga ao povo para caminhar.”, ou algo parecido. Mas Ele usou a expressão exata: “Diga ao povo que marche!”.

Há muitas mensagens baseadas na origem grega ou hebraica dos termos bíblicos. Mas o Senhor me deu uma baseada nos sinônimos da palavra em português, a qual tenho o prazer e a honra de repartir com você, amado leitor.

Quando Deus falou para Moisés marchar, o Senhor não estava mandando o povo simplesmente seguir em frente. Há um mistério muito mais profundo guardado para ser revelado por Deus para nós em nossa língua também.

“Marchar”, segundo o dicionário Aurélio da língua portuguesa, significa:

1. ANDAR, CAMINHAR. Esse é o sentido mais imediato que vem às nossas mentes quando ouvimos essa ordem do Senhor. E é claro, óbvio: Deus não trabalha se nós também não nos dispusermos a caminhar, prosseguir por fé, crentes que Ele é poderoso para fazer tudo o que for necessário para que Seu nome seja glorificado e nossas vidas bem encaminhadas.

Sabendo que todo cristão está sujeito a adversidades, não devemos nos sentar à beira do caminho, cruzar os braços e tomar os exemplos de quem desistiu da caminhada com Deus e optou pelo caminho mais largo, mais isento de lutas, de perseguições, da própria cruz. O nosso modelo-guia é Jesus Cristo, o Homem que sofreu as maiores dores e assumiu as maiores responsabilidades da história humana, mas não desistiu, nem reclamou, nem pecou. Foi fiel a Deus em toda a Sua maneira de ser e de viver, honrou o nome do Seu Pai, “humilhou-Se a Si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz! Por isso, Deus O exaltou à mais alta posição e Lhe deu um nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai.” (Filipenses 2.8-11)

Portanto, não desistir jamais. Confiantes em Deus, sempre marchar!

2. CAMINHAR A PASSO CADENCIADO, isto é caminhar a passos em regularidade de movimento ou de som.

Deus nos lembra que nossa caminhada não deve ser isoladamente, seguindo nossa estrada sozinhos. Nem separados dEle, nem separados do nosso corpo espiritual.

No primeiro caso, nosso caminhar deve ser regular com os de Deus. Deve procurar acompanhá-Lo, andar de mãos dadas com o Pai. Nunca passarmos à Sua frente ou preferirmos ficar para trás, desapercebidos, dispersos. Um pai não anda na rua correndo na frente e deixando seu filho para trás a fim de que este o siga se quiser. Tampouco o permite sair correndo na sua frente até que suma das suas vistas. Não. Um pai responsável segura na mão de seu filho e atravessa todas as avenidas com ele em segurança, se preciso até carregando-o em seu colo. E nós sabemos que o nosso Pai Celeste é o mais responsável, amoroso e cuidadoso de todos os pais.

É isso o que nosso Pai Celeste nos diz sobre a Sua conduta para conosco: “Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça. (...) Porque eu, o Senhor teu Deus, te tomo pela tua mão direita; e te digo: Não temas, eu te ajudo.” (Isaías 41.10,13).

Por isso, cobra de nós a disciplina, a obediência à Sua voz poderosa e incorruptível:

Eu sou o SENHOR, o seu Deus; ajam conforme os Meus decretos e tenham o cuidado de obedecer às minhas leis” (Ezequiel 20.19). “Isto lhes ordenei, dizendo: Dai ouvidos à minha voz, e eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; e andai em todo o caminho que eu vos mandar, para que vos vá bem” (Jeremias 7.23).

No segundo caso, devemos andar em comunhão com o nosso corpo espiritual, que é o corpo de Cristo. Um pé não vai sozinho fazer compras e deixa o resto do corpo dormindo em casa. Uma mão não vai sozinha tomar banho enquanto o resto do corpo espera na sala de tv. Da mesma maneira, um membro do corpo de Cristo, a autêntica Igreja de Jesus na terra (não todos os que se dizem crentes nem tudo o que se diz igreja), deve manter-se integrado e ativo nessa gloriosa instituição que Deus nos deixou.

O apóstolo Paulo nos advertiu: “Quero, pois, que os homens orem em todo o lugar, levantando mãos santas, sem ira nem contenda” (1Timóteo 2.8). Como um que foi chamado para fazer discípulos para Cristo, Paulo nos aponta nada mais e nada menos que a vontade de Deus para nosso relacionamento, o que repercute diretamente no nosso relacionamento com o Senhor e vice-versa.

Ele [Jesus] veio e anunciou paz a vocês que estavam longe e paz aos que estavam perto, pois por meio dEle tanto nós como vocês temos acesso ao Pai, por um só Espírito. Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (Efésios 2.17-19). “Agora que vocês purificaram a sua vida pela obediência à verdade, visando ao amor fraternal e sincero, amem sinceramente uns aos outros e de todo o coração” (1Pedro 1.22). “Seja constante o amor fraternal” (Hebreus 13.1).

3. SEGUIR OS DEVIDOS TRÂMITES, seguir o devido caminho, o atalho determinado.

O devido caminho de uma jornada com Deus rumo ao Céu é o caminho da renúncia. Há muita gente que desiste de marchar quando é necessário viver a angústia de recusar-se a satisfazer um desejo da carne, do eu, do pecado, do mal, do mundo, a fim de agradar ao Senhor.

Há quem chame de “cruz” aquela pessoa que comprou um produto seu e não lhe pagou, ou aquele funcionário (ou, por outro lado, o chefe) que tanto incomoda, ou ainda, aquele filho rebelde ou até as contas para pagar no final do mês. Mas a cruz é muito mais que isso. É renúncia, é a dor da perda por amor Quem mais nos amou, é a morte para tudo o que possa nos afastar de Deus.

Olhe para o alto do madeiro e veja quem deve estar lá agora. Não Jesus, porque Ele já ressuscitou e já voltou para o Céu onde é o Seu merecido lugar (Mateus 28.6 e Atos 1.9-11). Também não deve ser você hoje, porque hoje você deve estar renascido em Deus: “Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem, que se corrompe por desejos enganosos, a serem renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade” (Efésios 4.22-24).

Olhe novamente, com atenção. Procure entre os ladrões, entre os assassinos, entre os mentirosos, entre os idólatras, entre os hipócritas, os medrosos, os bêbados, os arrogantes, os presunçosos, os maldizentes, os devassos, os avarentos, os homossexuais, os desleais, os implacáveis, os tímidos... Procure entre todos os que ficarão de fora do Reino dos Céus (Romanos 1.28-32; 1Coríntios 6.10; Apocalipse 21.8) e veja se você vê a cruz. Ela está vazia? Se estiver, volte atrás, pegue a tua cruz, siga os passos de Cristo e suba o monte Calvário. Não mude de direção novamente. Você precisa morrer para o mundo, aprender o valor do perdão e conhecer mais profundamente a força do amor.

É você quem deve estar lá, no alto da cruz agora!

Olhe para a cruz e veja o velho homem lá, pendurado no madeiro, servindo de escárnio para quem não compreende os mistérios de Deus. Deixe que critiquem-no por você não querer descer de lá para mostrar sua auto-determinação. Deixe que zombem por você ter preferido morrer para o mundo do que viver como ele vive, ainda que ele entenda ser essa a maneira feliz para se viver. Deixe que caçoem de sua postura obediente a Deus, a ponto de morrer para as suas próprias vontades, vivendo sob a dependência do Senhor, em vez de decidir seus próprios rumos como mundanos fazem, em vez de preferir riquezas e fama como o mundo prefere. Deixe que pensem e falem o que quiserem... apenas viva seus últimos suspiros e então, morra!

Morra para tudo o que possa te separar do amor de Deus. Deixe que venha a óbito aquele velho homem cheio de pecados e maldoso. Suba o monte com sua cruz nas costas, seja crucificado nela como foi Jesus em seu madeiro, e morra! Não desvie-se do caminho quando você observar os pregos e achá-los assustadores. Não queira mudar de rota quando começar a sentir o amargor de ser pendurado numa maldita cruz como um ladrão, um pervertido, um criminoso. Na verdade, você é. Nós somos. O pecado causou isso em nós.

Se você quiser, dará tempo de desistir. Dará tempo até de descer da cruz antes de morrer totalmente. Deu tempo para Jesus. Mas Ele preferiu ser obediente até a morte, cumprir Sua missão até o fim, viver a santidade integralmente, e não parcialmente – só como e quando Lhe fosse conveniente.

Seu exemplo de vida é Cristo? Então olhe para o alto da cruz e veja-se morto lá no lugar por onde Ele também já passou. Veja Seu velho homem pendurado no madeiro onde é o lugar dele. O Cristo ressurreto já está nos Céus, preparando um lugar para você que já morreu para o mundo e agora vive para Deus. Veja lá no Calvário só o velho homem que foi você um dia, pois o novo agora é uma nova criação para o louvor da glória do Pai.

Um novo ser, que segue pelos devidos trâmites da salvação... e marcha impoluto para o Céu, deixando o passado para trás e olhando firme para o alvo, pois agora, regenerado, os teus ouvidos ouviram “a palavra do que está por detrás de ti, dizendo: ‘Este é o caminho; andai nele sem te desviares nem para a direita, nem para a esquerda’” (Isaías 30.21).

4. DIRIGIR-SE A... A expressão “marchar” também foi dita por Deus para nos lembrar que Ele é o nosso supridor. Dele vem tudo o que precisamos, seja espiritual, seja materialmente falando. Ninguém conhece-nos melhor que Ele, por isso, ninguém está mais apto a nos cuidar do que Ele.

Não fosse ajuda do Senhor, eu já estaria habitando no silêncio. Quando eu disse: Os meus pés escorregaram, o Teu amor leal, Senhor, me amparou! Quando a ansiedade já me dominava no íntimo, o Teu consolo trouxe alívio à minha alma.” (Salmos 94-17-19)

E essa verdade é que deve nos levar a dependermos de Deus, humilhando-nos debaixo da poderosa mão do Senhor, para que Ele nos exalte no tempo devido, lançando sobre Ele toda a nossa ansiedade, pois Ele tem sido fiel e tem cuidado de nós (1Pedro 5.6-7). Pois “é melhor buscar refúgio no Senhor do que nos homens. É melhor buscar refúgio no Senhor do que em príncipes.” (Salmos 118.8-9)

...Perseverai na oração”, foi a instrução do apóstolo. Ele sabia, na prática, que dirigir-se a Deus constantemente e levar ao Senhor todas as intenções e súplicas do nosso coração é a única maneira de continuarmos marchando com vigor até que entremos pelos portões do Reino.

5. PROGREDIR, AVANÇAR. Não se conformar com o nível espiritual que já se tem, por mais que pareça intenso. Buscar crescer, sempre mais, não só em conhecimento, mas em sabedoria, em graça e em intimidade com Deus. E isso nós alcançamos através da Bíblia e de momentos a sós com nosso Amado Senhor.

Nenhuma pessoa que obteve progresso em seu ministério, em sua vida com Deus, conseguiu obtê-lo pura e simplesmente pelos seus próprios esforços e méritos. Tudo dependeu (e sempre dependerá) da entrega e da busca cada vez mais intensa, constante e desinteressada pelas coisas que vêm de Deus.

Nunca nossa alma se farta de aprender com o Senhor nem de estar com Ele. Quanto mais O conhecemos, mais queremos conhecer. Quanto mais nos aproximamos dEle, mais queremos nos aproximar. Foi por isso que o profeta Oséias convidou-nos: “Venham, voltemos para o Senhor... conheçamos o Senhor e esforcemo-nos por conhecê-Lo. Tão certo como nasce o sol, Ele aparecerá; virá para nós como as chuvas de inverno, como as chuvas de primavera que regam a terra” (Oséias 6.1,3).

O ritmo da nossa marcha acelera quando conhecemos o Senhor. Nossos pés se tornam como os da corça, apressados para encontrá-Lo sobre os montes (Habacuque 3.19)...

6. IR EM BUSCA... de quê? O que buscamos? O que esperamos alcançar marchando, seguindo pelo caminho da salvação? As bênçãos que a Palavra de Deus nos propôs para esta vida?

Se a sua resposta for sim, não se admire da minha franqueza, mas você está entre os mais miseráveis de todos os homens (1Coríntios 15.19), “porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura” (Hebreus 13.14).

De nada adiantará ajuntar riquezas aqui, esperar em Cristo para conseguir luxo e conforto nesta vida, se chegarmos ao nosso destino final sem o Espírito Santo, que é o bem mais precioso que alguém pode ter em vida. “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu” (Apocalipse 3.17).

A nossa cidadania, porém, está nos Céus, de onde esperamos ansiosamente o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Pelo poder que O capacita a colocar todas as coisas debaixo do Seu domínio, Ele transformará os nossos corpos humilhados, tornando-os semelhantes ao Seu corpo glorioso” (Filipenses 3.20-21).

Marchar... até que cheguemos ao Lar Celestial, nos submetendo a todo tipo de situação nessa vida, mas nunca tirarmos os olhos da eternidade onde Cristo está nos esperando.

Que o Senhor continue falando ao teu coração, fortalecendo a tua fé e te acompanhando nessa marcha para a eternidade.

Em Cristo.

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[1] Êxodo 12.37-38: “...Havia cerca de seiscentos mil homens a pé, além de mulheres e crianças. Grande multidão de estrangeiros de todo tipo seguiu com eles...”. Estima-se cerca de 3 milhões de pessoas nesse montante.

[2] Pr. Valmir Santana, Ig. Assembléia de Deus em Santa Maria-DF (
ver página no Orkut).