segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Os fins justificam os meios



OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS


Certa vez, minha mãe resolveu fazer um almoço para o meu aniversário. Embora ela estivesse convalescendo por causa de uma intervenção cirúrgica de grande porte recentemente, combinou com uma vizinha para preparar a comida conforme suas orientações.

Eu estava na Escola Dominical. E depois de nossa reunião, uma irmã muito querida me convidou para ir até a casa dela. Ali, conversamos alguns assuntos pessoais, sorrimos, contamos abobrinhas... Acabou o assunto, inventamos outros... até que seu esposo chegou – cerca de duas horas depois – e se ofereceu para me levar em casa. Confesso que me senti incomodada com aquela situação, porque só pensava na bronca que eu ia levar da minha mãe quando chegasse em casa por não ter lhe avisado que iria a outro lugar após a Escola Bíblica. E também porque achei estranha tanta gentileza da parte da Luzia e do Marcos – não que essa deixe de ser uma característica desse casal, mas porque tudo aquilo estava fora da nossa rotina.

Quando chegamos em casa, eles foram me deixar lá dentro – isso também estava fora da nossa rotina... Fui entrando desconfiada. Minha mãe era (e continua sendo) muito valente. Pelo menos umas três desculpas diferentes se passaram pela minha mente enquanto eu entrava pelo portão, cruzava a garagem e abria a porta da sala, mas a única conclusão a que cheguei foi que devia resmungar em pensamento. E resmunguei: “Se eu tivesse voltado sozinha da igreja teria tempo de pensar em uma boa explicação no caminho...”. Eu esperava o pior: outra briga por causa do meu atraso. Mas ao entrar, surpresa! Meu pastor e sua esposa estavam assentados à uma farta mesa, composta por minhas comidas preferidas. Minha mãe veio andando lentamente com a vizinha ao lado enquanto Luzia e Marcos cantavam “parabéns pra você” atrás de mim.

Foi uma surpresa muito agradável. Eu não esperava. Não mesmo. Mas mamãe já havia combinado tudo com eles em secreto. Eu não sabia o que se passava e, embora tenha entrado naquela sala com um coração apertado (pois eu conheço bem a mãe que eu tenho!), minha angústia logo se transformou em alegria. Só então compreendi motivo de Luzia ter se esforçado tanto para prender minha atenção e me segurar em sua casa mesmo quando eu tentava encerrar o assunto. Literalmente, o fim justificou os meios.

A Bíblia nos conta histórias semelhantes, mas em especial quero recordar brevemente esse pequeno episódio descrito por Mateus 17.22-23:

Reunindo-Se com eles [Seus discípulos] na Galiléia, Jesus lhes disse: ‘O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens. Eles O matarão, e no terceiro dia Ele ressuscitará’. E os discípulos ficaram cheios de tristeza.” (NVI)

Os discípulos ficaram tristes por causa desse aviso de Jesus. Ele contou-lhes o que aconteceria dentro de mais alguns dias, desde a Sua prisão até o esvaziar do Seu túmulo. Jesus tinha lhes falado: “Morrerei... mas ressuscitarei”. E ninguém se alegrou com isso. Mateus foi muito sincero ao escrever que “os discípulos ficaram cheios de tristeza”. Ele também era um deles.

Ficaram cheios de tristeza porque só prestaram atenção na primeira parte das palavras de Cristo. Permita-me repeti-las: “O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens. Eles O matarão...”.

“O matarão”. A parte mais trágica. O Mestre, o Santo Filho de Deus, Bondoso e cheio de amor sendo entregue nas mãos de algozes. Os judeus conheciam de perto o que os soldados podiam fazer com os prisioneiros. Temiam, pois, os requintes de crueldade pelos quais Jesus poderia passar.

Na verdade, em determinado momento, quando Jesus tocou nesse assunto pela primeira vez, veja a reação de um deles: “Nunca, Senhor! Isso nunca Te acontecerá!” (Mateus 16.22 - NVI). A visão de Pedro foi a mesma que nós temos quando momentos angustiantes são anunciados para nossas vidas. Quando vales são apontados pelo dedo de Deus para nós como um trecho obrigatório da nossa trajetória.

As adversidades chegam e nós não compreendemos o motivo. Às vezes até buscamos os porquês em nós mesmos: “O que foi que eu fiz, Senhor, para merecer isso?”. Talvez realmente seja por merecimento. Mas o mais provável é que seja por necessidade.

As lutas e provações em nossas vidas têm um motivo. E mesmo quando desconhecemos este motivo, elas não deixarão de se cumprir. Deus tem um porquê. Por isso, não devemos nos acovardar, nos permitir desmoronar, nos entregar à derrota. Uma coisa é certa: as advesidades são necessárias e sempre vêm ao nosso encontro no momento certo.

Há um provérbio indiano que diz que “águas mansas não fazem bons marinheiros”. Nessa mesma visão devemos entender que lutas e provações não são enviadas aos filhos de Deus para lhes aniquilar, mas para lhes edificar.

Como Pedro, diante de um vale que nos é apontado, nossa primeira tendência é fugir. Negar a possibilidade de atravessá-lo. Dar meia-volta e procurar um atalho menos sofrível. Esqueça! A maior distância entre dois pontos são os atalhos. “O vale”, ou “o deserto”, ou "as águas", ou “as chamas” – como você preferir – estão lá, esperando por você. Não para te tragar, mas para te levar mais perto de Deus.

Algumas passagens bíblicas ilustram o Senhor Deus prometendo passar Seus filhos por momentos difíceis, a fim de realizar grandes propósitos, dentre os quais santificá-los, transformá-los e aproximá-los de Si mesmo:

E estes que sobrarem Eu farei passar pelo fogo. Eu os purificarei como se purifica a prata e os refinarei como se refina o ouro. Aí, eles orarão a Mim e Eu os responderei. Direi: ‘Vocês são o Meu povo’; e eles responderão: ‘O Senhor é o nosso Deus’.” (Zacarias 13.9 - NTLH)

Ele Se assentará para purificar os sacerdotes, os descendentes de Levi, como quem purifica e refina a prata e o ouro no fogo. Assim eles poderão oferecer a Deus os sacrifícios que Ele exige.” (Malaquias 3.3 - NTLH)

Corrupção do gênero humano. Distanciamento de Deus por parte daqueles que se diziam “povo Seu”. Pecados a serem reconhecidos e confessados e muitas feridas a serem tratadas. Era isso o que Deus estava vendo. Era necessário passar Seu povo pela fornalha da aflição e ter um particular com eles lá dentro, para que Suas orações verdadeiramente fizessem sentido e seus sacrifícios realmente fossem agradáveis.

Contudo, Deus não os “jogaria” para dentro de situações adversas e os abandonaria. Não. O nome do Senhor Deus é Zeloso (Êxodo 34.14) e Ele tem responsabilidade em todas as Suas ações.

Assim como o ourives, Deus Se assenta à frente da prata e coloca no meio das chamas, onde elas estão mais quentes. Ali mantém sua pedra preciosa, a fim de queimar todas as impurezas do pecado, como a prata é limpa, apurada, refinada. Não retira dela os Seus olhos, para que não passe do momento certo de tirá-la das chamas. E sabe qual é o ponto certo quando, como o ourives com a prata, o Senhor vê a Sua imagem refletida no ser humano.

Mesmo no meio das chamas, os filhos de Deus estão sob os Seus cuidados. Foi assim com Azarias, Hananias e Misael, os três jovens lançados dentro da fornalha (Daniel 3). Antes que eles fosse colocados dentro do grade forno em chamas, o quarto homem, “semelhante a um anjo” (Daniel 3.25) já estava lá dentro, para não permitir que Seus amados fossem incinerados. O Senhor não deixaria que o fogo ferisse o corpo deles. Nem permitiria que um só fio de cabelo das suas cabeças fosse danificado. Tampouco consentiria ao menos que o cheiro da fumaça fosse encontrado neles (Daniel 3.27). Sem que entrassem lá dentro, os soldados que jogaram os rapazes crentes no interior da fornalha extraordinariamente quente foram mortos por essas mesmas chamas (Daniel 3.22). Imagine o que poderia acontecer com os jovens que caíram amarrados dentro delas! (Daniel 3.23)

Mas tudo isso tinha um propósito: revelar a glória de Deus a Nabuconosor, que se achava o próprio deus digno de ser adorado; também para exaltar Seus servos diante do mal que os queria destruir e registrar a grandeza da fidelidade de Deus para com aqueles que O amam e temem. Da mesma maneira, havia um propósito para a morte de Cristo – ainda que ninguém a compreendesse. Tinha um propósito no almoço do meu aniversário. E tem um propósito da sua causa também.

Passar por uma adversidade não deve ser algo temido por nenhum cristão. Passar por ela sem a presença de Deus é que deve.

Os jovens que seriam lançados naquela fornalha ardente pensaram também na possibilidade de virarem churrasquinhos. Mas não recuaram em sua fé. Foram mais firmes em confiar na inteligência divina do que Pedro em confiar na sanidade de Jesus. Não duvidaram da sabedoria de Deus caso Ele viesse a permitir tal acontecimento. E sem dar muita ousadia para o arrogante e auto-suficiente rei da Babilônia, os jovens participam de um pequeno diálogo que me empolga sempre que leio. Vamos rever:

Sadraque, Mesaque e Abede-Nego [nomes que os três receberam dos chefes oficiais da Babilônia – Daniel 1.6-7] responderam ao rei: ‘Ó Nabucodonosor, não precisamos defender-nos diante de ti. Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e Ele nos livrará das tuas mãos. Mas, se Ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos teus deuses nem adoraremos à imagem de ouro que mandaste erguer.” (Daniel 3.16-18 - NVI).

Eles sabiam que não estavam sozinhos. Fosse qual fosse a decisão final de Deus a respeito das suas vidas, eles sabiam que poderiam contar com a fidelidade do Senhor a quem dedicavam suas vidas.

Pedro não tinha a mesma convicção. Ele temeu ficar sem Jesus. Temeu ver Jesus sofrendo. Temeu ver o bem perdendo para o mal. E quis mudar a direção nos fatos que Deus já havia determinado. Quis tomar atalhos. Não confiou que Deus sabia o que estava fazendo e que Jesus soubesse o que estava dizendo.

Eu também não confiei que o Deus a quem eu acabara de prestar um culto na Escola Bíblica Dominical fosse capaz de “amansar a fera” lá em casa e permitir que minha manhã continuasse sendo de paz, sem estresse, sem brigas. Pensei que eu tinha que resolver tudo. Mas Ele estava preparando um fim excelente. Muito melhor do que eu podia imaginar.

Quando Pedro recebeu a visita de Jesus Cristo ressuscitado, ele compreendeu que aquela vitória justificava todo aquele sofrimento. Compreendeu que o fim justificava os meios. Compreendeu que quando tudo parecia perdido, Deus estava trabalhando para garantir – não só aos judeus daquela época mas para os homens de todas as eras – um fim muito mais excelente. Melhor do que qualquer um de nós poderia imaginar, mesmo tendo conhecimento das profecias das Escrituras Sagradas.

Só então ele se lembrou da segunda parte da afirmação de Jesus: “... e no terceiro dia Ele ressuscitará” (Mateus 17.23). E em vê-la cumprida, Pedro nunca mais foi o mesmo.

O que o Senhor quer de você hoje é mais um pouquinho de fé. Confiança em Seus propósitos, ainda que você os desconheça. Submissão às Suas diretrizes, ainda que pareçam completamente ilógicas, impossíveis ou fora da sua rotina...

A última luta te fortaleceu para enfrentar essa de agora. E essa luta de agora te prepara para a próxima grande batalha. Nada de atalhos! Nada de renunciar a cruz! Na-na-ni-na-não.

Se Cristo não tivesse levado a Sua cruz até o fim o mundo não teria sido salvo.

Se eu não tivesse terminado de cruzar a garagem e entrado pela porta da sala não teria compartilhado tão maravilhoso almoço de aniversário com pessoas que eu tanto amava.

Se você não passar pelo fogo não vai ver o “Quarto Homem” lá dentro revelando Sua forma mais próxima, amorosa e cuidadosa como você jamais viu.

No final, os jovens foram promovidos e o nome de Deus foi glorificado (Daniel 3.30).

Jesus foi exaltado acima de todo nome e o mundo recebeu a salvação eterna do Senhor (Filipenses 2.5-11; João 3.16).

Eu vivi momentos agradáveis como poucos eu tive. E Deus continua sendo glorificado por isso.

Ele será glorificado em sua vida. E o que sobra pra você?

Bem... Se creres verás a glória de Deus.

Se não for nessa terra, certamente será na eternidade.

Paz do Senhor seja em você até que você chegue lá.