segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Raízes





A parábola do Semeador, ao contrário do que muitas pessoas pregam, não traz uma mensagem exclusiva sobre a missão da igreja, mas conta sobre o comportamento daquelas pessoas que foram alcançadas pelo Evangelho. Com exceção apenas da primeira situação que trata das pessoas que ouvem a Palavra mas não Lhe dão crédito por não entendê-la, a parábola contada por Jesus fala sobre pessoas crentes.

No primeiro caso, conta sobre a mensagem que não se aprofundou na terra do coração porque caiu como semente somente à beira do caminho e logo o maligno se encarregou de retirar o que foi semeado ali. (Mateus 13.4 com 13.19)

Mas nas três situações seguintes, esta parábola de Jesus conta sobre a semente (Palavra de Deus – Lucas 8.11) vingando dentro dos corações dos cristãos que a ouviram. Porém, com desfechos diferentes.

No caso daquela que foi lançada entre espinhos – retratando as preocupações da vida, os enganos das riquezas, o apego às coisas materiais – logo foi sufocada, quando esses espinhos cresceram. A planta não pôde produzir nada (Mateus 13.7 com 13.22). É o quadro de uma fé morta, sem obras que a testifiquem; sem experiências que a tornem contagiante. Não morre, mas também não frutifica.

Em se tratando da semente lançada em boa terra, isto é, da Palavra que alcançou ou coração esforçado para entendê-La e guardá-La (Mateus 13.8 com 13.23), um resultado muito agradável foi o ocorrido. A planta produziu muitos frutos, em diferentes quantidades, de acordo com a terra em que foi cultivada. É o mesmo que dizer que, em diferentes corações cheios do amor à Palavra de Deus agem de formas e intensidades diferentes, mas sempre produzindo frutos para a sua edificação, para a glória de Deus e para a expansão do Seu Reino.

Contudo, chamou-me à atenção aquela situação em que a semente foi lançada “num lugar onde havia muitas pedras e pouca terra. As sementes brotaram logo porque a terra não era funda. Mas, quando o sol apareceu, queimou as plantas, e elas secaram porque não tinham raízes. (...) São as pessoas que ouvem a mensagem e aceitam logo, com alegria, mas duram pouco porque não têm raiz. E, quando por causa da mensagem chegam os sofrimentos e as perseguições, elas logo abandonam a sua fé.” (Mateus 13.5-6 com 13.20-21 – NTLH).

Nesse trecho, a Bíblia trata a nossa fé como sendo nossas raízes. E não por acaso, pois a fé é para o homem o que a raiz é para a planta.

Assim como a raiz segura a planta firme no chão, pela sua fé em Deus o homem permanece em pé.

A fé é o firme fundamento...” (Hebreus 11.1). Ela é a sustentação. O fundamento de uma casa é, mais especificamente, o alicerce, aquela parte que não se vê da casa mas sem a qual a casa não pode resistir às chuvas nem aos ventos e, mais eventualmente, aos abalos sísmicos. O fundamento não é visto nem por quem está de fora nem por quem está dentro da casa, mas ele existe, e está lá, mantendo a edificação de pé. Se for construído com materiais de melhor qualidade, será sempre firme. Se não, mesmo existindo compromete a segurança de toda a estrutura da casa e é motivo de risco para seus moradores. Contudo, seja como for, o fundamento da construção é o grande responsável pela sua estabilidade. Igualmente, a fé não é vista nem por nós nem pelos outros, mas existe e mantém nossas vidas espirituais de pé. Se for construída dia-a-dia através de bons propósitos, será sempre forte e não se abalará com nenhuma adversidade. Do contrário, será uma fé doente, débil, incompleta.

Sob essa mesma ótica, a fé é nossa raiz e nos sustenta firmes contra temporais, assim como as plantas são sustentadas pelas suas raízes no chão. A palmeira, por exemplo, é um modelo de planta bem segura no solo pelas suas imensas raízes, capazes de sustentá-la com firmeza contra ventos fortíssimos que chegam a envergar o tronco dessa planta quase a ponto de tocar sua copa no chão.

Pessoas cuja fé é exclusivamente estabelecida em Jesus Cristo, enfrentam desventuras mil sem se desestruturar emocional ou espiritualmente. Conseguem encontrar paz onde a vida se tornou um caos; conseguem manter viva a esperança quando a batalha está mais intensa; conseguem sonhar e recomeçar, mesmo vendo os escombros depois da fúria do furacão que passou.

Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do Senhor, o nosso Deus. Uns se prostram e caem, mas nós nos erguemos e estamos de pé” (Salmos 20.7-8). Esta é a fé radicada em Deus; uma raiz que nos mantém – assim como a palmeira – firmes contra os ventos e sempre reerguendo-nos novamente após eles para continuarmos em pé.

Assim como quanto mais profundas são as raízes, mais firmes estão as plantas, assim também quanto mais nossa fé desce na presença de Deus, mais firmes nos tornamos.

Uma fé cresce quando o homem desce de joelhos, em oração constante e sincera. A é nutrida quando o homem abdica o alimento do corpo e dedica períodos de jejum ao seu Senhor, com o propósito de alimentar a alma, de aproximar-se mais de Deus, de ficar mais exposto ao Seu agir e, conseqüentemente, aprender mais com Ele. Uma fé prospera quando o homem renuncia. Mantém-se viva quando refugia-se na Palavra de Deus diariamente. Uma fé age corretamente quando pensa e age direcionada por Deus e pelas coisas que são do alto.

Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus.” (Colossesses 3.1-3 – NVI)

Uma vez sabendo disso, é importante observar que raízes crescem literalmente para baixo, assim como a fé do homem, que aumenta quando ele diminui-se diante de Deus.

O Senhor derruba a casa dos orgulhosos. (...) O Senhor detesta os orgulhosos de coração. Sem dúvida serão punidos.” (Provérbios 15.25 e 16.5 - NVI)

A arrogância de Israel testifica contra ele, mas, apesar de tudo isso, ele não se volta para o Senhor, para o seu Deus, e não O busca.” (Oséias 7.10 – NVI)

A altivez de espírito abate o homem de diante de Deus e transforma suas possibilidades de aproximar-se do Pai em duras quedas para ainda mais distante dEle. A humilhação, porém, aproxima o homem de Deus, porque aquele reconhece que Deus é quem detém toda sabedoria, poder e glória, e que nada do que se possui pode ter vindo de outra fonte se não do próprio Senhor (Colossenses 1.16-17; João 1.1-2; Romanos 11.36).

Quanto mais o homem se entrega a Deus, reconhece seus erros, fraquezas e limites, e quanto mais ele se permite ser moldado por Deus, mais sua fé é regenerada, mais ela se aprofunda em sua dependência e mais crê, suporta e espera pelo que parece impossível, sem se impressionar com o que é difícil e, assim, ultrapassando cada limite imposto por sua natureza humana.

Não são altos dízimos que tornam o homem mais firme em sua caminhada com Deus. Tampouco sua bela voz afinada, nem seus dons. Não são os diplomas de Teologia nem os cargos internos na congregação. Não é a sua agenda cheia nem a sua intimidade com o pastor. O que aprofunda a fé do homem e lhe torna cada vez mais firme neste estreito caminho para o Céu é a sua entrega ao Senhor, o seu esvaziamento constante e rebaixamento para que o Senhor aperfeiçoe o Seu poder e revele Sua glória (2Coríntios 12.9).

Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” (Salmos 34.18). É necessário que Ele cresça e que o homem diminua (João 3.30), porque Deus está onde o orgulho humano não está.

Assim como as raízes da planta costumam se chocar com pedras e até pedaços de rocha escondidos dentro da terra, nossa fé costuma se chocar com obstáculos. As raízes contornam as pedras. Nossa fé deve fazer o mesmo em relação às adversidades.

Falta de tempo, decepções, problemas, embaraços, desperdício de tempo com coisas vãs, humilhação, necessidades, afrontas, dúvidas, perseguições... são pedras que devem ser contornadas pelas raízes da fé. Retire a planta do chão e veja quantas pedrinhas (e às vezes até pedregulhos) estão enroscados em suas raízes! Mas perceba – e com muito apreço – que a planta não deixou de aprofundar suas raízes por isso. Ela contornou os problemas e prosseguiu seu curso.

Já vi, por diversas vezes, minhas plantinhas embolando suas raízes no fundo do jarro. Quando eu as plantei, o jarro era suficiente para elas crescerem. Mas depois que cresceram, ele se tornou pequeno demais mas, mesmo assim, suas raízes não pararam. Elas se desenvolveram e, com jeitinho, se enrolaram em vários círculos no fundo do vaso, abaixo da terra, esperando o momento de eu ir transferi-las para um vaso maior.

Ana, a mãe de Samuel, foi um exemplo dessas pessoas que continuam aprofundam suas raízes na direção de Deus, mesmo que haja pedras no caminho onde as raízes freqüentemente se enroscam.

Ela, a mulher de Elcana, não podia ter filhos. Era estéril. Mas com uma oração sincera, Ana contornou a pedra que estava no meio e cresceu mais um pouco levando sua necessidade ao Senhor. Deus a ouviu e Ana não só teve Samuel, mas deu à luz três filhos e duas filhas (leia Samuel 1 e 2).

O Rei Ezequias também aprendeu a contornar problemas através da oração, da humilhação, da exaltação ao Senhor e da dependência de Deus.

Os capítulos 36 e 37 de Isaías nos contam sobre a afronta de Senaqueribe, rei da Assíria. Ele havia atacado todas as cidades fortificadas de Judá e se apossou delas. Depois, foi ofender os israelitas com humilhações terríveis, principalmente diminuindo e ridicularizando ao Senhor que guardava os israelitas.

O comandante, porém, respondeu: Pensam que o meu senhor mandou-me dizer estas coisas só a vocês e ao seu senhor, e não aos homens que estão sentados no muro? [que de, longe assistiam às ofensas] Pois, como vocês, eles terão que comer as próprias fezes e beber a própria urina. (...) Não deixem que Ezequias os engane quando diz que o Senhor os livrará. Alguma vez o Deus de qualquer nação livrou sua terra das mãos do rei da Assíria? (...) Como então o Senhor poderá livrar Jerusalém das minhas mãos?” (Isaías 36.12,18,20b - NVI)

À princípio, o rei Ezequias procurou o profeta Isaías para saber o que Deus faria. Deus não respondeu com detalhes sobre o que faria. Apenas mandou recado dizendo que faria algo pelo Seu povo porque foi a Ele que os assírios ofenderam (Isaías 37.1-7). Depois de informar isso ao comandante da guarda assíria, o rei Ezequias recebeu uma carta que lhe deixou ainda mais angustiado. Mas agora, ele mesmo falaria com Deus através da oração, com um coração necessitado de Deus e disposto a ouvi-Lo (Isaías 37.14-20). E foi aqui que Deus Se levantou do Seu trono e interferiu na situação do Rei, para despedaçar a rocha que estava no caminho da sua fé. E podemos ler sobre Deus contando até os detalhes do Seu plano, pois a um coração quebrantado o Senhor não despreza (Salmos 51.16-17):

De quem você zombou e contra quem blasfemou? Contra quem você ergueu a voz e contra quem levantou seu olhar arrogante? Sim, você insultou o Senhor por meio dos seus mensageiros (...) Sim, é contra Mim que você se enfurece, o seu atrevimento chegou aos meus ouvidos; por isso, porei o Meu anzol em seu nariz e o Meu freio em sua boca, e o farei voltar pelo caminho por onde veio. (...) Não entrará na cidade e não atirará aqui uma flecha sequer. (...) Eu defenderei esta cidade e a salvarei, por amor de Mim e por amor de Davi, Meu servo.” (Isaías 37.23, 29, 34, 35 - NVI)

Então, o anjo do Senhor saiu e matou cento e oitenta e cinco mil homens no acampamento dos assírios. Quando o povo se levantou na manhã seguinte, só havia cadáveres! 0(Isaías 37.36)

A rocha que estava empatando as raízes da fé de Ezequias crescerem e se aprofundarem na imensidão do amor e do cuidado de Deus, foi contornada por sua atitude humilde e determinada de buscar ao Senhor até encontrá-Lo. E encontrou. Sua fé foi honrada e todo Israel regozijou-se com voz de muito júbilo por causa da glória de Deus que se viu naquele dia, pois havia chegado o momento em que a fé do rei Ezequias seria transferida para um “vaso maior”, uma situação onde não precisaria mais ficar tão apertada. E seria exaltada diante de todos os que zombaram dela tão pequena, no fundo do vaso (na imensidão do vale).

As raízes absorvem água e retiram nutrientes do solo para suprir as necessidades da planta. E é pela nossa fé que recebemos água da vida e nutrientes celestiais que suprem nossas necessidades espirituais (e físicas também).

Sem água e sem nutrição a planta na pode sobreviver. Nosso espírito também não. Jesus disse: “Eu sou o pão da vida; aquele que vem a Mim nunca terá fome, e quem crê em Mim nunca terá sede.” (João 6.35)

Isso significa que, em toda a nossa jornada e crescimento, devemos buscar Jesus, nos fartar da Sua presença, nos alimentar dEle, para quando o sol escaldante despencar a força de seus raios sobe nós, nossas folhas não se sequem por não possuírem raízes; nossos frutos continuem sendo produzidos, pois nossa fé (nossas raízes) está sendo constantemente revigorada pelas águas do Senhor e seus nutrientes insubstituíveis para nossa saúde espiritual.

Se não houver raízes na planta, esta pode até crescer de forma deficiente, mas não vingarão frutos. E, depois de algum tempo, a planta morrerá.

Jesus disse que a semente brotou mas a planta se queimou quando veio o sol porque não tinha raízes (Mateus 13.5-6). Do mesmo modo, sem fé, uma pessoa pode até freqüentar uma igreja, participar dos eventos, ser um dizimista e visível ofertante. Mas não passará de um crente. Não será um ser em constante santificação (Hebreus 12.14). Não produzirá frutos para o Reino. Não produzirá o fruto do Espírito Santo. Conseqüentemente, não suportará o calor do sol, isto é, a dureza das lutas, das perseguições a que todo filho de Deus está sujeito. E depois de algum tempo, certamente morrerá na sua espiritualidade e desejará retornar para o lugar de onde veio.

O dicionário traz uma definição diferente para as palavras “crer” e “ter fé”. Crer é puramente acreditar em alguém ou em algum fato. Podemos crer nas promessas feitas por um candidato político em época de campanhas, em uma história que alguém nos contou sobre um fato qualquer... Mas a fé é a crença religiosa. É a adesão e anuência pessoal a Deus.

Por isso a Bíblia nos conta que “até os demônios crêem, e estremecem” (Tiago 2.19). Ela não diz que eles têm fé. Eles acreditam em Deus, sabem da Sua existência e do Seu poder, e tremem perante a Sua glória e dela fogem para as trevas. Mas não têm fé, porque a fé leva o homem a obedecer, a se entregar em dependência, a buscar a presença do Senhor permanentemente.

Sem raízes – e isto é o mesmo que dizer “sem fé” – as plantas (pessoas) se tornam simplesmente expectadoras de um culto em vez de adoradoras; permanecem unicamente na condição de ouvintes, em vez de amigas de Deus. E logo que vem o sol causticante, suas folhas se secam e seu vigor se esvai, porque não têm profundidade, não estão nutridas, não podem enxergar o impossível pelo poder de Deus.

Se você já sentiu a alegria de receber o Evangelho e está sentindo que está morrendo porque acha difícil demais as adversidades, se pensa em abandonar sua fé porque parece que Deus não está Se importando, lembre-se que tudo contribui para o bem daqueles que o Senhor ama e que foram chamados pelos Seus propósitos (Romanos 8.28). Procure encontrar de Deus os ensinamentos que Ele quer te dar neste momento, em meio a essas situações.

Não posso dizer especificamente quais são os propósitos do Senhor, mas me arrisco a citar pelo menos dois deles, que são as bases do nosso relacionamento com o Senhor: (1) Ele quer te ajudar a crescer espiritualmente – e não será abandonando a sua fé que você conseguirá isso; (2) Ele quer que você se aproxime ainda mais dEle. E só pela fé você conseguirá isso também.

Portanto, anime-se e reaja!

Dedique-se a nutrir suas raízes e a aprofundá-las cada vez mais. Elas estão plantadas numa terra que é cuidada pelo Eterno Jardineiro. E ainda que você não entenda, a parte que cabe a Ele está sendo feita com total perfeição e dentro do devido tempo.

Permita-se ser cuidado por Deus e firme-se na presença dEle. Sua paisagem se transformará de um árido pedregal para o jardim mais lindo e mais bem cuidado de toda a terra...

Que o Espírito Santo fale melhor em teu coração.

Sola Dei Gloria.