terça-feira, 28 de abril de 2009

Dispenseiros Fiéis

FIÉIS DESPENSEIROS


O encarregado da despensa, onde se guardam mantimentos, é o despenseiro.

Um despenseiro é um serviçal que tem contato direto com seu senhor e dele contraiu tal confiança, a ponto de o mesmo lhe confiar a chave de sua casa e dos seus celeiros, onde está guardada toda a provisão que garantirá o suprimento da família durante o ano inteiro. É o administrador dos recursos da família, designado para manter a ordem e o abastecimento da despensa e da casa, como um todo, sempre em dia. Dessa forma, ele, o despenseiro, se torna uma espécie de "distribuidor dos mantimentos".

Na Bíblia, lemos essa palavra associada à responsabilidade que a Igreja tem de anunciar o Evangelho de Jesus Cristo. Leiamos a passagem de 1Coríntios 4.1-2 em versões diferentes:

"Que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus. Além disso, requer-se nos despenseiros que cada um se ache fiel." (ARC)

"Portanto, que todos nos considerem como servos de Cristo e encarregados dos mistérios de Deus. O que se requer destes encarregados é que sejam fiéis." (NVI)

"Vocês nos devem tratar como servidores de Cristo, que foram encarregados de administrar a realização dos planos secretos de Deus. O que se exige de quem tem essa responsabilidade é que seja fiel ao seu Senhor." (NTLH)

Em qualquer das traduções devemos perceber que o Evangelho é propriedade única e exclusiva de Jesus Cristo, que lho entregou a nós. Enquanto servos do SENHOR, somos apenas seus administradores, isto é, pessoas que, através dos dons que também receberam do SENHOR, agenciam a graça de Deus para que outros homens também sejam beneficiados por ela dentro da Igreja.

Aqui vemos a responsabilidade que recai sobre os filhos e filhas de Deus. Eles são mordomos, administradores, despenseiros da multiforme graça do SENHOR (1Pedro 4.10).

Com o dom que cada um de nós recebeu, devemos servir os outros, administrando fielmente essa graça de Deus em Suas mais variadas formas.

"Cada um exerça o dom que recebeu para aos outros, administrando fielmente a graça de Deus em suas múltiplas formas. Se alguém fala, faça-o como quem transmite a Palavra de Deus. Se alguém serve, faça-o com a força que Deus provê, de forma que em todas as coisas Deus seja glorificado mediante Jesus Cristo, a quem sejam a glória e o poder para todo o sempre. Amém." (1Pedro 4.10-11)

Infelizmente, muitos líderes e membros se apossam dos dons espirituais que Cristo lhes concede e os utiliza de forma inadequada, corrompida, para seu próprio ganho pessoal e não para a glória de Deus. Também se apoderam do Evangelho de Cristo e desvirtuam Sua mensagem centrada no sacrifício crucial do Filho de Deus e passam a pregá-la com base na supervalorização do homem. Por causa dessa perda de identidade genuinamente cristocêntrica, freqüentemente tomamos conhecimento da forma irresponsável e herética que muitas congregações e até denominações inteiras estão sendo conduzidas por homens:

"Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos." (2Timóteo 4.3-4)

São o inverso da maneira como Paulo declara o seu ministério à Igreja de Tessalônica, com registro de palavras e de obras:

"Apesar de termos sido maltratados e insultados em Filipos, como vocês sabem, com a ajuda de nosso Deus tivemos coragem de anunciar-lhes o Evangelho de Deus, em meio a muita luta. Pois nossa exortação não tem origem no erro nem em motivos impuros, nem temos intenção de enganá-los; ao contrário, como homens aprovados por Deus para nos confiar o Evangelho, não falamos para agradar pessoas, mas a Deus, que prova o nosso coração. Vocês bem sabem que a nossa palavra nunca foi de bajulação nem de pretexto para ganância; Deus é testemunha. Nem buscamos reconhecimento humano, quer de vocês quer de outros." (1Tesslonicenses 2.2-6 – Grifo nosso.)

É importante destacar que a Igreja não possui um dono se não Jesus Cristo. Os verdadeiros dons espirituais não provêm de outra fonte senão do SENHOR. Portanto, o Evangelho não deve ser adaptado aos padrões comportamentais naturalmente pecadores dos homens porque estes é que estão a serviço do Evangelho de Cristo, e não o contrário. (1Coríntios 3.21-23)

Enquanto despenseiros da salvação de Deus, devemos ser inclinados a praticar o bem e viver de maneira honesta, justa, irrepreensível, buscando unicamente a aprovação de Deus, a fim de semearmos a graça de Cristo pelo mundo e, ao mesmo tempo, contribuirmos para o aperfeiçoamento, isto é, a edificação da Igreja.

"Também agradecemos a Deus sem cessar o fato de que, ao receberem de nossa parte a Palavra de Deus, vocês a aceitaram, não como palavra de homens, mas conforme ela verdadeiramente é, como Palavra de Deus, que atua com eficácia em vocês, os que crêem." (1Tessalonicenses 2.13 – Grifo nosso.)

Observe que a pregação do Evangelho "atua com eficácia EM VOCÊS", e não "para vocês". A Graça de Deus, que nós não merecemos, nos dá a oportunidade e as condições para deixarmos o pecado e vivermos em santidade. A Palavra de Deus, que nos chega pela Graça de Deus, é o meio de transformação do homem pecador em nova criação (1Coríntios 5.17; Gálatas 2.20), e não um meio de prover as realizações dos desejos humanos espontaneamente voltados para o pecado e para a insubmissão a Deus. Mas essa Graça tem sido negociada e, de forma banalizada, empregada a mudar a glória soberana do Deus Altíssimo para a glória de um Deus comum, reverente até, e um tanto quanto desesperado. Um outro "deus "bonzinho" (2Coríntios 11.4), disposto a realizar todos os nossos desejos e obrigado a satisfazer todas as nossas imposições.

Mas Deus não é um "deus bonzinho". Ele é Bom (Salmos 118.1; 136.1; Marcos 10.17-18). E por ser Bom, é que Ele dá ao homem o que este necessita, e não o que cobiça. Por ser Bom é que Deus faz tudo perfeito e não realiza nossos caprichos egoístas, materialistas e temporais. Em vez disso, Ele provê voluntariamente o que precisamos, e nos ensina a vivermos priorizando os bens eternos, incorruptíveis e impagáveis, sem os quais não podemos manter comunhão com Ele (Hebreus 12.14; João 3.3,7).

Despenseiros fiéis, como a Bíblia ensina que devemos ser, não podem se esquecer nem se afastar dessa ordem de valores: Primeiro e impreterivelmente, o que é espiritual, o que é santo. O que segue a isso, é conseqüência do bom andamento dessa nossa intimidade com o Pai Celeste:

"Portanto, ponham em primeiro lugar na sua vida o Reino de Deus e aquilo que Deus quer, e Ele lhes dará todas essas coisas." (Mateus 6.33 – NTLH)

Veja: primeiro o Reino de Deus, que "não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo" (Romanos 14.17); e a Sua justiça, a oportunidade que temos para começar uma vida nova em Cristo e assim sermos religados a Deus, nosso Criador, pois "Ele [Jesus] foi entregue à morte por nossos pecados e ressuscitado para a nossa justificação" (Romanos 4.25).

Dependendo de como é vivida essa vida aqui neste mundo, realmente ela é muito satisfatória para as nossas ambições, agradável e até realizadora. Mas os despenseiros de Deus nunca devem se esquecer que o alvo das suas vidas é o caráter, e não o conforto. Devem, sim, ser capazes de, mesmo em meio ao sofrimento, distribuir a Graça como ela realmente é: melhor que a vida (Salmos 63.3), porque:

Na vida, a morte é o fim. Na Graça, a morte é o começo.
Na vida, o maior devora os menores. Na Graça, o Maior salvou os menores.
A vida é incerta, mesmo com toda a sabedoria humana. A Graça traz certezas irrevogáveis, que provêm da Sabedoria Divina.
A vida castiga os erros e deixa sérias conseqüências. A Graça perdoa os erros e faz das conseqüências preciosas lições para o crescimento espiritual.
Na vida, fazemos tudo o que queremos. Na Graça, fazemos tudo o que é certo.
Na vida, fazemos justiça com as próprias mãos. Na Graça, a justiça provém das perfeitas mãos de Deus.
A vida é curta. A Graça é eterna.
Na vida temos amigos. A Graça dá-nos irmãos.
A vida é um amontoado de dúvidas. A Graça é a solução.
A vida se perde na escuridão. A Graça dissipa as trevas com a luz de Cristo.
A vida questiona. A Graça responde.
A vida acontece no mundo. A Graça nos tira do mundo.
A vida é vencida pela morte. A Graça vence a morte.
A vida dá prazer. A Graça dá salvação.

Por isso, o conselho de Pedro "aos peregrinos" (1Pedro 1.1) deste mundo é: "...esperai inteiramente na Graça que se vos oferece na revelação de Jesus Cristo." (1Pedro 1.13 – ARA – Grifo nosso.)

Temos essa responsabilidade de guardar a Graça como ela é e reparti-la com nossos irmãos em Cristo e com o mundo sem nenhuma alteração.

"Cada um exerça o dom que recebeu para aos outros, administrando fielmente a graça de Deus em suas múltiplas formas." (1Pedro 4.1)

"Cada um", não "alguns"."Cada "eleito" (1Pedro 1.1), isto é, a Igreja como um todo, não somente os oficiais devem ser despenseiros do SENHOR, pois todos fomos capacitados para exercermos algum dom na Igreja de Cristo (Romanos 12.6). Portanto, as atividades do Reino não devem se concentrar em algumas pessoas, mas todos os membros do corpo devem se empenhar para que ele cresça, e de forma saudável.

"...exerça o dom que recebeu". "Dom", do grego Charisma, de Charis, que é "Graça". Graça que nada mais é do que favores que recebemos sem merecer e que, de graça também devemos repartir (Mateus 10.8).

"...para os outros". Os dons de Deus não devem ser usados egoisticamente para engrandecimento pessoal, mas para melhor servir ao crescimento do corpo de Cristo. (1Coríntios 14.12)

"...administrando fielmente a Graça de Deus..." O despenseiro é alguém que mesmo não sendo o dono, tem acesso aos seus recursos, para dispor deles, segundo a vontade do proprietário. Em saber que não somos donos mas apenas mordomos, administradores, despenseiros, agimos de forma responsável, fiel, cuidadosa (Lucas 12.42), pois mantemos viva a certeza que prestaremos contas ao "Dono da Casa" quando Ele voltar (Mateus 25:14-30, Lucas 19:19-28).

"...a Graça de Deus em suas múltiplas formas." Muitos filhos de Deus pensam não ter nenhum dom. Mas na verdade não é que não possuem e sim que ainda não reconheceram a capacidade espiritual ou natural que Deus já lhes concedeu, pois "existem tipos diferentes de dons espirituais, mas é um só e o mesmo Espírito Quem dá esses dons. Existem maneiras diferentes de servir, mas o SENHOR que servimos é o mesmo. Há diferentes habilidades para realizar o trabalho, mas é o mesmo Deus Quem dá a cada um a habilidade para fazê-lo." (1Coríntios 12.4-6 - NTLH).

O bom despenseiro esforça-se por manter a sua despensa sempre bem provida e variada. Ele busca de Deus os recursos para abastecerem seu espírito e servir o Evangelho à sua família, procurando não enojá-la, não causar-lhe indigestão espiritual, não promover uma intoxicação nas almas. Como bem escreveu John Stott, "assim é o despenseiro dos "mistérios de Deus": fiel no estudo e pregação da Palavra, e fiel em deixar que os homens sintam nela e através dela a autoridade de Deus; fiel ao pai de família, que nomeou para o cargo; fiel à família que depende dele para seu sustento; fiel aos bens que foram confiados ao seu cuidado."(*)

Que o SENHOR, nosso Deus, nos ajude a compartilharmos Sua Verdade, Sua Palavra, Seus dons, "de forma que em todas as coisas Deus seja glorificado mediante Jesus Cristo, a quem sejam a glória e o poder para todo o sempre. Amém." (1Pedro 4.10-11)

Que Ele mesmo nos ajude a sermos bons, fiéis despenseiros da Sua maravilhosa Graça, pois se não somos dignos de confiança em relação ao que é dos outros, quem nos dará o que é nosso? (Lucas 16.12)

A saber: nossa é a Glória, por herança (Romanos 8.17).

Que jamais percamos isso de vista.

Amém.

(**)


____________
(*) STOTT, John. O Perfil do pregador. São Paulo: Sepal, 1989, p.40.
(**) Salvas as citações devidamente identificadas, todos os versos bíblicos desta composição foram extraídos da Bíblia na Nova Versão Internacional (NVI).