domingo, 12 de abril de 2009

Tesouros em Vasos de Barro





TESOUROS EM VASOS DE BARRO


Vez em quando leio ou ouço pessoas fazendo prevalecer a honra de um vaso de barro sobre os demais tipos de vaso, com o principal argumento que o vaso de barro pode ser refeito, enquanto aqueles feitos de outros materiais não.

Numa análise mais ampla da Bíblia e numa abordagem ilustrativa, leremos que os metais têm serventia para Deus e na Sua própria fala o SENHOR anuncia que refinará o Seu povo "como prata" e "como ouro" (Zacarias 13.9; Malaquias 3.3). Lemos também que o altar do incenso era feito de madeira, assim como os varais, as colunas e a mesa, entre outros objetos do Tabernáculo (Êxodo 25 a seguir), pelo que constatamos que a madeira também tem grande utilidade na Casa de Deus.

"Numa grande casa há vasos não apenas de outro e prata, mas também de madeira e barro; alguns para fins honrosos, outros para fins desonrosos." (2Timóteo 2.20)

Se o vaso causa desonra, ele será retomado por Deus e refeito. E não precisamos fazer muito esforço para compreendermos que vasos de bronze, prata, ouro, madeira, plástico, vidro, ou qualquer outro material, possa ser refeito sim(!). "Não é a Minha palavra como o fogo – pergunta o SENHOR – e como um martelo que despedaça – a rocha?" (Jeremias 23.29). Pois bem: madeira, plástico e vidro podem ser perfeitamente triturados e reciclados; alumínio, cobre, ferro, bronze, ouro, prata, se submetidos a altas temperaturas, fundem-se e podem ser remodelados como o artesão bem quiser.

O problema não é o material de que é feito o vaso – até porque Deus não formou um exército de robôs, mas de seres humanos, diferentes entre si mas com o mesmo propósito de glorificar ao SENHOR em toda a sua maneira de ser. O problema está no comportamento do vaso, que muitas vezes se permite ser um instrumento que desonra a santidade do nome do Senhor. Contudo, "se alguém se purificar dessas coisas, será vaso para honra, santificado, útil para o SENHOR e preparado para toda boa obra." (2Timóteo 2.21)

O apontamento bíblico sobre vaso de barro refere-se, principalmente, à humildade, à simplicidade e à fragilidade relativa a Deus com que se portam os verdadeiros adoradores do SENHOR.

O barro pode ser encontrado com facilidade na natureza, diferente do ouro e da boa madeira, por exemplo. Por isso mesmo ele é tão desprezado pelos homens. Essa ilustração do Reino é melhor esclarecida por Tiago:

"Não escolheu Deus os que são pobres aos olhos do mundo para serem ricos em fé e herdarem o Reino que Ele prometeu aos que O amam? Mas vocês têm desprezado o pobre. Não são os ricos que oprimem vocês? Não são eles os que os arrastam para os tribunais? Não são eles que difamam o bom nome que sobre vocês foi invocado?" (Tiago 2.5-7)

Há que se considerar:

(1) Assim como ao oleiro interessa o barro pelo qual ninguém dá nada, assim também para Deus interessa o pobre e desprezado, aquele que o mundo rejeita, nem tanto pelos seus poucos bens materiais, mas principalmente por causa da sua pequenez egocêntrica que permite ao tal homem seja um grande bem-aventurado diante do SENHOR (Mateus 5.3);

(2) O barro não exige tanto do oleiro para ser moldado, e assim também a simplicidade e a carência de pessoas pobres – pobres tanto de bens quanto de espírito – permitem maior liberdade para Deus trabalhar em (e através de) suas vidas (Oséia 12.7-9; 13.4-6; Lucas 18.9-14);

(3) Aquilo que os homens valorizam costuma ser as coisas mais difíceis de serem alcançadas. Deus, porém, permanece constante em nosso meio e impressiona por ser tão nobre e tão simples ao mesmo tempo. Jesus, sendo Deus e Rei sobre reis, Se fez simples, popular, acessível a todos os homens, e por isso mesmo foi desprezado por aqueles para quem Ele veio (João 1.11). Os homens esperavam o Filho de Deus como um cavaleiro de mais alta pompa, montado sobre um cavalo luxuosamente enfeitado, rodeado de cavalarias, soldados e carruagens blindadas, talvez. Mas o SENHOR desapontou mais essa expectativa humana e veio, de cara, não num berço de ouro, mas em uma vasilha para alimentar cavalos; não numa suíte real mas num estábulo fedendo cocô e xixi de vaca; não recebendo honras de um rei, mas calçando sandálias que não protegiam Seus pés das rachaduras e calos provocados pela aridez do deserto, vestindo panos grosseiros e caminhando no meio de multidões famintas, esfarrapadas, carentes de todo tipo de provisão.

Os homens valorizam o ouro das jazidas distantes e encobertas. Jesus valoriza o barro facilmente encontrado nos prostíbulos, nas bocas-de-fumo, nas penitenciárias e debaixo dos viadutos. Os homens buscam coisas difíceis que lhes preenchem os bolsos mas não a alma. Jesus, porém, é fácil de ser achado e suficiente para transformar toda uma história e salvar qualquer vida.

Há uma nobreza muito grande em ser barro para Deus. E Paulo nos fala sobre ela sob dois aspectos interessantes.

O primeiro, conta-nos que o vaso de barro geralmente é usado para servir, em contraste aos vasos de outros materiais, que geralmente são usados para enfeitar. Vamos voltar dois versos e ler:

"Mas não pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o SENHOR, e a nós como escravos de vocês, por causa de Jesus. Pois Deus, que disse: 'Das trevas resplandeça a luz', Ele mesmo brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo." (2Coríntios 4.5,6)

O vaso está em plena atividade, vertendo água da vida sobre os sedentos, manifestando o poder do SENHOR e fazendo a luz de Cristo brilhar nas trevas, anunciando a Palavra de Deus (Isaías 6.1-4). Essa é a vida de um servo de Jesus: como o vaso cheio ele se permite servir pelo SENHOR onde estiver, quando for necessário, e o quanto for preciso.

Mais dois versículos à frente, e lemos sobre a realidade dos dias de um vaso de honra nas mãos do SENHOR:

"De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos." (2Coríntios 4.8,9)

Reforçando: estes vasos estão nas mãos do SENHOR, em plena atividade. Por isso, estão expostos ao desgaste, mas não ao aniquilamento (2Coríntios 4.16-18; Romanos 8.35-39).

O segundo e principal aspecto que levou Paulo a usar um vaso de barro para ilustrar a relação dos servos de Deus com o Seu poder fala sobre a humildade que, a exemplo de Cristo, deve fazer parte de toda personalidade, principalmente daquela que se chama cristã.

Vale à pena recitar o conhecido texto da carta de Paulo aos Filipenses, com o seguinte conselho:

"Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade,
mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos.
Cada um cuide, não somente dos seus interesses,
mas também dos interesses dos outros.
Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que,
embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus
era algo a que devia apegar-Se;
mas esvaziou-Se a Si mesmo,
vindo a ser servo, tornando-Se semelhante aos homens.
E sendo encontrado em forma humana,
humilhou-Se a Si mesmo
e foi obediente até a morte, e morte de cruz!
"
(Filipenses 2.3-8)


Vasos de barro não chamam a atenção, nem de ladrões nem de pessoas comuns que passam por eles. Mas podem esconder em seu interior preciosidades que abençoam muita gente. Coisas como tesouros, jóias preciosas, por exemplo. E isso nos remete imediatamente ao comportamento que os servos de Deus devem guardar, não querendo glórias para si, tendo sempre em mente que o poder, a honra por causa do poder e a sabedoria para usá-lo vêm somente de Deus:

"Uma vez Deus falou, duas vezes eu ouvi, que o poder pertence a Deus." (Salmos 62.11)

"Não foram as Minhas mãos que fizeram todas essas coisas, e por isso vieram a existir?, pergunta o SENHOR." (Isaías 66.2)

"...Tudo vem de Ti, e nós apenas Te damos o que vem das Tuas mãos." (1Crônicas 29.14)

Os vasos somos nós. O tesouro é a glória de Deus e Seus recursos. Sem eles: (1) ou somos vasos vazios apenas; (2) ou somos vasos cheios de coisa sem valor; (3) ou somos vasos cheios de coisas valiosas que se deterioram com o tempo. "...Sem Mim vocês não podem fazer coisa alguma", disse Jesus (João 15.5), e isso encerra tudo.

A voz bonita, a eloqüência no falar, o talento para coordenar, a criatividade, os dons... nada disso produz efeito algum se o próprio SENHOR não for a essência e o fim de tudo:

"Tudo isso é para o bem de vocês, para que a graça, que está alcançando um número cada vez maior de pessoas, faça que transbordem as ações de graças para a glória de Deus." (2Coríntios 4.15)

Diante de todo o exposto, resta-nos lembrar que o barro não é resistente às mudanças e pode ser quebrado sem muito esforço. No Seu ofício, Deus escolheu esconder Sua glória em vasos que podem facilmente ser reparados ou refeitos ao se danificarem. Porque Dele somente é a glória, Deus não escolheu usar materiais que jamais perecem, mas um tipo de matéria sem resistência, que precisa sempre passar por uma revisão. O Seu poder é mais forte quando nós somos mais fracos (2Coríntios 12.9). E isso expõe claramente o prazer que o SENHOR tem em habitar e agir pela vida daquelas pessoas que estão sempre dispostas a Lhe dar atenção e recomeçar com Ele:

"Pois assim diz o Alto e Sublime, que vive para sempre, e cujo nome é Santo: Habito num lugar alto e santo, mas habito também com o contrito e humilde de espírito, para dar novo ânimo ao espírito humilde e novo alento ao coração do contrito." (Isaías 57.15)

Constante deve ser nossa rendição a Deus, para que os aplausos, o reconhecimento pelos feitos retornem sempre a Ele, que a tudo realiza através de Seus vasos, sejam eles de barro, de bronze, de madeira, de ouro, de porcelana, ou do que for.

Que sejam apenas vasos.

Que sejam vasos para a honra de Deus e o louvor da Sua glória.

E que o mundo beba da água contida em seu interior e se farte dos tesouros escondidos dentro de seus corações, sabendo que "isso vem do SENHOR, e é algo maravilhosos para nós." (Salmos 118.23)

Soli Deo Gloria!



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Todas as citações bíblicas desse texto foram retiradas da Bíblia na Nova Versão Internacional, salvas as referências devidamente identificadas.