segunda-feira, 28 de junho de 2010

O Brasil inteiro foi para a África!



Eu já tinha visto fanatismo por Copa do Mundo, mas igual a esses dias, jamais!

A nação brasileira, literalmente e quase completamente, parou nos dias dos jogos em que o Brasil participou.

Precisei de um mercado, não encontrei nenhum aberto. Precisei pagar minhas contas e nem mesmo os terminais de auto-atendimento do banco em que sou cliente estavam funcionando. Como não fosse suficiente, vi gente precisando de hospitais e eles também estavam atendendo apenas nas urgências e emergências. E pasmem: consultas marcadas com antecedência de meses na rede pública hospitalar de Brasília foram desmarcadas por causa do jogo do Brasil lá na África! Sem contar a metade dos postos de saúde daqui que também foram fechados por causa desse evento. (Verdade verdadeira!)

Sei que é uma festa mundial e não sou contra futebol. Nem biblicamente nem fora da Bíblia a prática de esportes com disputas é pecado (desde que não sejam esportes violentos ou imorais, que não firam os princípios da Palavra de Deus para uma vida justificada em Cristo Jesus – 1Coríntios 10.23; Filipenses 4.8).

Mas fico impressionada de ver o patriotismo hipócrita que toma dos brasileiros a cada quatro anos. Todo mundo se veste de verde amarelo e a pátria tira a chuteira do armário. O brasileiro vira técnico de futebol, beija a bandeira do Brasil em praça pública, exibe com orgulho o emblema da blusa amarela, declama poesias, faz todo tipo de promessas... e até já inventou feriados para os dias de jogos do Brasil.

Mas se a seleção perder o Mundial, a euforia nacional vira depressão coletiva. É como se um ente querido tivesse morrido. A nação inteira desmorona num chororô geral, e muitos fanáticos entram numa revolta de dar medo. Difícil esquecer da cena de um grupo de pessoas queimando a bandeira do Brasil depois da derrota para a França na Copa passada. Eu vi isso também aqui no condomínio onde moro.

Logo que o jogo terminou, olhei pela janela e vi os vizinhos saindo de todos os prédios desoladamente, trazendo bandeiras, vuvuzelas e cornetas, réplicas de camisas da seleção, cordões e mais cordões de bandeirolas e fitas que enfeitavam todo o alto do condomínio, e montando uma grande fogueira no centro do estacionamento. De patriotas apaixonados a inimigos incendiários da nação em fração de segundos.

Que belo testemunho de patriotismo!

Particularmente, futebol para mim não fede nem cheira. Se o Brasil ganhar ou perder a Copa do mundo, continuará na mesma situação lastimável em que se encontra, com um péssimo sistema público de saúde, com uma educação pública precária, sistema de transporte público vergonhoso, índice crescente de violência nas ruas, a vulgarização da mulher, a banalização da família, estímulo à prostituição dos jovens, destruição de cidades inteiras por conta das enchentes e desmoronamentos, favelas, a miséria na periferia às margens do glamour das grandes cidades, superlotações dos presídios, aumento constante do consumo e do tráfico de drogas, e por aí vai.

Estados Unidos, Japão, Canadá, Espanha... Estes são exemplos de países de primeiro mundo que não estão na lista de campeões mundiais de futebol, mas estão entre os modelos de países para as demais nações por causa do desenvolvimento exemplar em vários de seus seguimentos. E alguém ousa deixar de honrar essas nações porque elas não possuem um título de Copa do Mundo?

Diante de todo esse fanatismo por jogos de futebol e da triste realidade que nos maltrata, fico a me perguntar: Quando será que o povo brasileiro fará uma apoteose dessa em favor da transformação moral, social, política e ética de nossa nação? Sim, porque com uma mobilização como essa que ocorre em época de Copa do Mundo, certamente nossos problemas já estariam - na sua grande aioria - resolvidos.

Embora o Brasil possua um certo reconhecimento no exterior por causa de alguns progressos consideráveis (como a votação eletrônica e a produção agrícola e pecuária), acredito que o Brasil seria muito mais respeitado lá fora se ele fosse campeão aqui dentro, cuidando bem do seu povo, investindo mais em qualidade de vida do que em jogos de futebol, e priorizando a honestidade em vez de festividades.

Contudo, embora eu não veja como Deus esteja sendo glorificado na Copa do Mundo (1Coríntios 10.31 - quem sabe, um dia Ele me conte se realmente isso já tenha acontecido...), de tudo, a Copa não tão é ruim. Ela já deu para os brasileiros três feriados que não estavam previstos no nosso calendário, e isso num período de 9 dias(!).

Pensando bem, temos mesmo que torcer mesmo pela Seleção...
Torcer muito, com total devoção.

Temos que passar esses quase dois meses bem envolvidos com as expectativas e o fanatismo que o futebol brasileiro gera, para ver se ao menos durante esse tempo nos esquecemos da triste realidade que vivemos aqui com o caos da máquina pública, a vergonha da saúde e da educação, a violência desenfreada que ganha êxito a cada dia sobre nós, a corrupção vergonhosa nos mais diversos seguimentos sociais, a falência do Estado e a miséria do povo.

Traga a taça, Brasil! Se você chegar até a final, ainda teremos mais três feriados, pelo menos, no mês de julho, fora os dias da semana de comemoração e da sua condecoração em Brasília.

Além disso, não importa se continuamos morrendo de fome, de pandemias, afogados nas enchentes ou assassinados por bandidos ou por balas perdidas.

Importa que morramos sabendo que já somos hexacampeões mundiais!

E que morramos descansados.