quinta-feira, 22 de julho de 2010

Nossa vida de abandono...




Se existe outra característica que identifica o ser humano entre todos os seres da criação além do fato de ele ser o único criado à imagem e semelhança do Criador, é o fato de ele viver abandonando tudo aquilo que, de alguma maneira, para mais ou para menos, lhe causa desconforto.

Nós abandonamos estudos e também abandonamos amizades. Abandonamos empregos e também filmes pela metade. Abandonamos casas e abandonamos pessoas teimosas. Abandonamos cargos na Igreja e crianças nas latas de lixo. Abandonamos terrenos vazios e abandonamos a fé. Abandonamos cães e gatos nas ruas e abandonamos namorados e cônjuges até pelos motivos mais banais. Nós abandonamos velhos nos asilos e compras nos balcões dos supermercados. Nós abandonamos nossos sonhos e também regras e doutrinas.

Enfim, nós temos o dom de abandonar, e nessa onda frequentemente abandonamos Jesus.

A nossa paciência costuma ser curta. A nossa capacidade não costuma suportar muito. E tão logo o SENHOR pareça Se demorar ou pareça colocar sobre nossos ombros fardos que aparentam pesar mais do que achávamos ser o ideal, simplesmente nós abandonamos Jesus. Pulamos fora do barco. Açoitamos a cruz aos Seus pés e dizemos: “Chega! O SENHOR não tem pena de mim, mas eu tenho! O SENHOR não está vendo isso? Eu estou e já estou cansado de tudo. Basta!

O inimigo das nossas almas é que bate palmas e dá gargalhadas quando vê o ser humano agindo assim. Ele sabe que o segredo de ter êxito espiritual e, consequentemente, ter êxito em tudo o que fizermos, é permanecermos com Jesus em qualquer circunstância e confiarmos na Sua direção para nossas vidas.

“(...) Então, todos os discípulos O abandonaram e fugiram.” (Mateus 26.56)

Quando os discípulos abandonaram Jesus no momento da Sua prisão, o diabo certamente se alegrou muito porque viu pessoas medrosas se escondendo e, aparentemente, encerrando a qualquer possibilidade de Deus dar continuidade à expansão do Evangelho sobre a terra. A lógica era óbvia: se aqueles que andaram com Jesus e presenciaram tantos milagres dEle estavam agora se escondendo com medo, quem mais poderia enfrentar impérios, guardas fortemente armados e mal-intencionados, calabouços, torturas, leões em arenas?

Quem mais ousaria contradizer sistemas inteiros rigorosamente organizados e colocar em cheque as suas verdades ao confrontá-las com o Evangelho do SENHOR, sabendo que, à exemplo de João Batista, suas cabeças poderiam parar numa bandeja e, pela impiedade dos reis daquele tempo, seus corpos servirem de tochas humanas para iluminar as ruas?

Era nisso que o diabo apostava. Mas ele não contava com um detalhe que, provavelmente, lhe passou desapercebido quando este ainda era um querubim ungido e vivia lá no Céu com Deus (Isaías 14.12-13; Ezequiel 28.12-19; Apocalipse 12.7-9):

Se somos infiéis, Ele permanece fiel, pois não pode negar-Se a Si mesmo.” (2Timóteo 2.13)

O diabo não calculou que mesmo com tantas imperfeições e medos em nós, o SENHOR não desistiria dos Seus planos. Ao contrário, Ele compreenderia as dificuldades que Sua Igreja passaria a partir de então, recordaria das limitações e dos pecados no homem e, mesmo que este se acovardasse, o SENHOR prosseguiria, tanto garantindo a expansão do Seu Reino, quanto trabalhando paciente e insistentemente pelo fortalecimento do Seu povo.

Pois Deus jamais abandonou o Seu povo, mesmo quando no Egito ou no cativeiro babilônico – narrativas bíblicas das consequências dos pecados não confessados, do amor de Israel por outros deuses, da desobediência como um todo, e não da covardia ou da ausência de Deus. Nele não há nenhuma treva! (1João 1.5)

Os discípulos de Jesus, após Sua morte e ressurreição, compreenderam isso. E a partir de então, se tornaram o mais sábio, mais forte e mais ousado corpo de obreiros que a Igreja do SENHOR já teve.

Saber dessas coisas é um convite para repensarmos motivos que nos levam frequentemente a querer abandonar o SENHOR.

Uma frase de Policarpo de Esmirna (70 – 156 d.C.) agrega ênfase a esse convite. Por causa da perseguição romana aos cristãos, diante de seus algozes e prestes a ser colocado vivo numa fogueira, o bispo de 86 anos foi levado para o governador, que pretendia convencê-lo de negar a Cristo. Policarpo, porém, proferiu estas palavras: "Há oitenta e seis anos sirvo a Cristo e nenhum mal tenho recebido Dele. Como poderei negar Aquele a quem prestei culto e rejeitar o meu Salvador?"(*)

Creio que com esse exemplo de íntima confiança em Jesus, eu já poderia concluir essa mensagem, mas ainda quero dizer algo:

Pular fora do barco, abandonar a cruz, deixar Jesus, é a coisa mais tola que alguém que tem a promessa da vida eterna pode fazer. Ao pularmos do barco, certamente que a tempestade irá nos sucumbir. Ao deixarmos a cruz, não teremos mais nada que nos sirva como escada para chegarmos ao Céu. Ao abandonarmos Jesus, estamos valorizando qualquer coisa mais do que aquilo que realmente tem valor eterno e incalculável: o infinito amor de Deus, o que nos foi dado de graça e sem jamais merecermos.

Que as próximas coisas a serem abandonadas por nós sejam nosso orgulho, nossos velhos hábitos, nossa incredulidade, nossa impaciência...

Definitivamente, o SENHOR Jesus não merece nada disso.




(*) Naquela ocasião (ano 156 dC), Policarpo foi colocado na fogueira. Milagrosamente as chamas não o queimaram. Seus inimigos, então, o apunhalaram até a morte e depois queimaram o seu corpo numa estaca. Concluído aquele martírio, seus discípulos tomaram o restante de seus ossos e os colocaram em uma sepultura apropriada. (Wikipédia)