segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Como Abraão...



Existem circunstâncias em nossas vidas que não são capazes de sustentar a nossa fé. São momentos difíceis, onde as adversidades parecem nos querer tragar e lançar a ermo toda nossa esperança de vitórias e conquistas, de paz, descanso e gozo.

São momentos nos quais somos impulsionados a praticar atitudes segundo tudo o que pensamos ser correto, independente de estarmos ou não em sintonia com os ensinamentos e as ordenanças de Deus.

Momentos de lutas - sejam provações ou perseguições - , que nos levam a "tomar decisões melhores do que as que Deus poderia (e deveria) estar tomando sobre nós naquele momento; afinal, Deus nos tem dado a honra de Sua presença nos momentos de alegria, mas nas horas dificultosas da vida parece não Se importar... parece Se omitir... parece demorar...

... Será?

Vamos falar um pouco sobre a obediência e a confiança e, para isso, quero exemplificar a partir do que a Bíblia Sagrada nos conta sobre o patriarca Abraão.

Abraão foi um homem cujo nome é lembrado ainda hoje com respeito e alegria, por ter sido um modelo de fé, obediência e esperança no Senhor Jeová. Mas para ser uma bênção, Abraão precisou confiar em Deus e obedecer ao Seu mandado, embora, em determinados momentos, tenha agido por seus próprios impulsos:

"Ora, o Senhor disse a Abrão [Abraão]: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que Eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção." (Gênesis 12.1-2)

E Abraão obedeceu ao Senhor, e saiu de Harã e foi para Canaã, conforme Deus havia lhe ordenado (Gênesis 12.5-6). A Bíblia nos relata que "depois, caminhou Abrão dali, seguindo ainda para o lado do sul" (Gênesis 12.9), e que, havendo fome naquela terra, "desceu Abrão ao Egito, para peregrinar ali, porquanto a fome era grande na terra." (Gênesis 12.10)

No momento da fome, Abraão e sua esposa procuraram fazer o que era mais correto aos seus olhos, e foram para o Egito. Contudo, no Egito, Abraão e Sara passaram por uma situação muito difícil e constrangedora. Por causa de sua beleza física, a mulher de Abraão só não sofreu abuso sexual porque Deus deu livramento (Gênesis 12.10-20; 20.1-18).

Em nossos dias, "Egito" tipifica mundo, sofrimento, escravidão. E posso exclamar: quantos de nós retornam ao Egito [mundo] nos momentos de dificuldade, sem confiança que o Senhor é fiel e poderoso, e que se prometeu nos dar uma terra onde mana leite e mel Ele Se responsabilizará por todo o nosso sustento durante nosso trajeto até ela! Mas são esses os momentos em que Deus espera de nós o que, aparentemente, não podemos entregar a Ele quando estamos nessas situações: o louvor sincero, confiante em Seu poder e glória, certo que Ele fará alguma coisa por nós e não deixará Seus servos perecerem...

A incredulidade nos afasta de Deus, porque não nos permite contemplar o Seu agir. Por misericórdia do Senhor e por causa das promessas que Ele fez para a vida de muitas pessoas, muitos de nós somos abençoados com o escape e o livramento do Senhor quando nos precipitamos e agimos por nossos próprios cuidados, como se o Senhor fosse um covarde que nos abandona nos momentos em que a batalha é travada. Foi assim também com Abraão, até que ele entendesse que para Deus não há impossível.

Deus havia prometido para Abraão fazer dele uma grande descendência, "tão numerosa como o pó da terra" (Gênesis 13.16) ou "como as estrelas do céu" (Gênesis 15.5). Sara, porém, não creu porque era estéril (Gênesis 18.1-16). Mesmo sabendo dessa promessa desde o momento em que o Senhor ordenou a Abraão ir para Canaã, Sara, num repente de entusiasmo e incredulidade, ofereceu Agar, a sua criada, ao marido, para que desse a Abraão um filho. E da decisão de Abraão em aceitar a Agar, nasceu Ismael, que não era o filho da promessa de Deus.

A impaciência de Sara conduziu-a (e também a Abraão) a tomar uma atitude precipitada, cujas conseqüências catastróficas remontam aos dias de hoje: descendentes de Ismael formam a atual Palestina, e os descendentes da linhagem de Isaque (o filho da promessa) constituem a nação de Israel. Ambos os países vivem em constantes conflitos armados, guerrilhando entre si e provocando a morte de muitas pessoas inocentes todos os dias.

Quando o Senhor nos promete algo, é necessário esperar com paciência, pois Ele conhece nossa estrutura e sabe se seremos capazes de receber a bênção e administrá-la corretamente ou não. Sabe também até que ponto nossos corações realmente estão voltados para Ele pelo que Ele é, e não somente pelo que Ele pode fazer por nós. Por isso, nem tudo o que Deus nos promete chega dentro do tempo previsto por nós, mas acontece dentro do próprio tempo de Deus, que é preciso e intransponível.

"Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu." (Eclesiastes 3.1)

Não esperar por esse tempo é expressar nossa indignação pela "não atuação do Senhor." Porém, Deus não está parado, mas trabalhando em silêncio para nos habilitar a recebermos o cumprimento de Suas promessas. Precipitar-se e agir antes do Senhor é demonstrar absoluta falta de fé. A Bíblia, porém, é taxativa quanto a esse tipo de atitude:

"Ora, sem fé é impossível agradar a Deus, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe e que é galardoador dos que O buscam." (Hebreus 11.6)

A fé é a expressão mais clara que dependemos de Deus, porque confiamos que Suas decisões e vontades são infinitamente superiores que as nossas. E é ela que nos leva a ter paciência e a saber esperar no Senhor, aguardando o Seu agir no tempo oportuno dEle, que nos conhece bem e tem todo o controle sobre nosso passado, presente e futuro.

A Bíblia nos diz que Abraão obedeceu ao Senhor e seguiu Sua ordem para sair de sua terra, de sua parentela e da casa de seu pai (Gênesis 12.1,4). Ora, se Abraão obedeceu, é porque Ele tinha uma medida de fé (Romanos 12.3) e sabia que o Senhor cumpriria o que havia prometido, embora tenha se precipitado em agir na impaciência típica da espera humana.

Para Abraão não foi difícil obedecer às duas primeiras ordens do Senhor: "Sai-te da tua terra" e "da tua parentela".

"Sair da nossa terra" expressa o desligar dos nossos valores e bens para buscarmos as coisas que vêm do Reino de Deus e a Sua justiça. Significa que devemos abandonar tudo o que de material possa se sobrepor à pessoa de Deus em nossas vidas, porque os bens espirituais são, em extremo, melhores e mais valiosos que qualquer bem terreno.

Abro aqui um parêntese para observar que não é errado desejar uma vida próspera e abençoada materialmente diante de Deus, porém, esse desejo não pode ofuscar a glória de Deus em nossas vidas, nem ocupar o lugar de primazia da espiritualidade em nossos corações:

"Se, pois, fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus." (Colossenses 3.1)

"Buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas." (Mateus 6.33)

A segunda ordem de Deus para Abraão, "sai da tua parentela", nos ensina que devemos deixar o parentesco com o mundo para ingressarmos à família de Deus. E isso realmente não é tão difícil, quando nos dispomos a viver em santificação com Cristo. Ele nos ajuda a nos desligar não só do materialismo, como também das amizades perigosas que podem nos levar ao completo e definitivo afastamento do Senhor, para nos inserir num novo mundo de irmandade que pratica os preceitos e estatutos firmados por Deus e, por ter firmado uma nova aliança com Ele, foi recebida por Deus como filha:

"Mas, a todos quantos O receberam, aos que crêem no Seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus." (João 1.12-13)

"Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus." (Romanos 8.14)

"Pois todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus." (Gálatas 3.26)

"Vede que grande amor nos tem concedido o Pai: que fôssemos chamados filhos de Deus; e nós o somos. Por isso o mundo não nos conhece; porque não conheceu a Ele." (1João 3.1)

"(...) para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus imaculados no meio de uma geração corrupta e perversa, entre a qual resplandeceis como luminares no mundo." (Filipenses 2.15)

"Nisto são manifestos os filhos de Deus, e os filhos do diabo: quem não pratica a justiça não é de Deus, nem o que não ama a seu irmão." (1João 3.10)

Abraão, com certeza, obedeceu ao Senhor porque temia. Às duas primeiras ordens de Deus para a sua vida realmente o patriarca pode atender com certa facilidade porque tinha uma vida em comunhão com Deus. Ele aprendia a se desligar dos bens e valores materiais, e também a se desligar das pessoas do mundo, para admitir para si os valores espirituais e a irmandade dos filhos de Deus, respectivamente.

Mas à terceira ordem, que nos ensina a deixar os cuidados do mundo para vivermos sob a dependência de Deus ("Sai da casa de teu pai"), o próprio Abraão teve dificuldades em obedecer, porque aqui já não falamos de coisas visíveis, mas do sobrenatural e da dependência absoluta de Deus.

"Sair da casa de nosso pai" significa deixar de viver de acordo com as diretrizes e normas impostas pelo mundo e pelo diabo – o pai de quem comete pecado e não busca redenção em Cristo (1João 3.8) –, deixar de confiar no ser humano como nosso ajudador, deixar de confiar em nós mesmos como nossos suficientes condutores, para passarmos a viver sob total dependência da ajuda, da orientação, da provisão, da presença, do controle, do amor e do perdão de Deus.

Não podemos, contudo, julgar Abraão por sua precipitação em querer "ajudar a Deus" quando o cumprimento da promessa do Senhor parecia tardio e impossível também. Nós, humanos temos uma tendência natural em nos desesperarmos diante das dificuldades que a vida nos traz. Quando a aparência é que tudo fugiu do nosso controle e já não temos esperança alguma, nosso impulso natural é nos desesperar. E o desespero é uma atitude de incredulidade em Deus que pode nos levar a agir de forma a causar-nos (a nós mesmos e a outras pessoas) danos gravíssimos e, muitas vezes, irreparáveis.

Abraão foi uma bênção para as gerações futuras. Mas para que isso acontecesse, Ele precisou aprender a crer, além de obedecer e temer. Precisou, primeiramente se desligar das "coisas", depois das pessoas e, por último, de si mesmo, para viver sob total dependência de Deus, ligado a Deus e conduzido por Deus. E a prova final de que Abraão aprendeu a viver sob a dependência do Senhor foi dada quando Deus o mandou sacrificar seu próprio filho Isaque e ele obedeceu porque creu. Veja as palavras daquele pai quando avistou o local indicado por Deus para fazer o sacrifício de Isaque:

"Ao terceiro dia, levantou Abraão os seus olhos e viu o lugar de longe. E disse Abraão a seus moços: Ficai-vos aqui com o jumento, e eu e o moço iremos até ali; e, havendo adorado, tornaremos a vós." (Gênesis 22.4-5)

Abraão não usou as expressões "iremos" e "tornarei a vós", mas usou os termos "iremos" e "tornaremos a vós". Ele tinha em seu coração a certeza que Deus faria algo. Não sabia o quê, mas sabia que Deus faria algo que o permitiria retornar com seu filho ao seu lar. E isso fica evidente em sua resposta ao menino, quando este lhe perguntou a respeito do cordeiro para o holocausto:

"Deus proverá para Si o cordeiro para o holocausto, meu filho." (Gênesis 22.8)

As experiências anteriores de Abraão com Deus somente contribuíram para o amadurecimento de sua fé, fato que o tornou um exemplo para pessoas de todas as gerações posteriores a ele.

O que a Bíblia nos fala a seu respeito é pouco, mas suficiente para nos ensinar que mesmo com nossas falhas podemos aprender. Abraão aprendeu a depender de Deus e a esperar o Seu agir no momento exato.

"E assim, tendo Abraão esperado com paciência, alcançou a promessa." (Hebreus 6.15)

E, finalmente, pode descansar no seio do Senhor, morrendo "em boa velhice, velho e farto de dias" (Gênesis 25.8), e certo que Deus terminaria a boa obra que havia começado. Deus, depois de sua morte, abençoou a Isaque, seu filho. E o nome de Abraão entrou para a história como um servo fiel e justo do Senhor.

Nos momentos de dificuldades, pois, retenhamos firme nossa esperança em Deus como o pai Abraão à caminho do altar para o holocausto de seu filho Isaque. Pois a mesma fé que nos leva ao encontro do Senhor nos momentos de paz e bonança deve ser ativada em tempos de tribulação, quando então Deus terá a oportunidade de revelar Sua glória ainda mais intensamente e demonstrar o quanto realmente Ele nos ama e quer bem.

"No zelo, não sejais remissos; sede fervorosos de espírito, servindo ao Senhor; regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, na oração, perseverantes." (Romanos 12:11-12)

"Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica... E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a vossa mente em Cristo Jesus." (Filipenses 4:6-7)

Da abertura do Gênesis ao encerramento do Apocalipse lemos explicitamente a vontade de Deus em ter uma família de pessoas que O ame e O honre. Honrar, porém, é uma expressão que vai bem além do simples sentido da palavra "louvar". Dar honras a Deus é deixá-Lo ocupar a primazia em nossas vidas e em tudo. Deixá-Lo conduzir nossos pensamentos, tomar as decisões mais difíceis por nós (e quando tomarmos as mais fáceis, fazermos isso sob a orientação Dele), permiti-Lo cuidar de nós (e não andarmos nós mesmos cuidadosos de nossas vidas), ocupar nosso tempo com as coisas que dizem respeito ao Senhor (e não com ócio nem com coisas vãs que em nada edificam), preocupar-nos em estar agradando a Deus com nossos pensamentos, atitudes e sentimentos (e não viver segundo a nossa visão)... são exemplos de como podemos dar uma primazia ao Deus vivo.

Amá-Lo sobre tudo o que há somente será expressado por nós de maneira que seja recebido por Deus como um amor verdadeiro do nosso coração quando o demonstrarmos através de uma dependência permanente do Senhor, que se revela com atitudes onde a honra e o lugar de glória de Deus sempre estão reservados a Ele em nossas vidas.

Sem dúvida que os momentos de paz e gozo de vitória na vida de um cristão são momentos alegres e bons, dos quais todos querem constantemente desfrutar. Porém, há momentos em que nossa fé é provada pelo próprio Deus - como a Abraão. Daí a necessidade de não murmurarmos nas lutas, porque nem todas são perseguições do maligno. E Deus faz isso porque, para nós é fácil louvá-Lo em tempos de bonança e calmaria. Mas o nosso real caráter de salvos e fiéis ao Senhor será revelado em meio às dificuldades, quando nossos campos já não forem tão verdes nem produtivos mas tornarem-se verdadeiros desertos.

Alguém, sabiamente, disse que "a vitória não é resultado da luta, mas do louvor."

Louvemos, pois, a Deus de todo coração e mantenhamo-nos fiéis a Ele em meio às lutas e provações da vida, pois é esta a melhor e maior prova de que, verdadeiramente, o Espírito Santo está habitando em nós, e a real expressão que realmente amamos e tememos ao Senhor primeiramente pelo que Ele é e significa em nossas vidas, e não somente pelo que Ele pode fazer por nós.

E, somente no meio dessa demonstração de dependência e confiança em Deus, pura e simplesmente atitude de fé, é que poderemos contemplar o Senhor tomando a frente e a direção de nossas vidas, enquanto Sua doce voz soa como música para nossos ouvidos e alento para nossas almas, nos confortando e abençoando, dizendo:

"Aquietai-vos, e sabei que Eu sou Deus!" (Salmo 46.10)