terça-feira, 12 de outubro de 2010

Entre espinhos




Algum tempo depois que Jesus contou a parábola do semeador (Mateus 13.3-9), Ele esclareceu aos Seus discípulos o significado daquilo que aconteceu às sementes lançadas em diferentes lugares. O SENHOR expôs que “a semente que caiu entre os espinhos, este o caso daquele que ouve a palavra, mas a preocupação desta vida e o engano das riquezas a sufocam, tornando-a infrutífera.” (Mateus 13.22)

Os cuidados desta vida e o engano das riquezas. Creio que estes sejam os fatores que mais afastam o homem de Deus, tanto para mais quanto para menos. Por um lado, as riquezas levam o homem ao afastamento total de Deus, entregando seu coração ao que é falso e incompleto, imperfeito e temporal: a felicidade de uma vida regada pelo materialismo. Por mais que essas coisas satisfaçam nossos maiores desejos, jamais poderão satisfazer nossa maior necessidade, que é a presença de Deus em nós.

Conheço pessoas e histórias de pessoas cujos bens somam pequenas e até grandes fortunas, mas os seus corações permanecem vazios, tristes e solitários, numa busca constante do “não sei o quê”...

“Não adianta trabalhar demais para ganhar o pão, levantando cedo e deitando tarde, pois é Deus quem dá o sustento aos que ele ama, mesmo quando estão dormindo.” (Salmos 127.2 - NTLH)

“Ele diz: ‘Construirei para mim um grande palácio, com aposentos espaçosos’. Faz amplas janelas, reveste o palácio de cedro e pinta-o de vermelho. ‘Você acha que acumular cedro faz de você um rei? O seu pai não teve comida e bebida? Ele fez o que era justo e certo, e tudo ia bem com ele. Ele defendeu a causa do pobre e do necessitado, e, assim, tudo corria bem. Não é isso que significa conhecer-Me? ‘, declara o Senhor.” (Jeremias 22.14-16)

“Encheste o meu coração de alegria, alegria maior do que a daqueles que têm fartura de trigo e de vinho.” (Salmos 4.7)

Por outro lado, o engano das riquezas aproxima tanto o homem de Deus que muitos cristãos chegam a não enxergar mais o SENHOR como Deus e sim como um tipo de gênio da lâmpada mágica que realiza todos os seus sonhos e caprichos, concretiza todas as suas exigências. É quando a busca pela bênção do SENHOR supera a prática e o interesse da busca pelo próprio SENHOR.

“Pois, como já lhes disse repetidas vezes, e agora repito com lágrimas, há muitos que vivem como inimigos da cruz de Cristo. Quanto a estes, o seu destino é a perdição, o seu deus é o estômago e têm orgulho do que é vergonhoso; eles só pensam nas coisas terrenas.” (Filipenses 3.18-19)

Já os cuidados desta vida – dos quais o engano das riquezas também faz parte – são um grupo composto de vários fatores que sufocam a Palavra de Deus em nossos corações e nos trazem esfriamento espiritual (quando não a morte espiritual) e, consequentemente, afastamento de Deus. Vejamos alguns deles...

Ansiedade. Em tempos de imediatismo e praticidade, esse é um mal que toma praticamente todas as pessoas do séc. XXI. A ansiedade muitas vezes adianta o homem ao tempo de Deus, e isso inevitavelmente traz grandes frustrações, porque “a bênção do Senhor é que enriquece; e não traz consigo dores” (Provérbios 10.22 – ACF). Mas receber a bênção do SENHOR requer a espera pelo tempo do SENHOR, que não é igual ao nosso. Por essa causa, o conselho bíblico é: “Consagre ao Senhor tudo o que você faz, e os seus planos serão bem-sucedidos.” (Provérbios 16.3)

Mas embora esse mal esteja tão evidente em nosso tempo, a ansiedade já é um velho conhecido da humanidade. Ansiosamente, Sara (nessa época, ainda Sarai), esposa de Abraão (também, nessa época, ainda Abrão), se precipitou e induziu seu marido a ter um filho com Hagar, sua criada, dizendo: “Já que o Senhor me impediu de ter filhos, possua a minha serva; talvez eu possa formar família por meio dela". Abrão atendeu à proposta de Sarai. Quando isso aconteceu já fazia dez anos que Abrão, seu marido, vivia em Canaã. Foi nessa ocasião que Sarai, sua mulher, entregou sua serva egípcia Hagar a Abrão. Ele possuiu Hagar, e ela engravidou...” (Gênesis 16.2-4)

Acontece que três capítulos antes o SENHOR já havia feito a seguinte promessa a Abraão: “Tornarei a sua descendência tão numerosa como o pó da terra. Se for possível contar o pó da terra, também se poderá contar a sua descendência” (Gênesis 13.16). Como Sara ainda não tinha condições físicas para gerar um filho, ela não se conteve e resolver dar uma “ajudinha” ao SENHOR. Mas a precipitação da esposa de Abraão fez nascer Ismael, o primeiro do povo palestino, hoje principal inimigo dos israelitas, povo oriundo de Isaque, o filho da promessa de Deus, que veio a nascer depois, conforme a bíblia narra:

“Então disse o Senhor: ‘Voltarei a você na primavera, e Sara, sua mulher, terá um filho’. Sara escutava à entrada da tenda, atrás dele. Abraão e Sara já eram velhos, de idade bem avançada, e Sara já tinha passado da idade de ter filhos. Por isso riu consigo mesma, quando pensou: ‘Depois de já estar velha e meu senhor já idoso, ainda terei esse prazer?’ Mas o Senhor disse a Abraão: ‘Por que Sara riu e disse: ‘Poderei realmente dar à luz, agora que sou idosa?’ Existe alguma coisa impossível para o Senhor? Na primavera voltarei a você, e Sara terá um filho’. Sara teve medo, e por isso mentiu: ‘Eu não ri’. Mas ele disse: ‘Não negue, você riu’. [...] O Senhor foi bondoso com Sara, como lhe dissera, e fez por ela o que prometera. Sara engravidou e deu um filho a Abraão em sua velhice, na época fixada por Deus em sua promessa. Abraão deu o nome de Isaque ao filho que Sara lhe dera.” (Gênesis 18.10-15 e 21.1-3).

Muitos casamentos são desfeitos e muitos lares destruídos não só por causa da ansiedade das pessoas em terminar logo com o sofrimento sem buscar em Deus a solução correta, mas principalmente por causa da ansiedade que levou as pessoas a se unirem sem a direção do SENHOR, sem Seu aval, sem Sua bênção. Apressadamente se envolveram e seguiram o próprio coração – que é enganoso e traiçoeiro (Jeremias 17.9). Se tivessem esperado um pouco mais e sempre buscando pelo parecer do Pai Celestial, certamente evitariam muitos aborrecimentos e mágoas, muitas frustrações e briga, porque o SENHOR teria mais tempo para preparar o casal para assumir um casamento e também para alertar Seus filhos e livrá-los de se enrolarem matrimonialmente com a pessoa errada.

“Melhor é o homem paciente do que o guerreiro, mais vale controlar o seu espírito do que conquistar uma cidade.” (Provérbios 16.32)

Contudo, as misericórdias do SENHOR são infinitas. E mesmo depois das precipitações que nos levam a tantos erros, o SENHOR Se dispõe a consertá-los para nós e reconstruir nossas vidas. Ele restaura casamentos, reforma destinos, transforma situações. Basta que nos arrependamos e busquemos o Seu socorro.

Mas há um detalhe: Desta vez terá que ser do jeito do SENHOR para que tudo dê certo. O processo de restauração é longo e sofrido, mas se é o SENHOR quem está no controle, tudo irá bem.

“Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os seus corações e as suas mentes em Cristo Jesus.” (Filipenses 4.6-7)

Hagar pensou que tudo tinha acabado para ela e seu filho quando ambos foram expulsos após o nascimento de Isaque (Gênesis 21.9-21). “Isso perturbou demais Abraão, pois envolvia um filho seu. Mas Deus lhe disse: ‘Não se perturbe por causa do menino e da escrava. Atenda a tudo o que Sara lhe pedir, porque será por meio de Isaque que a sua descendência há de ser considerada. Mas também do filho da escrava farei um povo; afinal ele é seu descendente’.” (Gênesis 21.11-13)

Se nós tivermos paciência e confiança, o SENHOR concertará nossos malfeitos também.

Autossuficiêcia. Outro cuidado desta vida que afasta o homem de Deus e lhe mata pouco-a-pouco espiritualmente é a elevação do ego, que produz no homem uma autossuficiência, uma independência em relação ao SENHOR.

O grande problema dos israelitas com Deus no passado foi a autossuficiência. Depois de receber as bênçãos do SENHOR, o orgulho do povo simplesmente crescia, e este se ensoberbecia, acreditando que foi com a força do seu próprio braço ou pela intervenção dos deuses que suas próprias mãos criaram é que haviam realizado conquistas. Era um misto de arrogância com idolatria:

“Mas eu sou o Senhor, o seu Deus, desde a terra do Egito. Vocês não reconhecerão nenhum outro Deus além de Mim, nenhum outro Salvador senão a Mim. Eu cuidei de vocês no deserto, naquela terra de calor ardente. Quando eu os alimentava, ficavam satisfeitos; quando ficavam satisfeitos, se orgulhavam, e então Me esqueciam.” (Oséias 13.4-6)

Desde o êxodo o SENHOR já alertava Israel para tomar sempre uma postura de gratidão e reconhecimento dos favores do SENHOR:

“Não digam, pois, em seu coração: ‘A minha capacidade e a força das minhas mãos ajuntaram para mim toda esta riqueza’. Mas, lembrem-se do Senhor, do seu Deus, pois é Ele que lhes dá a capacidade de produzir riqueza, confirmando a aliança que jurou aos seus antepassados, conforme hoje se vê.” (Deuteronômio 8.17-18)

E há terríveis consequências sobre os homens de corações altivos:

“Mas se vocês se esquecerem do Senhor, do seu Deus, e seguirem outros deuses, prestando-lhes culto e curvando-se diante deles, asseguro-lhes hoje que vocês serão destruídos. Por não obedecerem ao Senhor, ao seu Deus, vocês serão destruídos como o foram as outras nações que o Senhor destruiu perante vocês.” (Deuteronômio 8.19-20)

“O olhos do arrogante serão humilhados e o orgulho dos homens será abatido; somente o Senhor será exaltado naquele dia. O Senhor dos Exércitos tem um dia reservado para todos os orgulhosos e altivos, para tudo o que é exaltado para que eles sejam humilhados; para todos os cedros do Líbano, altos e altivos, e todos os carvalhos de Basã, para todos os montes elevados e todas as colinas altas, para toda torre imponente e todo muro fortificado, para todo navio mercante e todo barco de luxo. A arrogância dos homens será abatida, e o seu orgulho será humilhado. Somente o Senhor será exaltado naquele dia, e os ídolos desaparecerão por completo.” (Isaías 2.11-18)

O SENHOR abomina o orgulho: “O Senhor detesta os orgulhosos de coração. Sem dúvida serão punidos” (Provérbios 16.5), porque o orgulho afasta o homem de Deus: “A arrogância de Israel testifica contra ele, mas, apesar de tudo isso, ele não se volta para o Senhor, para o seu Deus, e não O busca.” (Oséias 7.10)

A peregrinação de quarenta anos a que Israel foi submetido no deserto foi necessária para que o povo compreendesse que não era nada e o que se tornara foi por causa da vontade e misericórdia de Deus (Deuteronômio 8.2-5). Foi também para estimular o povo a observar e reparar erros do passado e ainda compreender os verdadeiros propósitos dos nossos corações impuros, permitindo assim ao SENHOR transformá-los a cada novo dia, “porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença.” (Efésios 1.4)

Nós jamais devemos nos esquecer que éramos filhos da desobediência e que “anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira. Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos. Deus nos ressuscitou com Cristo e com ele nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus, para mostrar, nas eras que hão de vir, a incomparável riqueza de sua graça, demonstrada em sua bondade para conosco em Cristo Jesus. Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie. Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos.” (Efésios 2.3-10)

Além disso tudo, a autossuficiência torna o homem libertino. Dono do seu próprio destino, ele acredita que pode fazer tudo o que bem entender. Mas é porque ele se esquece ou simplesmente ignora que “todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do corpo, quer sejam boas quer sejam más.” (2Coríntios 5.10)

Materialismo. Para concluir, podemos ainda falar sobre um terceiro entre tantos tipos de “cuidados desta vida”, que é o apego às coisas materiais.

Num mundo onde as pessoas valem o quanto têm, onde os bens são o cartão de visita dos seus proprietários, o povo que recebeu a Palavra de Deus em seus corações também tem uma grande parcela de desvirtuados da fé. São aquelas pessoas que passam por cima da promessa de uma pátria futura e trabalha pela construção de um reino terreno. Contudo, “não temos aqui nenhuma cidade permanente, mas buscamos a que há de vir.” (Hebreus 13.14)

O Céu é o nosso alvo. A eternidade com Deus é nossa maior e principal meta. Somos seres espirituais e seres espirituais não podem ser saciados com coisas materiais, pois “o mundo e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.” (1João 2.17)

“...Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele.” (1João 2.15)

O apego à prosperidade financeira e a busca desenfreada pelo conforto material têm tomado o lugar do empenho pela santidade, sem a qual ninguém verá o SENHOR (Hebreus 12.14). Mas milagres não transformam caráter nem nos garantem salvação (Mateus 7.21-23).

O que interessa ao SENHOR não é, à princípio, nosso progresso financeiro, mas prioritariamente nossa transformação espiritual, o preparo das nossas almas, para que estejam prontas e sejam recebidas no Reino da vida eterna quando o Autor da Vida nos chamar.

É importante observar que quem morreu para o pecado...

- Desligou-se da terra e vive ligado com Deus:

“Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus.” (Colossenses 3.1-3)

- Tem nova postura e novo testemunho:

“Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas. Mas agora, abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente no falar. Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador.” (Colossenses 3.5-10)

- Aspira a eternidade:

“Se é somente para esta vida que temos esperança em Cristo, dentre todos os homens somos os mais dignos de compaixão.” (1Coríntios 15.19)

- Vive como Cristo:

“Portanto, como povo escolhido de Deus, santo e amado, revistam-se de profunda compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou. Acima de tudo, porém, revistam-se do amor, que é o elo perfeito.” (Colossenses 3.12-14)

“Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas sabemos que, quando Ele Se manifestar, seremos semelhantes a Ele, pois O veremos como Ele é. Todo aquele que Nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como Ele é puro.” (1João 3.2-3)

“Mas, se alguém obedece à Sua palavra, nele verdadeiramente o amor de Deus está aperfeiçoado. Desta forma sabemos que estamos nele: aquele que afirma que permanece nEle, deve andar como Ele andou.” (1João 2.5-6)

“Para isso vocês foram chamados, pois também Cristo sofreu no lugar de vocês, deixando-lhes exemplo, para que sigam os Seus passos.” (1Pedro 2.1)

Nós poderíamos continuar escrevendo muitas e muitas outras páginas acerca dos cuidados desta vida, mas nos faltariam tempo e espaço. Por isso, vamos nos ater ao que escrevemos até aqui (obrigada por sua paciência em ler tudo isso!).

E diante de todo o exposto, queremos deixar ainda um conselho, que também foi o de João para todos os filhos de Deus:

“Agora permaneçam nEle para que, quando Ele Se manifestar, tenhamos confiança e não sejamos envergonhados diante dEle na Sua vinda.” (1João 2.28)

Que o SENHOR encontre boa terra em seu coração, onde os espinhos não sufocam a Palavra que dEle você recebeu.

E que sua colheita seja a cem por um, não só para esta vida, mas principalmente para a vindoura no Lar eterno, com Jesus.

No sincero amor dEle, o único que tem as palavras de vida eterna.