quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Procuração Divina

A Bíblia em um ano:
Números 4-8
Marcos 4





“E eu farei o que vocês pedirem em meu nome, para que o Pai seja glorificado no Filho.”
João 14.13

Alguns dias depois que a minha avó faleceu*, um tio meu pegou uma procuração dos seus irmãos vivos (dois outros tios meus e minha mãe), e também dos filhos de dois irmãos já falecidos que, legalmente, tinham direito na herança dos pais. Depois, tomou a frente dos negócios que ficaram por se resolver. Minha avó tinha uma conta mensal na farmácia vizinha. Essa foi a única dívida que ela deixou sem pagar quando partiu dessa vida, e só a quitou porque não tinha como prever que morreria antes de receber o pagamento da sua aposentadoria daquele mês.

Havia também uma velha casa, que embora ainda tivesse algumas paredes de barro (construção original do início do século passado), estava bem localizada na principal avenida da pequena cidade goiana em que minha avó morava, e por isso foi avaliada em quatro vezes mais o valor imaginado pelos filhos.

O tio que pegou a procuração dos três irmãos e dos filhos dos dois irmãos falecidos estava bastante quebrantado com o falecimento da sua mãe. Embora seu passado tenha sido conhecido de muitos por tantos escândalos, orgulho e desafetos, neste momento ele parecia bastante abalado e disposto a se redimir.

Só parecia.

Depois de pegar os documentos devidamente legais e poder responder judicialmente em nome dos outros cinco irmãos, esse meu tio vendeu a casa que pertencia à minha avó pelo valor máximo que conseguiu (quase cem mil reais – um excelente preço, considerando o tamanho e a situação antiga e má conservada do imóvel), não pagou a dívida da farmácia, e logo que pôde, sumiu. Antes da sua fuga, ele contou a um dos irmãos que havia vendido o imóvel por trinta mil reais e deu a este irmão seis mil. Para a outra irmã, disse que havia vendido por vinte mil reais, e a esta deu quatro mil. E para minha mãe e também para os filhos dos dois irmãos já falecidos, disse que havia vendido por quinze mil reais, e prometeu-lhe dar dois mil e quinhentos reais. Mas até hoje não o fez.

Sei que esse meu tio não foi um mau aluno em Matemática, até porque para tirar seu “lucro fácil” da situação, ele soube fazer contas rápidas e com números relativamente altos. O fato é que depois dessa patifaria toda, esse meu tio pegou praticamente todos os móveis e utensílios da casa que foi da minha avó, colocou um bom dinheiro da venda do imóvel no bolso, e mudou-se de cidade, não dando, desde então, mais nenhuma satisfação à família.

Não é impressionante como muitas pessoas se aproveitam de situações como essa para tirar vantagens sobre outras, mesmo trazendo prejuízo a estas? E não é interessante como muitos de nós também agem assim em relação a Jesus Cristo? Meu tio usou uma procuração escrita. Cristãos usam o nome de Cristo.

Quando Jesus disse “E tudo quanto pedirdes em Meu nome Eu o farei” (João 14.13a – ACF), Ele estava passando para nós uma procuração em Seu nome, para que nós agíssemos e pedíssemos ao Pai aquilo que Ele pediria ou faria. O restante do versículo nos esclarece isso: “...para que o Pai seja glorificado no Filho.” (João 14.13b-ACF)

Leiamos mais uma vez na íntegra:

E tudo quanto pedirdes em Meu nome Eu o farei para que o Pai seja glorificado no Filho.” (João 14.13 – ACF)”

E eu farei o que vocês pedirem em meu nome, para que o Pai seja glorificado no Filho.” (João 14.13 - NVI)

E tudo o que vocês pedirem em Meu nome Eu farei, a fim de que o Filho revele a natureza gloriosa do Pai.” (João 14.13 – NTLH)

Acontece que nossos interesses pessoais nos levam a memorizar (e praticar) somente a primeira parte do versículo: “E tudo quanto pedirdes em Meu nome Eu o farei.” Dessa forma, a grande maioria dos cristãos de hoje se apegam ao materialismo, às riquezas, às honras do mundo, crendo estar debaixo da bênção de Deus e glorificando o Seu nome. Mas Deus não é glorificado quando o homem enriquece, e sim quando este tem o seu caráter mudado.

Algumas pessoas ricas têm seus corações totalmente voltados para Deus. Isso é um fato que glorifica Deus. Mas a maioria dos cristãos, por mais que tenham sido agraciados financeiramente, continuam com seus corações arrogantes, duros e incapazes de perdoar, impacientes, ansiosos, mentirosos, orgulhosos, mesquinhos, falsos, grosseiros e até libertinos, entre outros. Suas atitudes mais recentes e o conceito que o mundo tem formado a seu respeito contam com detalhes sobre essa triste realidade.

Não queremos dizer com isso que para se santificarem os cristãos devam ser pobres. Mas "que vantagem há em alguém ganhar o mundo inteiro - e perder a vida eterna? Que é que se pode comparar com o valor da vida eterna?" (Mateus 16.26 – Viva)

O fato é que muitas pessoas se aproveitam dessa passagem bíblica para tentar extrair de Deus bens, riquezas, dinheiro, prestígio, diplomas, reconhecimento, curas, bênçãos de todas as sortes, e até vingança!(!). Muitos são os que utilizam essas palavras de Jesus para determinarem, exigirem, obrigarem certos acontecimentos, conforme os seus próprios interesses, sem procurar de Deus qual deva ser a melhor direção a se tomar.

Nem sempre o nome de Jesus vai repreender uma enfermidade. Nem sempre o nome de Jesus vai abrir uma porta financeira. Nem sempre o nome de Jesus vai trazer alguém de volta. Pois “tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu” (Eclesiastes 3.1 - ARA). Basta procurarmos compreender o propósito, o ensinamento que o Senhor quer nos dar com determinada situação. Isso é o que verdadeiramente nos faz crescer espiritualmente e nos aproximarmos mais de Jesus a cada dia.

O nome de Cristo não é uma vara de condão, que deva ser pronunciado para que, num passe de mágica, as coisas aconteçam ou se transformem como nós determinamos. Ao contrário, o nome de Jesus é a procuração divina que o Mestre nos entregou para que busquemos diante de Deus cumprir os mesmos intentos de Jesus. O mundo, quando nos vê agindo como Jesus agiria, respeita o Senhor e nos respeita também. Aliás, os cristãos nunca estiveram com a moral tão baixa. Antigamente, eram perseguidos e caluniados por causa da excelência dos testemunhos da sua fé, santa, inabalável e irrepreensível. Hoje, são apontados pelos maus testemunhos de uma fé instável, frágil e desvirtuada.

Permita-me repetir minha versão preferida para este versículo: “E tudo o que vocês pedirem em Meu nome Eu farei, a fim de que o Filho revele a natureza gloriosa do Pai.” (João 14.13 – NTLH)

Primeiro, para que “o Filho revele a natureza gloriosa do Pai” (ou “para que o Pai seja glorificado no Filho”, parte b do verso em apreço), a prioridade da ação deve ser espiritual e não material, porque “Deus é Espírito, e é necessário que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (João 4.24 – ACF). Deus não é um corpo físico, não prioriza o materialismo em detrimento ao espiritual, não aprova o concreto se opondo à fé sobrenatural (“...o que não se baseia na fé é pecado” – Romanos 14.23 – NTLH), não Se encanta com obras nem com bens desta terra porque não precisa nem depende delas para nada – absolutamente nada, pois “somos como o impuro — todos nós! Todos os nossos atos de justiça são como trapo imundo. Murchamos como folhas, e como o vento as nossas iniqüidades nos levam para longe.” (Isaías 64.6 - NTLH)

Segundo, o nome de Cristo é nossa procuração para representarmos o Senhor no mundo, porque Ele mesmo falou: “Se vocês permanecerem em Mim, e as Minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será concedido” (João 15.7 – NVI). Existem condições para que sejam concedidas todas as coisas que pedirmos ao Pai: Se permanecermos em Cristo e Se as palavras dEle permanecerem em nós. Isso equivale a dizer que tendo conhecimento do que Jesus deseja, pediremos ao Pai o que é certo e necessário. Não o que desejamos para nós mesmos.

Recebemos dEle tudo o que pedimos porque obedecemos aos Seus mandamentos e fazemos o que agrada a Ele.” (1João 3.22 – NTLH)

Quando estamos na presença de Deus, temos coragem por causa do seguinte: se pedimos alguma coisa de acordo com a Sua vontade, temos a certeza de que Ele nos ouve. Assim também que Ele nos ouve quando Lhe pedimos alguma coisa. E, como sabemos que isso é verdade, sabemos também que Ele nos dá o que Lhe pedimos.” (1João 5.14-15 – NTLH)

Jesus disse ainda: “Não foram vocês que Me escolheram; pelo contrário, fui Eu que os escolhi para que vão e dêem fruto e que esse fruto não se perca. Isso a fim de que o Pai lhes dê tudo o que pedirem em Meu nome” (João 14.16 – NTLH). Para que o nosso fruto permaneça, não pereça, não se perca, é preciso que ele seja espiritual e com vista à eternidade, porque as coisas desse mundo passarão, o céu e a terra passarão, mas as palavras de Jesus, os Seus ensinamentos, as Suas obras não passarão (Mateus 24.35; Apocalipse 21.1).

Quando usamos o nome de Cristo, devemos fazê-lo colocando nossos “interesses nas coisas que são do Céu, onde Cristo está sentado ao lado direito de Deus. Pensem nas coisas lá do alto e não nas que são aqui da terra. Porque vocês já morreram, e a vida de vocês está escondida com Cristo, que está unido com Deus.” (Colossenses 3.1-3)

O amor pelas coisas, especialmente coisas temporárias, nos leva a ter problemas. Pior ainda, podemos começar a pensar que elas nos farão felizes ou que preencherão os lugares vazios nos nossos corações. Se realmente fundarmos as nossas esperanças e sonhos no nosso Senhor, estaremos ligados à eternidade e àquilo que precisamos mais estará sempre conosco.

Cristo está unido com Deus, que é Eterno, e que tem feito promessas de uma vida eterna, futura, incomparável e infinitamente melhor do que esta. Mas a grande maioria do povo que se chama cristão está apegada a esta terra, às efemeridades deste mundo, às coisas naturais e físicas desta vida, como se nossa história se resumisse a isso aqui. E por isso, usa-se tanto o nome de Cristo para invocar acontecimentos tão superficiais, voltados à matéria e não ao espírito, inclinados ao que é passageiro e não ao que é eterno, geralmente característicos do que é errado e não do que é santo, porque condizem basicamente com interesses próprios e não com os interesses de Deus.

É o que meu tio deveria fazer com as cinco procurações que tinha dos seus irmãos: deveria vender o imóvel, pagar a dívida da minha avó e repartir igualmente o valor do bem entre os seis herdeiros legais. Isso é o que seria justo. Isso é o que seria legal. Isso é o que seria correto. Mas não foi o que ele fez. Ele pensou em si somente, mesmo em detrimento a outras cinco famílias. Ele não pensou no desgosto que minha avozinha teria se ainda estivesse viva. E ele, menos ainda, pensou no que Deus estava achando disso tudo.

Contudo, esse caso foi perdoado pelos outros envolvidos. Ninguém sabe exatamente onde meu referido tio está, mas nenhum dos herdeiros, até onde conheço, está alimentando ira e mágoa em seu coração, até porque todos estão bem conscientes que Deus é quem sempre esteve cuidando de cada um deles e provendo tudo o que necessitam para viverem dignamente.

Mas o caso de Jesus ainda não se encerrou. O tempo da igreja na terra ainda não se findou. O nome de Cristo, o Senhor, ainda está em alta nas ordenanças de quem perdeu o Céu de vista e pensa ter Deus a seu serviço.

Muitos Cristãos não enxergam o tesouro de valor incalculável que Deus lhes deu. Correm atrás de "tesouros" aqui, não percebendo que acabarão perdendo tudo - os bens ilusórios desta vida e os tesouros desperdiçados do Céu.

É com as nossas ações que revelamos o que realmente tem valor para nós. É pelas nossas atitudes que o mundo respeita Jesus Cristo. São nossas atitudes que expressam o nosso grau de dependência de Deus ou intenção de exercermos domínio sobre o Seu poder.

Use o nome de Jesus com responsabilidade, com sabedoria e com temor a Deus. E que as suas ações revelem que o seu maior interesse é ser como Cristo é.

No amor dEle, que é Santo.



(*) Há uma mensagem sobre esse acontecimento bem AQUI.