terça-feira, 19 de julho de 2011

Para quando vier o muito...

A Bíblia em um ano:
Salmos 23-25
Atos 21.18-40




Eu também já questionei ao Senhor o motivo pelo qual ainda estou vivendo determinadas situações que, além de parecerem tão pequenas diante das promessas que Ele já fez para mim, ainda são imensamente entristecedoras. Mas antes de eu contar as respostas que recebi dEle, quero fazer algumas observações sobre o texto a seguir...


“E também [o Reino dos Céus] será como um homem que, ao sair de viagem, chamou seus servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, e a outro um; a cada um de acordo com a sua capacidade. Em seguida, partiu de viagem. O que havia recebido cinco talentos saiu imediatamente, aplicou-os, e ganhou mais cinco. Também o que tinha dois talentos ganhou mais dois. Mas o que tinha recebido um talento saiu, cavou um buraco no chão e escondeu o dinheiro do seu senhor. Depois de muito tempo, o senhor daqueles servos voltou e acertou contas com eles. O que tinha recebido cinco talentos trouxe outros cinco e disse: ‘O senhor me confiou cinco talentos; veja, eu ganhei mais cinco’. O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel!” Você foi fiel no pouco, eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!’ Veio também o que tinha recebido dois talentos e disse: ‘O senhor me confiou dois talentos; veja, eu ganhei mais dois’. O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco, eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!’ Por fim veio o que tinha recebido um talento e disse: ‘Eu sabia que o senhor é um homem severo, que colhe onde não plantou e junta onde não semeou. Por isso, tive medo, saí e escondi o seu talento no chão. Veja, aqui está o que lhe pertence’. O senhor respondeu: ‘Servo mau e negligente! Você sabia que eu colho onde não plantei e junto onde não semeei? Então você devia ter confiado o meu dinheiro aos banqueiros, para que, quando eu voltasse, o recebesse de volta com juros. Tirem o talento dele e entreguem-no ao que tem dez. pois a quem tem, mais será dado, e terá em grande quantidade. Mas a quem não tem, até o que tem lhe será tirado. E lancem fora o servo inútil, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes’.” (Mateus 25.14-30-NVI)


Os talentos, na parábola acima, foram o objeto que Jesus usou para falar sobre nossas aptidões, tempo, recursos e oportunidades para servir ao Senhor. Cada um de nós é dotado dessas coisas, em maior ou em menor escala, de acordo com a nossa capacidade, podendo [e devendo], portanto, empregá-las a serviço do Reino de Deus e da nossa própria comunhão pessoal com o Espírito Santo, dia após dia.

Por isso, se não temos sabedoria para administrar diligentemente as aptidões, o tempo, os recursos e as oportunidades que o Senhor nos dá, peçamos sabedoria a Ele, pois “a todos dá livremente, de boa vontade”. (Tiago 1.5-NVI)

Todos os anos, eu enfrento as mesmas reclamações dos meus alunos, quando começo a trabalhar as dificuldades específicas deles. Alguns alunos, com problemas de visão, precisam sentar-se nas primeiras cadeiras da sala de aula. Outros, por serem muito agitados e desobedientes, também. E há ainda aqueles que apresentam algum déficit de aprendizagem ou que naturalmente se desenvolvem mais lentamente e precisam de uma atenção especial. Eles também têm seu lugarzinho garantido o mais próximo de mim. Mas aquele grupo de alunos que já são mais independentes e que já estão avançados em conhecimento em relação à turma, sentam-se, comumente, nas últimas cadeiras. Formam o “fundão” da turma.

Numa linguagem bastante apropriada para que aquelas surpreendentes cabecinhas de seis anos de idade possam compreender, e enfatizando as potencialidades de cada aluno, explico que, de acordo com a capacidade de cada um foi que fiz a distribuição dos lugares, de forma que todos aprendam e se desenvolvam com excelência.

Quando Deus distribuiu talentos e dons aos Seus filhos, Ele esperava o mesmo de nós. Ele queria que aprendêssemos e desenvolvêssemos com excelência aquilo que Ele nos confiou. E já conhecendo nossa capacidade em particular, Ele distribuiu as condições de forma justa e necessária. Embora eu seja apaixonada por violão, Ele sabia que eu não tenho nenhuma capacidade de tocar instrumentos, por isso me deu dom para louvar, não para tocar. Da mesma forma, Ele sabia que eu tinha aptidão para a arte, então, gentilmente Deus colocou em meu caminho um curso amador [mas foi o suficiente] de pintura em tela, e lá eu descobri que sabia pintar quadros, algo pelo que sempre fui apaixonada e nunca soube por onde começar. Deus também sabia que minha mãe não tem paciência com crianças e nem com outras pessoas, por isso, deu-lhe um emprego público, onde ela passa seus dias divertido-se com autuação de processos. [Em dois anos ela completará 30 anos de trabalho nesse órgão, tendo passado por vários setores e, enfim, se aposentará.]

Enfim, Deus nos deu capacidade e aos poucos provê condições para que elas sejam desenvolvidas. Mas isso não deve ser feito unicamente para satisfazer os nossos interesses pessoais. Na economia do Reino de Deus, quem mais dá é quem mais tem. Na Sua política, o maior é o que se torna servo. Na Sua cultura, o mais forte de todos é o mais fraco que depende de Deus.

Nós temos a tendência natural de pensar na grandeza do homem como sendo medida por suas riquezas, suas amizades, seu cargo, sua posição, sua fama, capacidade, grandes realizações... Mas no Reino de Deus, um Reino que “não é comida nem bebida, mas justiça, e Paz, e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14.17-ACRF), nem “consiste em palavras, mas em poder” (1Coríntios 4.20-ACRF), neste Reino o que importa não é tanto o que fazemos para Deus ou falamos ou pensamos sobre Ele, mas o que somos em espírito interiormente diante do Senhor.

O homem pode ter tudo e não fazer nada para o Reino de Deus. Mas, ao contrário, também pode ter apenas um talento e dedicar-se àquilo com tal esmero e amor, que Deus consegue vê-lo dentre multidões de exibicionistas e bem-dotados como sendo o único que realmente Lhe importa.

Marcos nos conta um fato que ocorreu entre Jesus e Seus discípulos, que ilustra bem o que acabei de dizer:

E chegaram a Cafarnaum. Quando Ele [Jesus] estava em casa, perguntou-lhes: ‘O que vocês estavam discutindo no caminho?’ Mas eles [os discípulos] guardaram silêncio, porque no caminho haviam discutido sobre quem era o maior. Assentando-Se, Jesus chamou os Doze e disse: ‘Se alguém quiser ser o primeiro, será o último, e servo de todos’. E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles. Pegando-a nos braços, disse-lhes: ‘Quem recebe uma destas crianças em Meu nome, está me recebendo; e quem Me recebe, não está apenas Me recebendo, mas também Àquele que Me enviou.” (Marcos 9.33-37-NVI)

Os discípulos estavam andando lado a lado com o Mestre, e sabiam menos que uma criança. Enquanto eles reivindicavam honras e privilégios, a criança, entre eles, é que teve o privilégio de ser tomada nos braços de Jesus e sentar-se no Seu colo.

Deus não espera grandes coisas de nós. Espera que sejamos dedicados para com aquilo que Ele nos deu. Ele não espera nenhum ato heróico da nossa parte. Espera apenas que sejamos sinceros e responsáveis no serviço do Reino e na nossa santificação diária.

Buscar do Senhor condições para desenvolver o talento [ou os talentos] que nos foi[foram] dado[s] é imprescindível, pois tudo o que vivemos aqui é parte de um treinamento para assumirmos coisas maiores no futuro. Como será que um piloto de avião conseguiria controlar aquela máquina daquele tamanho sem, antes, passar por um extenso e exaustivo treinamento? Como um médico poderia fazer cirurgias e cuidar da saúde das pessoas sem ter uma longa e qualificada formação para isso? Um mecânico de carros não pode sair por aí operando pessoas, não é? Nem um soldado em combate no Oriente Médio está tecnicamente habilitado a trabalhar em jardins de infância, como professor do maternal.

Existem muitas pessoas exercendo funções erradas, para as quais não são formadas, e o resultado, quase sempre, é trágico. Existem também muitos servos de Deus querendo desenvolver dons que não possuem, e as frustrações são inevitáveis. Se ainda há dúvidas em seu coração sobre qual seria o seu talento, vou te dar uma dica: Ore, peça a Deus que te mostre o que Ele tem para você, e peça a Ele que coloque desejo de fazer, paz e alegria em seu coração quando você estiver fazendo esse algo. Você deve sentir o desejo e a alegria em fazer, mas principalmente, deve ter paz em fazer. Se seu coração ficar inquieto, amigo(a), o seu barco é outro. Pule fora enquanto é tempo, e assim você evitará grandes decepções.

Só não pule para dentro da água, para fora do barco. Você pode morrer afogado. Se o lugar para onde Deus apontou para você pular foi somente um pequeno bote, pule dentro dele sem pensar duas vezes. Certamente, ele é o instrumento que Deus está colocando em suas mãos para trabalhar e cooperar com o Seu Reino neste momento. Quem sabe, no futuro, depois de aprovado no pouco, Deus te dê a direção de um iate de luxo ou de um grande navio?

Existe algo para você fazer, para o qual Deus verdadeiramente te chamou. Existe algo para o qual Deus te deu um dom. Pode não ser aparentemente um grande ministério de louvor ou um nome entre os maiores ministros do Evangelho no mundo, pois talvez você não tenha condições [pessoais e/ou externas] de dirigir um trabalho dessas proporções. Mas ainda que seja um trabalho por nós considerado pequeno, como limpar os bancos da congregação, por exemplo, saiba que ele é de suma importância para o Reino. Afinal, como andariam as nossas poupanças se não tivéssemos um lugar limpo para nos assentar dentro do templo do Senhor?

Para Deus não existe trabalho grande ou pequeno. Existe trabalho a ser feito. E servos dispostos ou não. [Honestamente, oro para que você seja um disposto, pau para toda obra!]

Agora compreendo ainda mais porque Paulo disse que “todas as coisas contribuem...” (Romanos 8.28). Não era somente pelo fato de nos acrescentar em nosso caráter (como eu tanto tenho ensinado através dos meus textos e pregações), mas também pelo fato de nos qualificar para desenvolvermos os dons, multiplicarmos os talentos. Se buscarmos de Deus a sensibilidade para ouvir as direções do Espírito Santo em tudo o que fizermos, vamos descobrir quais são nossos talentos e vamos desenvolvê-los com excelência.

Por que não enterrar o único talento que recebi? Porque Deus não quer saber o quanto posso fazer, mas como posso fazer. A Bíblia nos dá a instrução sobre como devemos viver e trabalhar para Deus: “Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens, sabendo que receberão do Senhor a recompensa da herança. É a Cristo, o Senhor, que vocês estão servindo.” (Colossenses 3.23-24)

Portanto, seja com muitos ou poucos talentos, façamos o nosso melhor, e o Senhor nos honrará no final de tudo. Afinal, como Ele poderá nos confiar coisas grandes, se nas pequenas do dia-a-dia somos negligentes? Qual é o dono de uma bem sucedida multinacional que entregará o comando da sua empresa nas mãos de um estagiário recém-chegado? Qual é o pai que entregará as chaves do carro para que seu filho de quatro anos de idade dirija-o no centro de São Paulo? Será que Deus deveria ser o único a quebrar essa regra?

Voltando à questão inicial, embora eu já tenha muitas conquistas a contar, eu também já perguntei muito para Deus o que está faltando para que outras de Suas grandes promessas se cumpram para mim. Depois de meditar nas coisas que acabei de escrever, compreendi que as respostas do Senhor estão bem claras. Agora cabe a mim valorizar e me empenhar naquilo que tenho recebido dEle para fazer hoje, para que, chegando o tempo certo, eu possa ouvir dos Seus lábios: “Muito bem, serva boa e fiel! Você foi fiel no pouco, Eu a porei sobre o muito.” (Mateus 25.21)

Faça por onde essa ser a resposta dEle para você também.