sábado, 27 de agosto de 2011

A prática da misericórdia

A Bíblia em um ano:
Salmos 120-122
1Coríntios 9



Fico decepcionada e muito triste ao ver as igrejas desprezando as pessoas que foram colocadas em disciplina, como se elas fossem animais que não merecessem nem mesmo a nossa atenção. Pessoas que deveriam demonstrar amor e auxiliar os irmãos caídos, muitas vezes, desviam-se deles, viram-lhes os rostos e acabam de empurrá-los para dentro do buraco. Sem falar daqueles "crentes mais santos que o próprio Deus", que têm prazer em condenar e auxiliar na execução dos irmãos em pecado, jogando terra nos buracos em que se encontram...

Colocar um membro em disciplina e afastá-lo da comunhão por causa do pecado é uma coisa certa, segundo a Bíblia. Desprezar esse membro e tratá-lo como se ele fosse um lixo que não merece mais o nosso amor é outra bem diferente, e é pecado:

"Meus irmãos, se algum entre vós se desviar da verdade, e alguém o converter, sabei que aquele que converte o pecador do seu caminho errado salvará da morte a alma dele e cobrirá multidão de pecados." (Tiago 5:19-20)

"Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado." (Gálatas 6:1)

É muito fácil amarmos quem é bonzinho e faz tudo direitinho dentro da igreja. Difícil é seguir o exemplo de nosso Senhor Jesus Cristo e amar os doentes, viver por eles e não pelos sãos [Marcos 2.15-17].

E até mesmo sobre aqueles irmãos que não querem se arrepender, veja o que a Bíblia diz:

"Nós vos ordenamos, irmãos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo irmão que ande desordenadamente e não segundo a tradição que de nós recebestes"; "Caso alguém não preste obediência à nossa palavra dada por esta epístola, notai-o; nem vos associeis com ele, para que fique envergonhado. Todavia, não o considereis por inimigo, mas adverti-o como irmão." (2 Tessalonicenses 3:6,14-15)

E estando em disciplina, aquele membro que caiu tem o direito de voltar à comunhão sim e isso é bíblico. Leia Atos 13.13 e veja que Marcos abandonou Paulo no trabalho missionário. Ele não continuou até o fim da viagem. Abandonou o arado. Virou as costas e voltou para Jerusalém. Deus diz que quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto a entrar no Reino dos Céus (Lucas 9.62). Mas veja só o que aconteceu...

Marcos se arrependeu e, no capítulo 15, versículo 36, lemos que Paulo decidiu retornar aos lugares onde havia pregado o evangelho em sua primeira viagem e então conversa com Barnabé:

“E alguns dias depois, disse Paulo a Barnabé: Tornemos a visitar nossos irmãos por todas as cidades em que já anunciamos a palavra do Senhor, para ver como estão. E Barnabé aconselhava que tomassem consigo a João, chamado Marcos. Mas a Paulo parecia razoável que não tomassem consigo aquele que desde a Panfília se tinha apartado deles e não os acompanhou naquela obra. E tal contenda houve entre eles, que se apartaram um do outro. Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre.” (Atos 15.36-39)

Barnabé queria novamente levar João Marcos, dar-lhe uma segunda chance. Para Paulo, a atitude de Marcos era imperdoável. Ele os havia abandonado no meio de um viagem, os havia deixado na mão. Como contar com uma pessoa assim? E “tal contenda houve”, ou seja, um “quebra-pau” daqueles! E a briga foi tão feia que os dois companheiros se separaram: um foi para um lado e outro para outro lado.

Entretanto, na segunda carta de Paulo a Timóteo, lemos o seguinte no capítulo 4:

“Porque Demas me desamparou, amando o presente século, e foi para tessalônica, Crescente para Galácia, Tito para Dalmácia. Só Lucas está comigo. Toma Marcos, e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério.” (2Timóteo 4.10-11)

Vemos que Demas abandonou o caminhar cristão – ele amou o presente século, ou seja, o mundo – cuja amizade é inimizade com Deus. E vemos novamente o nome de Marcos, só que desta vez Paulo o tem como “muito útil para o ministério”. Paulo, que havia brigado feio com Barnabé por causa de João Marcos, agora o tem como uma pessoa querida (ele o queria perto) e útil.

O que aprendemos com essa passagem?

• Aprendemos com Demas que não importa quanto tempo de igreja eu possa ter, não importa se fiz parte da equipe missionária de um grande apóstolo, não importa se vi o poder de Deus em ação e presenciei milagres após milagres – como Demas amou o presente século e abandonou a Paulo, eu também estou sujeito a abandonar o caminho e por isso tenho que vigiar. [Nenhum cristão - nenhum sequer - está isento dessa possibilidade!]

• Aprendemos com João Marcos que sempre há uma segunda chance, mesmo que você tenha caído em certo ponto da jornada, a restauração é possível.

• Aprendemos com Barnabé que vale a pena acreditar nas pessoas e investir em suas vidas.

• Aprendemos com Paulo que, por mais que eu não aceite certos tipos de comportamento, sou obrigado a reconhecer que as pessoas podem sim mudar.

• Aprendemos com João Marcos e Demas que é mais importante como terminamos do que como começamos.

Mas, infelizmente, vemos “irmãos” de muitas denominações repetindo, de forma impiedosa e extremamente legalista, o verso "Maldito é o homem que confia no homem", de forma isolada, para justificar que um arrependido não possa novamente ser útil no serviço da Casa de Deus depois do período de observação.

Vamos ler o verso de Jeremias 17.5, por inteiro: "Maldito é o homem que confia no homem, e que faz da humanidade mortal a sua força, mas cujo coração se afasta do Senhor."

Deus estava falando sobre as pessoas autossuficientes, arrogantes, que acham que não precisam do senhor e confiam nos homens e nas suas riquezas. Deus não estava falando que nós não devemos dar uma nova chance para as pessoas porque não conhecemos os corações delas.

Só Deus conhece seus corações, por isso mesmo Ele mostra aos líderes da Igreja o momento de uma pessoa retornar à comunhão, caso ela já se encontre em condições de retornar. Infelizmente, muitos líderes não seguem esse princípio bíblico, e acabam deixando de aplicar o acompanhamento e a preparação espiritual que essas pessoas carecem, seja por conveniências, seja por covardia. Entretanto, quando pessoas pecadoras se arrependem, têm o direito de recomeçar, tentando acertar agora.

Em Miqueias 7.19, a Palavra de Deus diz: "De novo terás compaixão de nós; pisarás as nossas maldades e atirarás todos os nossos pecados nas profundezas do mar." Nas profundezas do mar!!! O profeta usou essa expressão ["nas profundezas do mar"] para demonstrar que Deus lançou as culpas do povo pecador arrependido tão longe, que ninguém mais tem o direito de ir lá buscá-las de volta e oprimir o pecador com elas, de forma impiedosa.

Leiamos também as passagens abaixo e vejamos o que Deus diz sobre dar uma nova chance ao pecador que se arrepende e muda:

"Embora os seus pecados sejam vermelhos como escarlate, eles se tornarão brancos como a neve; embora sejam rubros como púrpura, como lã se tornarão. Se vocês estiverem dispostos a obedecer, comerão os melhores frutos desta terra; mas, se resistirem e se rebelarem, serão devorados pela espada. Pois é o Senhor quem fala." (Isaías 1.18-20)

Ele não estava dando mais uma chance para Israel?

Ele mesmo foi quem falou também: "Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e dos teus pecados não me lembro." (Isaías 43.25)

"Porque serei misericordioso para com suas iniqüidades, E de seus pecados e de suas prevaricações não me lembrarei mais." (Hebreus 8.12)

Ora, se Deus está dando uma nova oportunidade para o pecador que se arrepende, por que muitas das nossas congregações ensinam que eles nunca mais poderão voltar à comunhão com o Corpo de Cristo?

Creio que isso seja se colocar acima de Deus e condenar o que Ele ainda não condenou. Mas o que a Bíblia diz sobre misericórdia nos faz compreender que Ele quer que nós ofereçamos nova oportunidade aos irmãos arrependidos, assim como Ele nos deu, quando nós fomos arrependidos até Ele:

"...sede todos de um mesmo sentimento, compassivos, amando os irmãos, entranhavelmente misericordiosos e afáveis." (1Pedro 3.18)

"Antes sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também deus vos perdoou em cristo." (Efésios 4.32)

Se Ele nos perdoou das culpas e nos deu nova oportunidade de recomeçar, não devemos dar nova chance aos arrependidos que estão demonstrando com seu modo de viver e com suas atitudes que mudaram?

São palavras do Mestre: "Sede, pois, misericordiosos, como também vosso pai é misericordioso." (Lucas 6.33)

Isso o que Jesus nos ensinou a seguir. Foi isso o que aprendemos [ou devemos aprender] com a Bíblia. É isso o que devemos pregar e é através disso que veremos o amor verdadeiro sendo transmitido aos pecadores.

Nas quedas, os irmãos devem ficar em observação, longe da comunhão até que se recomponham. Apresentando arrependimento e libertação, a Bíblia garante que eles têm o direito de retornar à comunhão com o Corpo e participar novamente de todas as atividades da família de Deus, assim como o filho pródigo recebeu outra vez de tudo o que havia na casa do seu pai quando se arrependeu, confessou e voltou. Ele não recebeu um cantinho para ficar assistindo o irmão gozando da graça do pai, mas foi recebido como um príncipe herdeiro e com festa, porque esteve perdido mas foi encontrado. (Leia Lucas 15.11-31)

Fiquem na Misericórdia, Graça e Paz de Deus, o Pai, e de Jesus Cristo, o nosso Senhor.

No amor dEle.

Elaine Cândida

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Auxílio:

João Marcos, Demas e Paulo. Disponível em http://faladeus.wordpress.com/2009/05/31/joao-marcos-demas-e-paulo/. (27/08/11)

Bíblia Sagrada, Almeida Revisada e Corrigida

Bíblia Sagrada, Almeida Corrigida Fiel

Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional

Bíblia Sagrada, Nova Tradução na Linguagem de Hoje