sábado, 3 de setembro de 2011

A face do amor

A Bíblia em um ano:
Salmos 137-140
1Coríntios 13



“Ele [Jesus] foi oprimido e afligido, mas não abriu a Sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim Ele não abriu a sua boca.”
Isaías 53.7



Tento imaginar Jesus diante de tamanha aflição, prestes a receber a pior sentença que um homem poderia receber na época em que Ele viveu neste mundo como homem.

Tento imaginar Jesus recebendo os açoites das varas, dos homens, o cuspe, as chibatadas.

Tento imaginar Jesus sendo humilhado, recebendo todo tipo de insulto e escárnio, inclusive de muitos daqueles que Ele havia conhecido pessoalmente, pessoas do Seu dia-a-dia, que ouviam suas palavras. Quem sabe até de alguns daqueles que Ele havia curado!

Tento imaginar a multidão fervorosa ao Seu redor, gritando: “Crucifica-O! Crucifica-O!”. Os nervos exaltados, os ânimos enfurecidos... a ira, o ódio, a impiedade, a cegueira. Quantas horas difíceis! Deviam parecer séculos.

Tento imaginar o caminho ao calvário. O peso do tronco sobre os ombros dilacerados pelos chumbos e ossinhos nas pontas daquelas tiras de couro que os carrascos usaram para surrá-Lo.

Tento imaginar os pregos sendo cravados em Suas mãos e em Seus pés. Imagino a cena de horror que aconteceu diante dos olhos que fitavam Sua face, já desfigurada de tanto ter sido esbofeteada, e agora expressando os momentos de uma dor horrível cujas palavras simplesmente não são suficientes para descrever.

Ele sabia tudo o que passaria. Sabia que esse fim O aguardava. Chegou mesmo a demonstrar Seu desconforto com essa situação lastimável que O esperava pelas próximas horas de Sua vida, a ponto de pedir a Deus em oração para passar de Si esse cálice de amargura, se possível fosse.

Mas diante do Silêncio do Pai, Jesus também Se calou.

Calou-Se para cumprir a missão para a qual veio a este mundo. Se tivesse Se manifestado e falado além do necessário, certamente teria atrapalhado ou atrasado o cumprimento dos planos de Deus para este mundo.

Calou-Se para ver cumprida a vontade de Deus e não a Sua própria, como homem que desejava livrar-Se do tormento a que seria submetido.

Calou-Se para testemunhar aos que O assistiam como deve ser o comportamento de um homem que verdadeiramente ama, obedece e teme a Deus; de um homem que realmente é submisso ao Senhor do Universo.

Calou-Se para registrar na História para todas as gerações quão precioso é o silêncio daqueles que confiam em Deus e que entregam o futuro de suas vidas nas mãos do Senhor, permitindo-Lhe, somente a Ele, fazer a justiça.

Calou-Se o Cristo, que outrora pregou com veemência o Evangelho do Reino, a Palavra que limpa, a Graça que liberta, o amor que transforma, o Deus que salva.

Calou-Se, certamente, pelo peso dos pecados de milhões que estavam sobre Si naquele Calvário. Talvez, se Se esforçasse para conversar, para revidar a Sua condenação imerecida, deixasse, por descuido, um dos pecados cair de Suas costas cansadas e ensangüentadas.

Calou-Se...

Embora todos gritassem ao Seu redor, Jesus permanecia calado. Embora tudo Lhe fosse contrário, Ele permaneceu em silêncio. Embora levasse sobre Si a dor e o desprezo, a cruel pena de morte – ainda que não merecesse nada disso, porque só o bem a todos fez – Jesus continuou mudo.

E amando quem judiava dEle assim...!

Pelo que entendemos: o que nos impede de nos calar quando alguém nos ofende, nos entristece, nos irrita?

Como é difícil para nós – tão menores que Jesus – nos calarmos diante dos problemas, das adversidades, das perseguições e afrontas – também tão menores que tudo o que Ele enfrentou!

Que necessidade absurda é esta que temos de sempre revidarmos, de sempre darmos a última palavra, de sempre nos alvoroçarmos e inquietarmos pelas situações que nos causam desconforto!

Nos versos seguintes, Isaías registra que Jesus “verá o fruto do trabalho da Sua alma, e ficará satisfeito” (Isaías 53.11).

E isso se tem cumprido ao Rei.

Deus “O ressuscitou dos mortos e pondo-O à Sua direita nos céus, acima de todo principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro. E sujeitou todas as coisas a Seus pés e, sobre todas as coisas, O constituiu como cabeça da Igreja, que é o Seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos.” (Efésios 1.20-23)

Seu silêncio Lhe concedeu um nome superior a qualquer outro que já tenha existido ou que venha a existir. Por este nome, o inimaginável torna-se concreto, o impossível acontece, o inexistente vem à existência e desafia as leis de toda ciência humana, coloca em cheque toda razão do homem e modifica toda a História em todos os tempos.

Foi pelo Seu silêncio que Deus Lhe deu autoridade para desbaratinar governos e desmontar sistemas humanos em todo o mundo, por milênios estabelecidos. Um lugar de glórias e honras Lhe foi reservado para toda a eternidade, pelo simples fato de ter Se calado e deixado cumprir-Se a vontade de Deus em Sua vida.

No silêncio, Jesus instaurou a voz mais forte que ecoa entre os povos e que jamais foi calada: a voz do amor de Deus.

Amor que nos ensina hoje, pacientemente, a vivermos como Jesus viveu, agindo como Ele agiu, pensando o que Ele pensou, sentindo o que Ele sentiu, nos calando como Ele Se calou.

E assim, nós também colheremos os frutos do árduo trabalho de quem se cala no momento certo para que somente a voz de Deus seja ouvida, e proclame bênçãos que os olhos nunca viram, nem ouvidos nunca ouviram que nunca desceram ao coração do homem!