terça-feira, 17 de janeiro de 2012

As faces da Igreja

A Bíblia em um ano:
Êxodo 5-7

By Elaine Cândida, com pintura em tela "Rute e Noemi", de Bia Moreira.


“E Rute, a moabita, continuou: ‘Pois ele mesmo [Boaz, o resgatador] me disse também: ‘Fique com os meus ceifeiros até que terminem toda a minha colheita’.’ ”
Rute 2.21


Quando nós lemos a Bíblia, verificamos que em todo o seu panorama é possível identificar as faces da Igreja, por assim dizer. O livro de Rute nos mostra pelo menos três dessas faces.

Fazendo uso da interpretação da Bíblia por alegoria (representar o texto escrito ou as ideias contidas nele numa visão espiritual), percebemos que a unidade que havia entre Rute, Noemi e Orfa pode ser entendida como a ligação que há entre essas três faces. A princípio, as três mulheres tinham um elo, as três queriam permanecer juntas, as três queriam vencer as dificuldades juntas e serem felizes juntas. Mas cada uma tomou uma direção, e é aqui que fica mais forte essa impressão de seguimentos diferentes pelos quais a mesma Igreja que existe em nome do Senhor Jesus tem se dirigido.

Orfa, a que queria ser feliz com Noemi e Rute mas seguiu pelo seu próprio caminho e voltou para seu povo e para o seu deus (Rute 1.15), representa aquela parcela da Igreja que passou a frequentar um templo mas nunca deixou de frequentar o mundo.

É a parcela que deseja adaptar o Evangelho à suas intenções, que não busca a presença de Deus pelas necessárias mudanças que Ele quer promover em nossos corações, mas pelo conforto e satisfação que Ele supostamente deveria nos dar.

Dessa parcela fazem parte, por exemplo, aquelas pessoas que, embora frequentem uma Igreja, continuam se prostituindo com outras pessoas e com seus vícios, não porque não tenham se libertado, mas porque não querem ser libertas. Também os homossexuais que querem salvação mas não querem ser transformados por Deus. Como exemplos mais evidentes, podemos citar ainda, artistas que se associam à Igreja mas não deixam de fazer revistas e filmes pornográficos, continuam participando dos carnavais (oficiais e fora de época), e embora frequentem uma associação religiosa, vivem desviados dos seus princípios. Seguem o seu próprio povo e os seus próprios deuses. Pensam que todas as religiões levam a Deus e acreditam que Deus Se agrada de vê-los vivendo do jeito que eles pensam ser certo.

No conceito dos cristãos dessa parcela da Igreja, o nosso entendimento de Deus no Evangelho não vem do pensamento de nossas mentes ou da revelação que obtemos estudando a Bíblia, mas vem do nosso sentimento interior. Aqui, a teologia passa a ser mais subjetiva. Não é o que a Bíblia diz que está correto, mas é o que nós sentimos que é a verdade.

Todas as igrejas sofrem com isso hoje. No passado, pensadores e filósofos procuravam minar a verdade da Bíblia, mas hoje, essa parcela da Igreja tem contribuído grandemente para que isso não seja mais necessário, pois no seu conceito – e este amplamente disseminado principalmente pelos veículos de comunicação – se o indivíduo não sentir que certa coisa não seja verdade para ele, então não é, e pronto. A Bíblia perde a razão aqui.

Esse individualismo religioso, essa religião interior, casa perfeitamente com a direção do filósofo Ralf Waldo Emerson (1803-1882), que dita: “Obedeça a você mesmo!”. É isso que essa parcela da Igreja moderna, contemporânea, faz. Nessa visão, o que o homem sente em seu coração é o que ele faz, independente do que a Bíblia preceitua ou não.

Para os “Orfas” do nosso tempo – a parte da Igreja que não guarda nenhum temor acerca da vontade e do juízo divino –, não valem expressões do tipo “a Bíblia diz”, “assim diz o Senhor”, mas prevalecem os novos parâmetros do “eu penso”, “eu sinto”, “eu creio”.

Esse é um tipo de cristão com o qual a Igreja deve lidar hoje: que não pensa em Deus num primeiro momento, embora use o Seu nome e o dialeto “evangeliquês” latentemente (“Misericórdia!”, “Tá amarrado!”, “O sangue de Jesus tem poder!”). É a Igreja que confia muito na sua própria capacidade e na capacidade dos outros. (Você já percebeu como as pregações têm utilizado mais conselhos da psicologia do que da própria Bíblia?) É a parcela da Igreja que faz o que quer, faz o que sente, e vive como sente que deve viver.

Noemi tem características na sua personalidade que identificam a segunda face da Igreja: aquela que está em Deus, quer seguir o Evangelho pleno, mas é dada aos movimentos e se deixa conduzir cegamente por ventos de doutrina. Os textos de Rute 1.1, 2, 6 e 7 apontam para isso. Quando houve fome na terra, Noemi, juntamente com seu esposo e filhos foi para outra terra. Deixou Belém (hb. Casa do Pão) e foi para Moabe em busca de melhores condições de vida. “Quando Noemi soube em Moabe que o Senhor viera em auxílio do seu povo, dando-lhe alimento, decidiu voltar com suas duas noras para a sua terra” (Rute 1.6). Só que a essa altura, seu esposo já havia falecido na terra de Moabe, e seus dois filhos também (Rute 1.4).

A tendência de quem vive mudando de Igreja para Igreja, em busca de conforto espiritual e de “poder de Deus”, é mesmo morrer espiritualmente ou, no mínimo, adoecer em sua alma, dar lugar à formação de muitas feridas que não são tratadas com o tempo. Os muitos movimentos trazem muitas contradições e provocam confusão nas mentes e nos espíritos das pessoas.

Embora Noemi tenha sobrevivido, sua alma era doente. Ela não conseguia viver a vida de Deus para ela. E isso não se percebe não somente neste ponto da história, depois do falecimento dos seus entes queridos, mas desde no início, quando Noemi escolheu os nomes a serem colocados nos seus filhos.

Os judeus tinham o hábito de colocar os nomes dos filhos de acordo com o momento em que estavam vivendo. Malom significa “fraqueza”; Quiliom significa “enfermidade, definhamento”. Esses nomes apontam para as fraquezas e angústias de Noemi, e isso caracteriza perfeitamente essa face da Igreja. O estado de um povo que vive de emocionalismos e eventos, que se alegra com os movimentos do homem nas reuniões do templo, mas que em si mesmo não tem estrutura firme, não tem resistência diante das adversidades da vida, entra facilmente em depressão e custa sair de lá.

O próprio nome de Noemi, que significa “doçura, agradável”, foi rejeitado por sua dona no momento da sua aflição, e Noemi sugeriu a todos chamá-la “Mara”, isto é, “amarga, amargurada” (Rute 1.8-9, 19-21). Prova da instabilidade de quem costuma murmurar, ser infiel, cair em pecado, voltar-se contra Deus diante das adversidades, embora nos festas aprenda que isso é errado.

É a parte da Igreja que construiu sua casa sobre a areia (Mateus 7.26-27): Não está no mundo mas ora está alegre, ora está amargurada dentro da Igreja. Não se trata aqui das angústias e adversidades a que todo cristão está sujeito na sua caminhada com Deus, mas da amargura ocasionada pela falta de estrutura para suportar as pressões de uma vida santa. Sua força é pequena no dia da angústia (Provérbios 24.10) e suas obras, embora existam de fato, são feitas de materiais frágeis, como palha e madeira. (1Coríntios 3.12-14)

Essa fragilidade espiritual decorre da falta de leitura e reflexão bíblica assídua; da escassez do ato de jejuar com propósitos voltados para a libertação e transformação da alma; da falta de orações sinceras e abertas ao agir de Deus; da fé direcionada à pessoa dos líderes e não unicamente à pessoa de Cristo; da crendice nas pregações voltadas às fábulas, às falsas doutrinas, ao Evangelho da superficialidade, que não confronta nossas vidas com as verdades contidas na Bíblia. E decorre principalmente da falta de experiência pessoal com Deus.

Rute, por sua vez, representa a parte da Igreja que é santa, determinada, sabe o que quer e luta por isso, contrariando opiniões e seguindo para o alvo, sem se desviar nem para a direita, nem para a esquerda (Filipenses 3.13-14; Deuteronômios 17.11; Josué 1.7; 23.6; Provérbios 4.23-27).

Essa é a parcela de cristãos que procura crescer na graça e no conhecimento da Verdade, para manter-se firme diante das investidas de satanás (2Pedro 3.18; Efésios 6.11-17), as quais muitas vezes vêm revestidas de suaves doutrinas, de falsos ensinamentos e falsos profetas, os quais realizam tão “grandes sinais e maravilhas para, se possível, enganar até os eleitos.” (Mateus 24.24; Marcos 13.22)

São os cristãos que constroem suas casas sobre a Rocha. “Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela não caiu, porque tinha seus alicerces na rocha.” (Mateus 7.24-25).

Esse tipo de cristão sofre as agruras da vida mas não foge, enfrenta tudo confiando no Senhor, não deixa o lugar onde Deus o colocou, e ali mesmo floresce e frutifica a seu tempo. Seja qual for a circunstância, escolhe sempre permanecer com Deus, assim como Rute escolheu ser do Deus de Noemi (Rute 1.16). E usa da sua capacidade espiritual para suportar os mais fracos na fé, auxiliá-los, influenciá-los, como Rute permaneceu do lado de Noemi, a parcela mais frágil da Igreja.

Enquanto servem ao Senhor e não trabalham no Reino em busca dos seus próprios interesses mas pelos interesses de Jesus, esses santos são servidos por anjos, têm suas necessidades supridas pelo Senhor, tal qual chegaram as provisões de Deus para Rute quando na lavoura de Boaz (Rute 2.9). É a parte da Igreja que não se exalta, porque reconhece quem é e sabe de onde veio (Rute 2.10). E por isso é a parte da Igreja que renuncia tudo por amor a Jesus (Rute 2.11) e nele somente busca refúgio (Rute 2.12).

Rute é a parte da Igreja que constrói suas obras sobre este alicerce firme que é o Senhor Jesus (1Coríntios 3.11), e o faz usando os melhores materiais, pois “se alguém constrói sobre esse alicerce usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, sua obra será mostrada, porque o Dia a trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra de cada um. Se o que alguém construiu permanecer, esse receberá recompensa. Se o que alguém construiu se queimar, esse sofrerá prejuízo; contudo, será salvo como alguém que escapa através do fogo.” (1Coríntios 3.12-14)

Por isso a história não termina por aqui. A alegoria ainda nos permite concluir que o desfecho da história de Orfa, Noemi e Rute representa também o desfecho da história da Igreja. Rute, a parte fiel e forte da Igreja do Senhor, casou-se com Boaz, o parente resgatador (Rute 4.13). O resgatador era o responsável pela proteção dos interesses dos membros necessitados de toda a família do falecido, garantindo os direitos de subsistência, descendência e propriedade destes (Deuteronômios 25.5-6; Levíticos 25..25-28, 47-49; Números 35.19-21).

Jesus é o nosso Boaz. Ele é o nosso Resgatador. E por Rute se casar com Boaz, Noemi também recebe dos privilégios deste casamento. Embora suas obras sejam consumidas pelo fogo, por causa da sua evidente instabilidade no Evangelho, será salva pelo cumprimento da promessa do Senhor Jesus de buscar sua noiva.

E Orfa? Bem,  Orfa não conta. Ela não quis Jesus, quis apenas usar o nome dEle. Quis apenas ter um status, fazer parte de um grupo social. Não quis mudança na sua alma. Não quis abandonar o pecado nem os seus deuses. Seguiu seu caminho do jeito que quis, e errou feio na escolha do seu destino (Mateus 7.21-23; Apocalipse 22.12), pois o Senhor não vai conosco aonde nós queremos. Se Lhe permitirmos, Ele nos leva aonde Ele quer. E Seu querer é sempre o melhor e sempre tem a ver com a nossa felicidade e salvação eterna.

Por todas essas coisas, é que concluímos sem medo que Rute é a parcela da Igreja a que nós também devemos pertencer.

Embora todos os crentes “Orfas”, “Noemis” e “Rutes” de hoje queiram Deus, nem todos estão buscando o Senhor como deveriam. A face de Orfa está desviada, olhando para o mundo, flertando com ele. A face de Noemi está olhando para seu próprio umbigo, preocupada apenas com seus sucessos e com suas dores. A face de Rute, porém, está olhando para Deus, buscando as coisas do alto, esperando e se preparando para a volta de Cristo, o Rei que Se manifestará e também nos manifestará em grande glória com Ele (Colossenses 3.1-4).