segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Mais Jesus do que José

A Bíblia em um ano:
Gênesis 3-5

By Elaine Cândida, com imagens do Google.


“Preferindo ser maltratado com o povo de Deus a desfrutar os prazeres do pecado durante algum tempo. Por amor de Cristo, considerou sua desonra uma riqueza maior do que os tesouros do Egito, porque contemplava a sua recompensa.”
Hebreus 11.25-26

Meu pai* foi um homem extraordinário!

Ele não tinha muito dinheiro. Não vivia numa mansão. Não era um empresário. Não era um funcionário público de alto escalão. Ele não tinha nem mesmo um carro próprio, e morava numa casa humilde, construída com o sofrimento e a dedicação daquele velho mestre de obras, num bairro da periferia de Porto Velho (RO). Seu único veículo particular era uma bicicleta. Ele não tinha condições financeiras favoráveis nem mesmo para vir à Brasília nos visitar, nas férias de fim de ano. Não passava necessidades das coisas, mas também não as tinha com esbanjamento. E mesmo assim, posso dizer com todas as letras que ele era um homem extraordinário!

Os poucos contatos que tive com meu pai nessas últimas duas décadas, deixaram marcas e impressões que eu levarei para o resto da minha vida. Eu vi um homem que foi traído e desprezado pela sua esposa (minha mãe), que separou-se do ministério num momento de grande decepção com a vida, que precisou afastar-se dos filhos para reconstruir sua história e fazer uma nova família, mas que não se deixou vencer pelas adversidades, confiou em Deus, arregaçou suas mangas, deu a volta por cima e passou por todas as dificuldades que o destino lhe reservou, literalmente sem murmurações nem contenda. Essa foi a informação que recebi da minha madrasta (casada com ele nos últimos dez anos da sua vida, antes que um câncer lhe acometesse e encerrasse sua permanência neste mundo). Foi a mesma informação que recebi dos seus vizinhos, dos irmãos da Igreja que ele pastoreava, dos meus irmãos que já moraram com ele por alguns anos lá em Rondônia e, recentemente, até da minha mãe.

E foi também o que eu vi com meus próprios olhos: uma esperança genuína, que amava, esperava e adorava ao Senhor em servidão e sentimentos, mesmo enquanto o câncer de espécie rara devorava lenta e dolorosamente sua perna, migrava suas malditas sementes para sua corrente sanguínea e lhe fazia definhar cada dia mais, durante o período de um ano, até que lhe tomasse completamente o vigor.

“Quem vinha lhe consolar, saía de sua casa consolado”. Essa foi a frase que o amigo dele me contou, depois da sua morte. “Quem tem o Pastor José Mendes como vizinho, tem uma bênção de Deus morando ao lado da sua casa.” Frases desse tipo eram as que eu escutava dos seus vizinhos. E essas coisas me alegravam e enchia de orgulho.

Ele não podia dar um jantar para a sua vizinhança. Não podia fazer benfeitorias na rua de terra vermelha nem criou uma praça comunitária com seu nome no lugar daquele grande matagal em frente à sua casa, onde os traficantes e usuários se perdiam cada vez mais. Mas ele tinha o amor do Senhor no seu coração e fazia o bem a todos, sem considerar as ofensas que já havia recebido de alguém nem o quanto essa alguém era mal visto pelos outros.

Os dias em que passei na casa do meu pai (há 15 anos), eu convivi com alguém aberto ao diálogo, carinhoso, preocupado com a salvação das pessoas, otimista, humilde, que sempre tinha o que partilhar e que emprestava sem requerer de volta. E o mais incrível: eu vi alguém que teve muitos e muitos sonhos frustrados na vida e mesmo assim manteve-se completamente apaixonado e ansioso por Jesus.

Como qualquer ser humano, ele tinha suas falhas, mas suas qualidades eram tão evidentes e tão respaldadas pela Bíblia, que se sobrepunham às suas imperfeições, de modo que nós sempre víamos mais Jesus do que José. E esse testemunho do meu pai valeu para mim mais do que qualquer sermão que já escutei até hoje.

Escrever sobre ele me traz lembranças que eu gostaria que tivessem se estendido até os dias de hoje. Me alegra e motiva a prosseguir pelo caminho que ele trilhou e que tanto desejou que eu caminhasse também. Morreu sabendo que, finalmente, eu aceitei seguir por esse caminho. E morreu com a certeza de dever cumprido.

Minha oração agora é conseguir ser como ele, que considerava que “os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada” (Romanos 8.18), e por isso terminou seus dias na certeza que “de fato, a piedade com contentamento é grande fonte de lucro, pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar”. E tendo o que comer e com que se vestir, esteve com isso satisfeito (1Timóteo 6-10), pois sabia que tinha um tesouro muito mais excelente lhe esperando na eternidade.

Eu não me recordo dos grandes nomes do prêmio Nobel, nem dos ganhadores do Oscar. Até mesmo de muitos dos presidentes da minha nação eu desconheço os nomes. Mas tenho sempre viva a lembrança das pessoas pequenas, simples, humildes como meu pai, que participaram no meu dia-a-dia, ajudaram a encaminhar meus passos para o Céu com seus exemplos de piedade, e me ensinaram como ter uma vida santa com Jesus.