quinta-feira, 26 de julho de 2012

Ouvindo Deus

A Bíblia em um ano:
Cântico dos Cânticos 1-5

“... ouvi, e a vossa alma viverá...”

Isaías 55.3


Imagem: Entrelinhas do Will


Por Moacir Willmondes 
Disponível em: Entrelinhas do Will


"Para os peixinhos do aquário, quem troca a água é Deus."
(Mário Quintana)

Houve um tempo que Deus falava aos homens com trovões, dilúvios e pragas. Ainda há quem acredite que ele continue falando por meio de catástrofes e fúrias da natureza. Não discuto que sim, nem que não. Também houve um tempo em que a voz dele só soava em hebraico, depois aramaico e por fim em latim, e só alguns poucos podiam ouvi-lo.

Mas desconfio muito daqueles que só ouvem a voz de Deus nas penitências religiosas. Também não creio naqueles que engarrafaram a voz dele em rituais e discursos teológicos.

Prefiro ouvi-lo sussurrando no meu ouvido quando abro a janela do carro numa manhã de sol e com saúde sinto as mãos dele afagarem meus cabelos, meu rosto e tocar com delicadeza meu coração numa reverência silenciosa e delicada.

Gosto de ouvir Deus na leveza do ar que entre e sai dos meus pulmões, mesmo sem perceber a repetição desse gesto infinitas vezes num dia. Ouço quando ele me faz perceber os erros sem apontar, simplesmente permitindo provar o amargo de um fruto que não deveria ter sido semeado.

Ouço o som da voz dele em todas as tonalidades quando, deitado em meu quarto, ponho a tocar as Quatro Estações, do Vivaldi. É quando ora ele fala à minha imaginação, ora esvazia minhas angústias e me acalma.

Ouvir Deus é ter sensibilidade para aceitar seus propósitos revelados no vento, sem saber de onde vem e nem para onde vai, mas que revela verdades à alma. É abrir as janelas do coração para que a voz dele entre derrubando muralhas, construindo castelos, colorindo sonhos...

Há quem precise de anjos para ouvir Deus, mas há os que sabem ouvi-lo nas pequenas coisas. Lembram de Gideão (Juízes 6)? A pessoa menos importante em sua casa e sua família a mais pobre da tribo. Mas quando um anjo lhe apareceu dizendo que ele libertaria Israel, preferiu ouvir a voz de Deus com um gesto singelo, deixou um pedaço de lã no sereno e no dia seguinte viu que estava seca do orvalho da madrugada e o chão em volta molhado.

Alguns se julgam firmes por seguirem fielmente os dogmas de uma religião. Tcs, tcs, tcs... Não há vantagem em ser firme. Firmes são os tristes e monótonos postes nas ruas, firmes são os troncos das lamentáveis árvores que tiveram sua copa cortada, firmes são as âncoras que impedem os navios de se moverem ao sabor das ondas.

Vantagem é ser leve, como os pássaros que ensaiam notas musicais no canto e no pouso sob os fios, rindo da firmeza dos postes. Belo é ter a liberdade dos girassóis floridos e perfilados num campo, louvando a Deus e seguindo a voz dele nos movimentos do Sol. Infinitamente mais encantadora é a liberdade dos navios desancorados ouvirem Deus, atravessando continentes, fazendo amor com seus cascos penetrando os mares e sendo lambidos pelas ondas...

Gentilmente cedido por Moacir Willmondes.