domingo, 8 de julho de 2012

(Re)Pensando sobre a fé...


A Bíblia em um ano:
Salmos 137-139


“Mas o justo pela sua fé viverá...”
Habacuque 2.4

Dizem que a fé sorri das circunstâncias...

Honestamente, ou eu não sei o que é e também não tenho fé, ou minha fé não foi avisada sobre isso, ou ainda, minha fé pode estar com defeito de fabricação. Porque diante das circunstâncias adversas da vida, não vejo ninguém se esgotando em sorrisos, mas se derretendo em dores.

A alma pode permanecer em paz (e Deus realmente é o autor dessa sublime façanha), mas a fé geme, chora, se humilha, implora. Extravasa-se em gritos da alma, desespera-se em dores do parto que gerará nova esperança.

Creio que quem inventou esse clichê não lembrou-se (ou não sabia) que a fé olha para o que não se vê e espera o que se não conhece, como se já existissem de fato, e que para chegarmos à essa dimensão, um limite longínquo tem de ser transposto: aquele que tira tudo do nosso cuidado e transfere para as mãos de um Deus que nós também não vemos com nossos olhos físicos.

Como é que alguém pode sorrir disso?

Ninguém que aprendeu a confiar em Deus o fez sorrindo para as adversidades da vida. Ao contrário. Quando a dor tornou-se insuportável, quando a perda ultrapassou a linha do irreparável, então foi que alguém aprendeu a concentrar sua fé em Deus e entregou-Lhe a cadeira de comando.

A fé oscila entre maior ou menor grau, entre momentos de medo, de dor, de frustrações, e momentos de gozo, satisfação e paz, e nem por isso deixa de ser fé. Jesus mesmo disse do Seu discípulo: “Homem de pequena fé...” (Mateus 14.31), e de uma mulher desconhecida e excluída afirmou: “Grande é a sua fé, mulher! Seja conforme você deseja.” (Mateus 15.28)

A fé é o elo que conduz o natural ao sobrenatural, o visível ao invisível, o profano ao santo, e o faz por meio de perdas, de renúncias, de contrição, de sacrifícios. Basta lermos Hebreus 11, para verificarmos aonde a fé é capaz de nos levar, e como faz isso:

“Que mais direi? Não tenho tempo para falar de Gideão, Baraque, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e os profetas, os quais pela fé conquistaram reinos, praticaram a justiça, alcançaram o cumprimento de promessas, fecharam a boca de leões, apagaram o poder do fogo e escaparam do fio da espada; da fraqueza tiraram força, tornaram-se poderosos na batalha e puseram em fuga exércitos estrangeiros. Houve mulheres que, pela ressurreição, tiveram de volta os seus mortos. Uns foram torturados e recusaram ser libertados, para poderem alcançar uma ressurreição superior; outros enfrentaram zombaria e açoites; outros ainda foram acorrentados e colocados na prisão, apedrejados, serrados ao meio, postos à prova, mortos ao fio da espada. Andaram errantes, vestidos de pele de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos e maltratados. O mundo não era digno deles. Vagaram pelos desertos e montes, pelas cavernas e grutas. Todos estes receberam bom testemunho por meio da fé; no entanto, nenhum deles recebeu o que havia sido prometido. Deus havia planejado algo melhor para nós...” (Hebreus 11.32-40)

Desculpe-me, senhor pensador, mas a fé não ri diante de circunstâncias assim; ela chora diante delas e busca desesperadamente a face de Deus! Essa fé que sorri das circunstâncias é emotiva, não racional (Romanos 12.1). É arrogante, não humilde, e transforma Deus num criado a nosso dispor. É uma fé falsa, fingida, que confere ao homem uma força que nunca lhe foi dada, intenta elevá-lo à uma posição inatingível quando, na verdade, os verdadeiros vencedores em Cristo venceram suas batalhas de joelhos, pranteando e gemendo diante dos pés do seu Senhor.

A fé nos motiva a olhares marejados para além das circunstâncias, buscando enxergar a mão de Deus. A fé abre a porta do nosso ser enfraquecido para que o Todo Poderoso manifeste o Seu glorioso poder. A fé não ri das circunstâncias. Ela lamenta e procura uma saída. Procura um socorro. E encontra-o no Senhor.

E aguarda ansiosa pelo fim da sexta-feira sangrenta, pelo transpor do sábado de silêncio, e pela chegada do domingo da ressurreição. Move-se, porém, a fé, para a direção onde essa ansiedade é controlada, a dor é superada, as forças são restauradas. E arrasta-nos até lá pela corrente das lágrimas, da entrega, do esvaziamento, da contrição.

Se o amor, que é o mais forte e sublime de todos os sentimentos, “tudo sofre” (1Coríntios 13.7), como poderia a fé sorrir das circunstâncias?

Quem sorri das circunstâncias, na verdade, somos nós mesmos, depois de tudo, quando o mar bravio se acalma diante da voz de um humilde Galileu, ou quando o morto retorna à vida, através do Seu chamado. Até lá, muitas lágrimas rolarão, muitas dúvidas chegarão, muitas dores surgirão, e essas coisas causarão revisões de vida.

A fé que nos levará além de tudo, porém, permanecerá no seu devido lugar, às vezes maior e às vezes menor, mas sempre como uma causadora de confrontos e uma solucionadora de conflitos.