domingo, 26 de agosto de 2012

A outra face


A Bíblia em um ano:
Jeremias 24-27


“Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem.”
Romanos 12.21


Imagem: Google.


"A falta de perdão nos mata aos poucos, nos prende, nos escraviza.
Perdoar é libertar um escravo, e depois descobrir que esse escravo era você mesmo." 
(Autor desconhecido)


Eu não desejo isso para ninguém...

Essa sensação constante de ser desprezado, rejeitado, ignorado. Evitado até mesmo pelas pessoas que mais amamos.

Essa dor de ser usado e depois esquecido, indicado e depois isolado, alcançado e depois desligado... Eu não desejo isso para ninguém!

Essa visão de um branco sem fim por todos os lados. Não enxergar e não sentir o chão, não enxergar um palmo à frente do nariz, não enxergar uma parede para tatearmos até encontrarmos uma porta (ou um buraco). Nada! Apenas um imenso salão branco sem portas nem janelas, sem móveis e sem luminárias, sem tapetes e sem chão. Unicamente um vão. Um vão branco e intenso, sem começo e sem fim. Sem cor alternativa, sem nenhuma perspectiva, sem nenhuma possibilidade.

Isso é viver pela fé – alguns cochicham. Sim, é! Mas também é sofrer e sentir dores que você não pediu para experimentar. E como são profundas essas dores! Eu não as desejo para ninguém.

Essa sensação de abandono, de repulsa, de insignificância foi a mesma que Jesus sentiu quando, no alto do madeiro, num esforço descomunal, juntou os resquícios do Seu vigor, estufou o peito e soprou o comovente brado: “Deus Meu, Deus Meu, por que Me abandonaste?” (Marcos 15.34)

Ele, é certo, não merecia sofrer nada daquilo. Nós merecemos. Mas pela graça, somos privados todos os dias daquele terrível castigo. Contudo, isso não impede Deus de permitir frustrações tão significantes acontecerem em nossas vidas e reproduzirem em nós um pouco daquela dor que Ele sentiu ao ser rejeitado pelos homens, abandonado pelos Seus discípulos e desamparado pelo Seu próprio Pai.

O brado de Jesus não foi apenas uma pergunta num momento de dor. Foi uma dor sendo expressa com palavras. Ele precisava saber o porquê de até o próprio Deus ter Lhe dado as costas. Ele precisava compreender como um Deus que é todo amor de repente ausentou-Se de diante do sofrimento do Seu Único Filho numa cruz, negando-Lhe Sua presença antes que tudo terminasse, já que desde o início tirá-Lo de lá não fazia parte dos Seus planos.

E nós também queremos entender o motivo de sermos submetidos a tantas dores e sofrimentos dos quais nos desviamos constantemente. Afinal, ninguém desejou amar e não ser correspondido. Ninguém pediu para nascer e viver uma vida de multiformes privações constantes. Ninguém sonhou em ver portas se fechando bem à frente do seu nariz, nem em ver os caminhos por onde trilham seus pés calejados novamente se esticando e se perdendo no horizonte a final de cada aclive. Ninguém!

Mas "somos entregues à morte todo o dia; somos reputados como ovelhas para o matadouro" (Romanos 8.36). Diariamente somos submetidos a isso: à solidão, à dor, ao cansaço, ao escárnio, à rejeição, à espera, à frustração.    Parte de um treinamento doloroso que nos prepara para (mais) um grande propósito divino    é o que a Bíblia diz (2Coríntios 4.16-18; Romanos 8.28). Contudo, confesso que eu não desejo essa pungência para ninguém, pois a dor que nosso coração sente quando passa por situações desse tipo é inexplicável. Ela existe e é muito forte. E ela é como um telhado esburacado, por onde gotejam os pingos impiedosos do temporal da baixa estima, que precipita-se sobre nós diretamente das densas nuvens negras do inferno. Ouça alguns deles:

Plic! (Ninguém consegue amar você!)
Plic, plic! (Você não consegue fazer ninguém feliz!)
Plic, plic... plic! (Você não nasceu para ser feliz!)
Plic... Plic, plic, plic, plic, pliiiiic! (Você jamais será feliz!)

Só mesmo o Senhor para nos ajudar a suportar momentos assim.

É por isso que, às vezes, eu queria que Deus Se materializasse e ficasse morando aqui comigo. Só então, eu teria um colo onde repousar minha cabeça cansada após um dia de trabalho e receberia um carinho sincero, de alguém que verdadeiramente se preocupa em saber como foi o meu dia e como eu me saí nele. Teria braços que me abraçariam sem pensar primeiramente em sexo e só depois em me aquecer e acolher. Teria alguém para me ligar durante o dia, me enviar flores, escrever um e-mail para mim. Teria alguém que realmente gosta de mim como sou e se preocupa comigo. Teria alguém que conversaria pessoalmente comigo, que compreenderia todas as minhas palavras sem me condenar. Teria alguém para me orientar, para me corrigir, para me auxiliar.

Ele já faz mais ou menos assim, mesmo sendo Espírito. Eu é que nem sempre consigo  compreender claramente Sua voz. Mas caso Deus fosse físico, eu não confundiria mais o Seu falar com as emoções e os impulsos em meio às confusões do meu coração. (Hoje eu compreendo o porquê de tanta gente se apertar e oprimir em busca de conseguir um lugar ao lado, bem ao ladinho de Jesus, quando Ele andou por aqui.)

Mas Deus não é físico. É Espírito (João 4.24). E, então, continuo prosseguindo a vida, agarrando-me ao braço do Senhor que tem me sustentado e livrado com grande glória nesse andar constante à margem de uma depressão, tentando ser sal e luz outro dia, ajudando a evitar que alguém sinta daquela dor que já arrancou muitos suspiros, ais e prantos da minha alma.

Escolho continuar servindo, perdoando e amando. Escolho continuar sendo humana e, mesmo sentindo a falta de outros humanos, permanecer disponível e dar-lhes minha companhia e o meu afeto. Escolho estar aqui quando eles precisarem de mim.

Não foi isso que o Divino Mestre ensinou, tanto antes como depois da Sua cruz? “Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra...” (Mateus 5.39).

Então, escolho entender que o outro também tem sentimentos, pois foi assim que primeiramente Jesus lidou comigo. Eu escolho jogar fora as batatas, como bem orientou aos alunos o professor do conto. Para ilustrar como é ruim guardar mágoas, alimentar frustrações, guardar resquícios do mal que sofremos, certo professor levou batatas para a sala de aula e mandou que seus alunos escrevessem nelas os nomes de pessoas que lhes desprezaram, ofenderam, rejeitaram. Os alunos deveriam guardar as batatas na mochila e levá-las por onde fossem.

Depois de algum tempo, as batatas começaram a apodrecer. O mau cheiro e o peso eram tão inconvenientes que os alunos começaram a reclamar e resolveram jogar fora as batatas podres com mochila e tudo. Certamente que jogar fora as batatas podres do nosso passado (mesmo o passado de cinco minutos atrás) é o que de mais correto devemos fazer, mas nem sempre fazemos, não é mesmo?

Quando damos importância aos problemas não resolvidos e às promessas não cumpridas; quando nos afogamos em lamentos porque pessoas renunciaram nossa amizade ou nosso amor, nosso trabalho ou nossos dons, nossas melhores intenções ou nossa fala, que fosse; quando resolvemos pagar com a mesma moeda, dar o troco a quem nos fez esperar demasiadamente ou não nos compreendeu; revidar quem nos esqueceu, nos excluiu ou nos ofendeu de alguma maneira, nós simplesmente estamos mantendo as batatas podres dentro dos nossos corações. E não somente isso: Também estamos guardando mais batatas dentro dele.

Por isso, como um ser humano qualquer, que sofre e chora, que busca em Deus vencer suas falhas e revoltas a cada dia, eu escolho não replicar ninguém, nem exigir que me amem ou queiram o meu bem. Escolho não fugir do meu direito de viver em Paz com Deus (e gostaria que você também não fugisse, por isso compartilho essa  minha patética porém contributiva experiência). À exemplo do Mestre Jesus, eu escolho simplesmente passar por cima do meu orgulho e escolho não contribuir para rejeição e desprezo de quem quer que seja. 

Pois, precisamente por eu já ter experimentado desse amargo fel, é que realmente eu não desejo isso para ninguém.