domingo, 19 de agosto de 2012

As dores do parto


A Bíblia em um ano:
Jeremias 3-5


“A mulher que está dando à luz sente dores, porque chegou a sua hora; mas, quando o bebê nasce, ela esquece a angústia, por causa da alegria de ter vindo ao mundo. Assim acontece com vocês: agora é hora de tristeza para vocês, mas Eu os verei outra vez, e vocês se alegrarão, e ninguém lhes tirará essa alegria."
João 16.21-22


Imagem: Google.

"Não passam as dores,
também não passam as alegrias.
Tudo o que nos fez feliz ou infeliz
serve pra montar
o quebra-cabeça da nossa vida."

(Martha Medeiros)

"Lamentar uma dor passada, 

no presente,
é criar outra dor 

e sofrer novamente."
(William Shakespeare)
Jesus estava conversando com Seus discípulos sobre a Sua partida em cruz e retorno em glória. Mas o trecho também nos consola sobre nossa caminhada em cruz e nossas pausas para descansarmos em gozo, quando o Senhor entrega em nossas mãos grandes realizações tão almejadas.

Minha mãe conta que quando estava num hospital público em Sobradinho (DF), prestes a dar à luz seu primeiro filho (eu), as enfermeiras brigavam com ela para que parasse de reclamar das dores. Ela alternava gemidos e gritos com dores que antecederam ao meu nascimento por cerca de três dias.

Na verdade, eu deveria ter nascido numa segunda-feira, mas nasci numa quinta, e através do método fórceps, que atualmente é proibido no Brasil, mas que em casos extremos e em última instância ainda é utilizado. (Sim, é verdade! Fosse hoje, esse sofrimento certamente seria evitado. Mas não podemos comparar os recursos tecnológicos e os direitos humanos de trinta e cinco anos atrás com os de hoje, não é mesmo?)

Por esses largos três dias, minha mãe sofreu muito, mas quem estava ao seu redor não compreendia e, por isso, julgava suas manifestações naturais de dor como exageros de mãe de primeira viagem. E isso faz-me lembrar: Quando Paulo estava na ilha de Malta, aconteceu algo parecido. Ele foi picado por uma serpente, e os habitantes da ilha disseram aos outros: “Certamente este homem é assassino, pois, tendo escapado do mar, a Justiça não lhe permite viver. Mas Paulo, sacudindo a cobra no fogo, não sofreu mal nenhum” (Atos 28.4-5). Quando Jesus fez lama com saliva e terra, e curou um cego de nascença no sábado, Ele também não ficou de fora dos comentários insensíveis de quem nada compreende. Os fariseus logo concluíram: “Esse homem não é de Deus, pois não guarda o sábado” (João 9.16).

Quem está de fora jamais compreende, e pensa realmente que estamos exagerando. São insensíveis ao nosso sofrimento. São alheios aos porquês do nosso anseio, não estão na nossa pele e ainda assim se acham no direito de tecerem comentários e julgamentos acerca de nós.  Contudo, embora essas citações bíblicas caibam dentro de um comentário sobre julgamentos precoces e indevidos, não é essa a questão que queremos tratar aqui. O tema realmente são as dores de parto.

Deus faz-nos promessas e nutre-as dia após dias, durante algum tempo, tempo este que pode estender-se por longos anos até. Mas quando estamos próximos de vê-las finalmente cumpridas, dores terríveis nos tomam. Lutas intensas nos chegam e tornam nossos dias carregados de angústias, de ansiedade, de introspecção. Às vezes é tão difícil passar horas olhando para o relógio esperando algo acontecer, e os céus permanecerem como uma grande redoma de bronze sobre nossas cabeças, sem nada a liberar que possa refrigerar o ardor em nossos corações.

Mas essas dores não precisam nos consumir. Elas não precisam nos sucumbir em tristezas. Muitas vezes até o fazem, mas porque nós permitimos. Nós lhes damos mais vazão do que merecem. Nós lhes damos atenção mais do que devemos dar ao Senhor que está no controle do universo, das portas dos céus e das nossas dores também.

Nossas dores são pontes suspensas e estreitas, que nos levam de um lugar de conforto a um lugar de glória do outro lado do rio caudaloso das nossas preocupações. Até lá, um trecho de dúvidas e questionamentos, de broncas com Deus e arrependimento, de espera e ansiedade, de paciência e confiança deve ser transposto, mantendo nossos olhos sempre firmes no Senhor.

Após a angústia das dores, a alegria de gerar um filho é inevitável. Há quem se desespere e pense mesmo que não conseguirá suportar. Mas Jesus assegura que o filho nascerá, e a tristeza se converterá em alegria. Portanto, estaremos vivos para nos alegrar quando virmos Jesus pessoalmente concretizando mais uma de Suas promessas. Ele virá outra vez (realizar-nos), e nós nos alegraremos, e ninguém nos tirará essa alegria! (João 16.22)

Às vezes, demoram alguns dias mais no calendário de Deus para que essa criança nasça. Mas nem que seja por um “fórceps celestial”, o Eterno conclui Sua grande obra nesse parto. Porque “nenhum dos Seus planos pode ser frustrado” (Jó 42.2).

Deixemos, pois, que julguem, que comentem, que pensem o que quiserem enquanto estamos esperando e gemendo pela divina providência. Falta pouco para estarmos sorrindo em nossos rostos e jubilando em nossas almas, embalando nos braços o orgulho e a satisfação de mais uma promessa cumprida, cuidadosamente envolta pelo manto do amor de Deus por nós.