segunda-feira, 6 de agosto de 2012

...Esse terrível velho hábito!


A Bíblia em um ano:
Isaías 27-31


Imagem: Google.


“Quem é cuidadoso no que fala, evita muito sofrimento.
Provérbios 21.23


Uma irmã da Igreja me pediu para confeccionar alguns bichinhos de emborrachado para a festa do departamento infantil. Ela combinou comigo de receber o material na sexta-feira à noite, ou no sábado, pela manhã. Porém, na quinta-feira à noite ligou-me cobrando os tais enfeites.

Eram cinco peças ao todo, e quatro delas estavam prontas, mas a parte mais difícil do material estava por ser confeccionada. Então, de quinta para sexta-feira da semana passada, eu não tive noite de sono. Tive algumas horas apenas. Uma hora e meia, para ser mais exata. Fui dormir às 5:30 da manhã de sexta e levantei às 7:00 para ir trabalhar, mas terminei o que eu havia prometido fazer. Nesse horário em que eu me deitei para descansar, habitualmente já estou em pé há muito, mas nesse dia, eventualmente, precisei inverter a situação.

Dia seguinte, ou melhor, horas seguintes, reunião pela manhã e à tarde no trabalho, com todo o pessoal que coordeno. Dia puxado, mas fazer esse tipo de travessura, de certa forma, me diverte. Quebra minha rotina. Muda meus hábitos sempre certinhos, sempre previstos, sempre agendados, sempre calculados e limitados às minhas condições.

Rotinas cansam, desgastam, enfadam. Quebrá-las com ferramentas (maneiras) certas é contagiante! Por isso, quebrar rotinas tem sido uma deliciosa novidade para mim. Por exemplo, há dez anos eu vivia num apertamento apartamento monocromático. Recentemente resolvi mudar um bocado de coisas por aqui (e vocês acompanharam parte dessas mudanças em mensagens dos dias 27 a 29/04 e 02/05). Não ficou nenhum palacete, mas ficou mais alegre e mais acolhedor. Fiz adesivos decorativos, estante de caixas de feira e quadros de retalhos, cabide de roupas virou suporte para xícaras, pintei quadros novos, troquei alguns móveis e objetos, reformei outros com técnicas de patchwork (coisas de mulherzinha), trouxe mais duas plantinhas para se juntarem às três que tenho na parede da minha sala e que já participaram de algumas mensagens que publiquei aqui... Enfim,  essa trabalheira que poderia durar uma ou duas semanas no máximo, já dura há quatro meses e não tem dia para acabar. Ainda falta mexer em algumas coisinhas por aqui, para terminar isso que, em vez de obrigação tornou-se uma terapia para mim. E assim já consegui “dar um up” nos ambientes monótonos em que eu estava há uma década e, de brinde, colaborar com o tratamento para o estresse que me acometeu nos últimos anos...

Rotinas nos fazem mal. Nos limitam, nos condicionam, e nos enquadram num molde que até as pessoas de fora se assustam quando nos vêem sair de dentro dele.

Comentei com uma colega de trabalho que eu havia dormido pouquíssimo naquela noite, e também expliquei o porquê. Com um comentário da colega, eu caí na besteira de concluir a conversa dizendo: “É mesmo! Me diverti um bocado até as 5:30 da manhã. Realmente, a noite foi muito boa...”

Pronto! Bastou isso. Aliás, bastaram as cinco últimas palavras. Outra colega entrou na sala exatamente quando eu pronunciava: “...a noite foi muito boa...”, e isso virou a fofoca da semana em toda a escola. Ninguém me pergunta e, se chego, mudam de assunto. Mas o que aguçou a curiosidade do povo e está movimentando a escola inteira é o motivo dos burburinhos de cada instante: “A Elaine tem namorado?”, “Ah, ela deve estar namorando, sim! Eu a ouvi dizendo que ‘a noite foi muito boa’...

Se eu fosse um mosquitinho, confesso que eu daria um jeito de entrar naqueles grupinhos de fofoca e gritar umas verdades, bem alto para todos, para ver se iam todos cuidar das próprias vidas. Mas como não sou – em vez disso,  sou uma serva de Deus tentando aprender com Jesus como ser melhor a cada dia – eu dou umas gargalhadas sozinha e aproveito para refletir sobre a polêmica. Fico pensando cá, com meus botões (e com minha Bíblia), no quanto as pessoas perdem em deixar de cuidar das suas vidas para cuidar das vidas dos outros.


Sei que aquelas abelhinhas estão alvoroçadas por lá porque a interpretação de um trecho isolado de uma conversa pareceu quebrar totalmente a rotina da minha vida – eu, que trabalho há 8 anos no mesmo local e quase todos sabem mais ou menos como tem sido a minha vida afetiva. (Eu teria muito a discorrer sobre isso também, isto é, sobre esse fato de isolar trechos de uma conversa ou de um versículo e criar uma polêmica, uma doutrina, uma religião inteira até, fundamentando-se unicamente nele. Mas é assunto para outra ocasião.)

O foco aqui é a ocupação com a vida dos outros, quando nem mesmo da nossa nós sabemos cuidar direito. Permita-me compartilhar dois exemplos bastante simples sobre como nós tornamos difícil nossa caminhada com a cruz quando deixamos de segurar direito a nossa, para também seguramos nas laterais das dos outros.

Tenho uma mãe que vive querendo mudar o mundo dos filhos (três marmanjos com mais de trinta anos de idade, cada um). E porque todos são independentes e seguem aquilo que lhes apraz em vez do que ela deseja, minha mãe vive em depressão, vive angustiada, lamentando da vida e da sorte, murmurando e sofrendo dores que não pertencem a ela.

Tenho também uma colega em especial – entre tantas – que deixou de ser crente porque começou a dar importância exagerada aos erros e imperfeições dos irmãos e do pastor. O que os outros faziam errado ou deixavam de fazer certo lhe preocupava tanto e causava tanto desgosto, a ponto dessa jovem se desequilibrar espiritualmente e se desviar da fé.

Lamentáveis, esses exemplos, não? Ambos (entre tantos que eu poderia citar) estão longe, bem longe da instrução de Jesus: “...tome sobre si a sua cruz...” (Mateus 16.24). Não a cruz do outro, não a vida do outro. Só uma cruz – a nossa! E uma cruz somente para nós já parece pesada demais, não é verdade?

Por isso mesmo é que quando damos tanta atenção às vidas dos outros, inevitavelmente deixamos de viver plenamente a nossa. Quando enfatizamos os erros dos outros mais do que os seus acertos, inevitavelmente perdemos a esperança e a motivação para prosseguirmos. E quando nos preocupamos demais com a vida sentimental dos nossos colegas de trabalho, inevitavelmente deixamos de dar ao nosso trabalho a devida atenção que ele merece. Pode ser que num desses momentos de “distração com a vida alheia”, coisas importantes deixem de ser realizadas.

Pena que esse costume de interessar-se pela vida dos outros seja a regra, não a exceção. É um hábito horrível e bastante antiético. É sempre uma rotina onde houver seres humanos reunidos. E precisamente por ser rotina, deve ser quebrada. Que tal mudar o velho hábito de debruçar-nos tanto sobre a sorte alheia e começarmos a viver a própria sorte? Tenho certeza que veremos Deus realizando grandes coisas em nossas vidas, quando nós começarmos a olhar mais para elas e menos para as dos outros.

E pra você que, por ventura, ficou curioso(a) para saber se eu tenho mesmo um namorado ou não, permanece a incógnita pois, honestamente, nem eu mesma sei...