segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Isto não é para mim!


A Bíblia em um ano:
Jeremias 6-8


By Elaine Cândida.


“Mas todos nós, com a cara descoberta, refletimos, como um espelho, a glória do Senhor..."
2Coríntios 3.18

Por Max Lucado


Culpe Copérnico.

Até que Copérnico aparecesse em 1543, nós, terráqueos, desfrutávamos do papel principal. Os pais podiam colocar o braço sobre os ombros de seus filhos, apontar para o céu à noite e proclamar: “O universo gira ao nosso redor”.

Ah, o eixo da roda planetária, o tronco do corpo celestial, o número 1.600 da Avenida Pensilvânia do cosmos. A descoberta de Ptolomeu no século II nos convenceu. Coloque uma tachinha no centro do mapa estrelar e você vai encontrar o planeta Terra. Bem no centro.

E, mais ainda, bem parado! Deixe os outros planetas vagarem pelos céus. Não nós. Não senhor! Nós permanecemos parados. Tão previsível como o Natal. Sem orbitar. Sem rodar. Alguns planetas insignificantes giram 180 graus de um dia para outro. Não o nosso. Tão imóvel como o Rochedo de Gibraltar. Vamos ouvir um forte aplauso para a Terra, a âncora do universo.

Mas então veio Nicolau. Nicolau Copérnico, com seus mapas, desenhos e nariz que se mete onde não foi chamado. De sotaque educado e fazendo perguntas. Oh, as perguntas que ele fazia.

“Hamm... alguém pode me dizer o que faz as estações do ano mudarem?”

“Por que algumas estrelas aparecem de dia e outras de noite?”

“Alguém sabe exatamente a que distância os navios podem navegar antes de caírem das beiradas da Terra?”

“Trivialidades!”, as pessoas desconversavam. “Quem tem tempo para esses problemas? Sorriam e acenem, todos vocês. A rainha tem assuntos mais urgentes para resolver.”

Mas Copérnico persistiu. Ele deu batidinhas nos nossos ombros encolhidos e limpou a garganta. “Perdoem minha proclamação, mas, observem o centro do sistema solar”, anunciou apontando um dedo solitário em direção ao sol.

As pessoas negaram os fatos por mais de meio século. Quando Galileu emitiu a mesma opinião, a realeza o trancafiou e a igreja o expulsou. Você teria pensado que ele chamou o rei de bastardo ou o papa de Batista.

As pessoas naquela época não aceitavam muito bem a perda de prestígio.

Nós ainda não aceitamos.

O que Copérnico fez pela Terra, Deus faz pelas nossas almas. Dando tapinhas nos ombros encolhidos da humanidade. Ele aponta para o Filho – o Seu Filho – e diz: “Observem o centro de tudo”.

“Que manifestou em Cristo, ressuscitando-O dos mortos e pondo-O à Sua direita nos céus, acima de todo principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” (Efésios 1.20-22).

Quando Deus olha para o centro do universo, Ele não vê você. Quando as mãos celestiais dirigem os holofotes em direção à estrela do espetáculo, eu não preciso de óculos de sol. Nenhuma luz recai sobre mim.

Órbitas inferiores, assim somos nós. Apreciados. Valorizados. Amados carinhosamente. Mas... centrais? Essenciais? Fundamentais? Na-na-ni-na-não. Desculpa. Contrariando o Ptolomeu que há dentro de nós, o mundo não gira em nosso redor. A prioridade de Deus não é o nosso conforto. Se for, algo está errado. Se somos o evento-chave, como explicaremos desafios como a morte, as doenças, as economias destruídas ou os terremotos barulhentos? Se Deus existe para nos agradar, então não deveríamos estar sempre felizes?

Será que uma mudança no estilo de Copérnico estaria certa? Talvez o nosso lugar não seja no centro do universo. Deus não existe para nos transformar em grande coisa. Nós existimos para que Ele seja grandioso. Isto não é para você. Não é para mim. É tudo para Ele.

A lua é o exemplo do nosso papel.

O que a lua faz? Ela não gera luz. Ao contrário da letra da canção, a lua não brilha. Separada do sol, a lua não é nada mais do que um corpo escuro, uma rocha toda furada. Mas, posicionada de forma adequada, a lua reflete o brilho. Deixe que ela faça o que foi destinada a fazer, e um amontoado de poeira se torna uma fonte de inspiração, poesia, romance. A lua reflete a luz maior.

E ela fica tão feliz de fazer isso! Você nunca escuta a lua reclamar. Ela nunca faz um grande caso de não ser um grande caso. Deixe os astronautas pisarem nela; ela nunca reclama. Mesmo se você exalta o sol e faz piadas sobre a lua, nunca se escuta a velha cara-de-queijo chiar. A lua está em paz em seu lugar. E por causa disso, uma luz suave toca a terra negra.

O que aconteceria se aceitássemos nosso lugar como refletores do Filho?

No entanto, uma mudança como essa só ocorre de modo obstinado. Vimos trilhando o nosso caminho e batendo nossos pés desde a infância. Não é verdade que todos nós nascemos como o disco rígido já programado para o egoísmo? Quero uma esposa que me faça feliz e companheiros que sempre peçam minha opinião. Quero um clima que seja agradável, um tráfego que me ajude e um governo que me beneficie. Isto tudo é para mim.

Nós nos identificamos com o anúncio que diz: “Para o homem que pensa que o mundo gira ao seu redor”. Uma famosa atriz justificou sua aparição em uma revista pornográfica, dizendo: “Eu queria me expressar”.

Autopromoção. Autopreservação. Egocentrismo. Isto tudo é para mim!

Todos nos disseram isso, não é verdade? E tomamos isso como verdade. Pensamos que a autocelebração nos tornaria felizes...

Mas que caos essa filosofia gera. Já imaginou se uma orquestra sinfônica seguisse esse pensamento? Você consegue imaginar uma orquestra que tocasse na base do “tudo é para mim”? Cada artista exigindo exprimir-se individualmente. As tubas tocando sem parar. Os percussionistas batucando para conseguir atenção. O violoncelista expulsando o flautista da cadeira que fica no centro do palco. O trompetista subindo no banco do maestro para tocar seu instrumento. As partituras desconsideradas. O maestro ignorado. O que você faria numa situação como essa, a não ser uma interminável baderna?

Harmonia? Dificilmente.

Alegria? Será que os músicos estão felizes de estar nesse grupo? Não mesmo. Quem gosta de contribuir para um som desafinado?

Você não. Nós não. Não fomos feitos para viver desse modo. Mas será que não somos culpados de fazer exatamente isso?

Não surpreende que nossos lares sejam tão barulhentos, nossos trabalhos tão estressantes, nosso governo tão traiçoeiro e a harmonia tão rara. Se você pensa que tudo é para você e eu penso que tudo é para mim, não existe esperança para uma melodia. Perseguimos tantos coelhos esqueléticos que perdemos o coelho carnudo. De fato: a vida centrada em Deus.

O que aconteceria se assumíssemos nossos lugares e desempenhássemos nossos papéis? Se tocássemos a música que o maestro nos dá para tocar? Se fizéssemos da música dele a nossa maior prioridade?

Veríamos uma mudança nas famílias? Certamente ouviríamos uma mudança. Menos “É isso o que eu quero!” e mais “O que você imagina que Deus quer?”.

E se um homem de negócios tomasse essa decisão? O objetivo de fazer dinheiro e projetar seu nome seria engavetado. Refletir Deus seria a prioridade.

E o seu corpo? O pensamento ptolomaico diz: “É meu; vou desfrutar dele”. O pensamento centrado em Deus reconhece: “É de Deus; tenho que respeitá-lo”.

Veríamos nosso sofrimento de forma diferente. “Minha dor prova a ausência de Deus” seria substituído por: “Minha dor expande o propósito de Deus”.

Trata-se de uma mudança ao estilo de Copérnico. Trata-se de uma mudança saudável. A vida faz sentido quando aceitamos o nosso lugar. O dom contentamento, o propósito dos problemas – tudo para Ele. A vida centrada em Deus funciona. E ela nos resgata de uma vida que não funciona.

Mas como fazemos essa mudança? Como podemos ser jogados para fora do egocentrismo? Frequentando um seminário? Pagando promessas? Lendo um livro de Max Lucado? Nada disso (embora o autor aprecie a última ideia). Mudemos o foco de nós mesmos para Deus, O observando, seguindo o conselho do apóstolo Paulo: “Mas todos nós, com cara descoberta, refletindo, como um espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (2Coríntios 3.18).

Olhar para Ele nos muda. Uma mudança não nos seria útil? Vamos experimentar. Quem sabe? Nós podemos simplesmente descobrir nosso lugar no universo.



(MAX LUCADO. Levando a vida para fora do egocentrismo. In Isto não é para mim. 3ª Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. Páginas 3-9.)