quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Mundos


A Bíblia em um ano:
Isaías 60-63

By Elaine Cândida.


“O Senhor, porém, me disse: ‘Não diga que é muito jovem. A todos a quem Eu o enviar, você irá e dirá tudo o que Eu lhe ordenar. Não tenha medo deles, pois Eu estou com você para protegê-lo,’ diz o Senhor. O Senhor estendeu a mão, tocou a minha boca e disse-me: ‘Agora ponho em sua boca as Minhas palavras. Veja! Eu hoje dou a você autoridade sobre nações e reinos, para arrancar, despedaçar, arruinar e destruir; para edificar e plantar."
Jeremias 1.7-10


A imagem acima é a foto da mais recente tela que pintei*. Ficou pronta há alguns dias, e ainda está aqui em casa, aguardando terminar a secagem para que seja entregue à pessoa que fez essa encomenda. Trata-se da releitura do quadro Janela Mágica, de Eliana Comin. (Eu chamaria de Porta Vivificadora.)

Sinceramente, eu não sei exatamente o que se passava na mente da autora quando compôs (ou reproduziu) essa imagem em tela. Mas nessa madrugada, uma mensagem importante me consolou, enquanto eu olhava para ela, durante um momento com Deus.

Depois de algum tempo de lutas, de provações, de privações, de desilusões com pessoas e com o mundo; depois de algum tempo caminhando em vales infindos, aprendendo a chorar e a se humilhar diante do Senhor; depois de algum tempo vivendo em desertos imensos aprendendo a depender unicamente do Eterno, nossos corações se tornam nosso mundinho pessoal, e nós nos fechamos para quase tudo lá fora. Temos medo de amar outra vez, de desabafar nossos sentimentos, de aprofundar nossas amizades. Deixamos de confiar em outras pessoas e até deixamos de alimentar nossos mais caros ideais. Tudo com medo de sofrermos outra vez.

Então, fazemos do nosso mundinho pessoal nosso lugar de recolhimento. Dentro das quatro paredes das nossas almas, nós inventamos nosso próprio sistema de vida e nos acomodamos dentro dele, certos que já o aparelhamos de tudo o que precisamos para sobrevivermos... sozinhos.

Nós colocamos dentro dele as flores do nosso prazer, nós enfeitamos nosso lugar secreto com nossos valores pessoais, nós perfumamos o ambiente com a nossa melhor inspiração, e até acrescentamos uma poltrona confortável – a poltrona da fuga – num canto especialmente reservado, onde podemos nos assentar e ler bons livros calmamente, por horas e horas, enquanto algum indivíduo inconveniente que cruzou nosso caminho e tentou fazer parte das nossas vidas, se canse do lado de fora e vá finalmente embora.

Nós criamos nosso mundo particular introspectivamente, e nós nos encerramos dentro dele, com a certeza que só assim teremos paz. Nós temos medo de nos abrir para a vida, e ver o seu sorriso alvo e espontâneo de repente se transformar numa gargalhada infernal. Temos medo de cegar nossos olhos com a luz do sol que brilha lá fora. Ou que os pingos da chuva danifiquem os esboços dos nossos sonhos. Então, nós simplesmente nos trancamos dentro de nós mesmos e não nos damos mais a chance de tentarmos ser felizes outra vez.

Contudo, as flores dos nossos jarros murcham, não é? Nossos arranjos se desgastam com o tempo, se sujam, ficam feios, necessitam serem trocados. Com o tempo, nosso trabalho de manutenção dos nossos sentimentos torna-se enfadonho, cansativo, rotineiro. Os dias passam, um a um, e nós não conseguimos ver nada à nossa frente, a não ser aquela mesma prática, o mesmo tédio, a mesma situação.   

Mas existe um mundo extraordinário lá fora. Existe vida rebentando em maravilhosa graça bem do outro lado da parede. O vento do amor e da bondade de Deus soprou forte e fez-nos o favor de descerrar a porta. Ela se abriu bem à nossa frente. Contudo, em vez de corrermos para fora e experimentarmos da vida nova que a misericórdia do Senhor nos propõe, nós nos recolhemos em nossa poltrona da fuga novamente e, de longe, olhamos – apenas olhamos – um pedacinho da paisagem incomparável lá fora. (Você está vendo alguém perto da porta na imagem?)

E cá estamos! Contemplamos. Suspiramos. Desejamos. Mas não ousamos. Essa alegria toda parece muito para nós. Ou parece imprópria para nós. Parece ruidosa demais para esses nossos pobres corações que arquejam tão frustrados, feridos e amedrontados, pedindo por constante repouso...

E assim, nós colocamos uma porção de empecilhos, como Jeremias fez quando Deus lhe chamou para uma nova direção de vida: “A palavra do Senhor veio a mim, dizendo: ‘Antes de formá-lo no ventre Eu o escolhi, antes de você nascer, Eu o separei e o designei profeta às nações.’ Mas eu disse: ‘Ah, Soberano Senhor! Eu não sei falar, pois ainda sou muito jovem’.” (Jeremias 1.4-6)

Talvez nossos argumentos tenham um pouco mais de colorido e, aos nossos olhos, pareçam bem mais convincentes. Mas, no fundo, todos provêm da mesma fonte: o nosso medo de tentar outra vez.

É preciso confiarmos na bondade do nosso Deus e compreendermos que a porta não foi aberta por acaso. Existe um mundo lá fora nos chamando para descobri-lo, apreciá-lo e fruí-lo. Existem propósitos novos a serem cumpridos quando formos para lá. E por mais que nosso mundinho intrapessoal pareça tranquilo e suficiente para nós, jamais poderá ser comparado ao universo que o Eterno tem oportunizado às nossas vidas.

Agora, é confiarmos na Sua fidelidade. E destemidamente passarmos pela porta.



(*) Para ver outros trabalhos meus, acesse meu site de pinturas em tela