terça-feira, 14 de agosto de 2012

O direito de chorar


A Bíblia em um ano:
Isaías 52-55

By Elaine Cândida.


“Elias teve medo [de Jezabel] e fugiu para salvar a vida. Em Berseba de Judá, ele deixou o seu servo e entrou no deserto, caminhando um dia. Chegou a um pé de giesta, sentou-se debaixo dele e orou, pedindo a morte. [...] Depois se deitou debaixo da árvore e dormiu. [...] Então, ele se levantou, comeu e bebeu. Fortalecido com aquela comida, viajou quarenta dias e quarenta noites, até chegar a Horebe, o monte de Deus. Ali entrou numa caverna e passou a noite."
1Reis 19.3-5,8-9


Aquele homem poderoso que havia enfrentado oitocentos e cinquenta profetas sozinho (“os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal e os quatrocentos profetas de Aserá”, que comiam à mesa de Jezabel – 1Reis 18.19), agora sente medo das ameaças de uma mulher.

Aquele profeta destemido, que apontou o dedo à cara da morte e fez ressuscitar o filho de uma pobre viúva (1Reis 17.17-24), agora teme pela própria vida e foge para preservá-la.

Aquele valente de Deus, que profetizou e multiplicou o azeite e a farinha da viúva (1Reis 17.7-16), agora vê sua esperança e suas forças minguando num processo rápido, como se escoando pelo ralo da exaustão, cujo tampão da fé foi retirado.

Aquele forte e ousado servo do Altíssimo, que ordenou e a chuva não caiu e, após três anos, orou novamente a chuva desceu do céu (1Reis 17.1, 18.1-2), diante do cansaço das suas batalhas e das frustrações em meio às suas guerras, agora ora pedindo a própria morte (1Reis 19.4-5).

Aquele grande guerreiro que se expunha com a intrepidez e a voracidade de um leão diante do poderoso rei da Assíria (1Reis 18.16-18), agora se esconde como um gatinho medroso dentro de uma caverna.

Curioso, não? Ver ícones como Elias tão frágeis e cheios de medos e limitações, de paixões e dúvidas, de aborrecimentos como nós... (Tiago 5.17).

Curioso ver que não estamos sozinhos nessa luta diária para vencermos a depressão, a solidão, o esgotamento. Quando olhamos para as nossas circunstâncias, naturalmente pensamos que somos sozinhos no mundo, que ninguém é mais infeliz que nós mesmos, que o problema de ninguém pode ser maior que o nosso...

Mas até o próprio Jesus experimentou um momento em que o temor (no Seu caso, da ira de Deus, não do poder do mal) angustiou tanto Seu coração, que Ele mesmo buscou do Pai a possibilidade de não enfrentar Seu calvário, embora tenha preferido cumprir Seu propósito e seguir à risca a vontade do Deus Pai, à Sua própria vontade (Lucas 22.42).

Se esses homens tão fortes e grandes em sua essência viveram momentos tão dignos de pena, por que será que nós pensamos que não temos o direito de nos angustiar, de sofrer, de desejar nunca ter existido diante de tantas coisas que afligem nossa existência? Por que será que achamos tão fácil acreditar em palavras que cantam para nós como verdades, tentando nos convencer que tristezas e perdas não são coisas de cristãos? O que será que nos faz pensar que nós, com esse nosso evangelhozinho materialista e nossa adoração superficial, somos mais fortes e valentes que homens como Elias e Jesus?

As experiências da vida nos provam o contrário. Elas nos provam que poucas flores há no caminho de quem se abraça com a cruz. E provam que essas flores são regadas com nossas lágrimas.

Mas o erro aqui, não está em molhar nosso travesseiro todas as noites, esperando que Deus tenha piedade e finalmente mova Sua mão em nosso favor. Não está em expormos para Deus todas as nossas frustrações e medos, todos os nossos dilemas e angústias, como se Ele jamais fosse nos ouvir. Na verdade, Ele é o único – em todo o universo – que consegue nos escutar e compreender, sem jamais fazer julgamentos, sem nem mesmo nos interromper.

O erro não está em suspirar todo o oxigênio num raio de quilômetros, tentando encontrar um pouco mais de força para suportar a dor que muitas vezes lateja dentro das nossas almas, cuja intensidade não pode ser medida nem explicada com palavras. O erro não está em desejar um abraço, um carinho, um olhar compreensivo, e ver, outra vez, o chão se perder debaixo dos nossos pés, quando novamente compreendemos que não há ninguém ao nosso redor que possa fazer isso por nós.

O erro está em permanecer nessas coisas como se elas fossem a única alternativa das nossas vidas. O erro está em não perceber que a bondade e a misericórdia do Bondoso Senhor vêm nos despertar todas as manhãs, e que são fontes das quais podemos beber a todo instante. O erro está em esquecer que o amor de Deus e a Sua presença podem nos dar toda condição de suportarmos a dor, a perda, a solidão, a fraqueza, o medo, a tristeza, a rejeição, e tudo mais o que tenha nos feito chorar.

Para uns Deus diz “sim”. Para outros, Deus diz “não”. Para outros, Deus diz “espere”. Para muitos, Deus não diz nada. (E o silêncio de Deus dói tanto, não é?) Porém, muitas vezes Deus está, de fato, nos dando respostas e direções. Talvez não em terremotos, em tempestades, em fogaréus, mas em brisas suaves (1Reis 19.11-13). Talvez não com grandes eventos, mas com pequenas gotas de orvalho, caindo suavemente das folhas sobre a terra numa madrugada fria.

E, nesse, caso, o erro não está em admitir fraquezas e expressar temores, tampouco em chorar, clamar e esperar quais meninos pela intervenção do Senhor ou pela Sua resposta. O erro está em deixar que as circunstâncias más das nossas vidas roubem nossa paz e nos façam esquecer que os exemplos deixados por Deus ao longo da Sua atuação na história do Seu povo (como no caso de Elias que, depois de tudo, ascendeu aos céus num redemoinho – 2Reis 2.1-14), a gloriosa ressurreição de Cristo dentre os mortos quando tudo parecia perdido, e o triunfo da Igreja sobre toda a opressão, perseguição e oposição que tem sofrido, são lembretes que nos remetem à certeza e à viva esperança que os braços de Deus estão debaixo de nós, nos sustentando e nos levando em segurança rumo àquele dia em que também participaremos da Sua vitória eterna.

Certamente por isso mesmo, na gramática celestial, o antônimo de medo não seja coragem, e sim a fé Naquele que é maior do que tudo o que nós ganhamos ou perdemos aqui.