quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Uma questão de tempo...


A Bíblia em um ano:
Isaías 32-36


By Elaine Cândida.


“Escute-Me, ó casa de Jacó, todos vocês que restam da nação de Israel, vocês, a quem tenho sustentado desde que foram concebidos, e que tenho carregado desde o seu nascimento. Mesmo na sua velhice, quando tiverem cabelos brancos, sou Eu Aquele, Aquele que os susterá. Eu os fiz e Eu os levarei; Eu os sustentarei e Eu os salvarei.
Isaías 46.3-4


Eu gostava de sentar-me com minha avó (in memoriam) e ouvi-la contar trechos da sua experiência de vida, os quais também me ensinavam a viver, enquanto entre um respirar já cansado e gestos alentados pelos anos, confeccionava mais uma peça de roupa, na velha máquina de costuras, num quartinho com porta e janela que davam para a rua. Praticamente toda a pequena Iaciara (GO) vestiu das roupas produzidas pela Dona Porcina por, pelo menos, cinco décadas.

Qualquer adolescente que deixasse a cidade grande para passar as férias no interior, ficaria a maior parte do tempo junto aos primos da mesma idade, com quem se aventuraria nos córregos próximos à cidade, nas festas da roça, em passeios noturnos à fonte luminosa da pracinha, em namoricos de férias no coreto do centro, e coisas desse tipo.

Eu não. Fazia essas coisas também, mas elas não eram tão importantes pra mim quanto passar as tardes limpando os retalhos do quarto de costuras da vovó, folheando revistas de moda e conversando com ela, ouvindo-a expor pela sua prática de vida ensinamentos que a teoria de bibliotecas inteiras jamais conseguiria me transmitir.

Porém, o mais importante de todos os seus ensinamentos não estava na sua experiência de vida, mas na sua própria vida. Era o fato de ela ser uma vovozinha e, até o fim dos seus dias, guardar a fé no Senhor, permanecer otimista e dependente de Deus e, assim, inevitavelmente ser uma bênção para quem precisasse dela, independente da sua idade ou limitações físicas.

Quantos de nós estão praticamente com a metade da idade que minha avó tinha quando faleceu (ela foi a óbito aos 78 anos), e já se vêem como velhos, cansados, inúteis, desgastados, sofridos demais para se arriscarem a serem felizes outra vez.

Quando somos submetidos ao sofrimento, às desilusões, às perdas logo cedo, nossa tendência é temer e desistir de nos entregar outra vez às possibilidades que Deus nos envia. Nossa tendência mais natural é nos recolher rapidamente na nossa solidão, no nosso desgosto, no nosso conformismo, enfim, naquele lugar escuro lá no fundo da caverna, onde amuados num canto, lambemos as feridas e gememos sozinhos, lamentando cada uma delas, enquanto o sol brilha outra vez lá fora e a vida nos chama para recomeçar.

Cremos mesmo – e agimos até – como se a fadiga dos anos e dos açoites fosse maior que o poder de Deus para nos restaurar os ânimos, refazer nossas perspectivas, reavivar nossa esperança e fortalecer-nos outra vez. E nos enclausuarmos no quarto escuro da nossa própria existência, e entregamos nossa mentalidade ao desespero interno. Enquanto isso, nossas almas clamam por (com)paixão, suspiram ofegantes em (re)pensarmos na possibilidade de voltarmos a ser úteis ou felizes outra vez.

Nós temos uma facilidade tão grande em limitarmos Deus e o Seu poder, não é mesmo?

Oh, que ledo engano! Pensamos que as rugas que nos pesam no rosto via de regra desfiguram o vigor das nossas almas. Insistimos em crer que a idade que envelhece nossos corpos mortais também o faz com nossos espíritos imortais. Pensamos que as pancadas que nos derrubam também nocautearam o Senhor Deus. Agimos como se o Criador dos céus, da terra e de todos esses seres extraordinários que neles há, não fosse capaz de reconstruir os jardins das nossas almas com muito mais beleza e vida que aquele que foi esmagado pelos pés traiçoeiros, ingratos e impiedosos de alguém que cruzou nosso caminho.

Contudo, a vida é assim mesmo, cheia de amores e dissabores, flores e horrores, momentos bons e ruins que nos moldam e conduzem ao lugar certo e da maneira certa. Se nós enfatizamos nossa permanência na queda, permaneceremos caídos e o máximo da nossa visão será o chão em que estamos prostrados. Mas se nos levantamos e sacudimos a poeira outra vez, uma estrada ampla é despontada por um lindo horizonte bem à nossa frente, a que chegaremos com nossos próximos passos e pela força do Senhor que nos põe de pé outra vez.

É como eu li em algum lugar essa semana, e fiz questão de guardar:

“A felicidade mantém você doce.
Dores mantêm você humano.
Quedas te mantêm humilde.
Provações te mantêm forte.
Mas, somente Deus te mantém prosseguindo.”
(Desconheço o autor.)

Vovó Porcina, embora nunca tenha se casado outra vez desde que ficou viúva aos 29 anos de idade, agarrou-se a Deus e enfrentou a vida como pôde para sustentar cada um dos seus nove filhos ainda vivos (dos onze que teve). Desses nove, ela ainda enterraria outros cinco antes de partir também. E mesmo sendo traída, desprezada e humilhada por dois dos que viveram até sua morte, aquela velha guerreira não se deixou vencer pelo cansaço, pela solidão, pela amargura. Era muito marcada pela vida – isso é certo – mas suas cicatrizes lhe serviam para agradecer a Deus pelas graças que lhe foram derramadas todos os dias em meio às agitações do mar, e lhe fizeram sobreviver a tantas tempestades.

E quem conversava com ela era consolado pela humildade de uma vida totalmente dependente de Deus.

Exemplos assim não passam por nós sem um grande propósito. Notícias de gente assim não chegam até nós sem um motivo especial. Deus quer que nos lembremos que nas nossas andanças sozinhos, muitas coisas, de fato, saíram erradas. Mas recomeçar com Ele é sempre uma certeza de grandes conquistas e realizações. Basta que nós deixemos aquele canto úmido ao fundo da caverna e sigamos em direção aos Seus braços. Basta nos darmos a chance de recomeçar, agora com Ele, mais uma vez.

E então, a felicidade será só uma questão de tempo.


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(Para te ajudar a crer que Deus faz mudanças extraordinárias naquilo que era impossível,  ouça paciente e atentamente ao testemunho da Pra. Tânia Tereza Carvalho, e veja que a idade ou as circunstâncias – nada! – pode impedir o agir de Deus em nós e por nós, se nós simplesmente nos rendermos à Ele.)