domingo, 23 de setembro de 2012

A oficina do diabo


A Bíblia em um ano:
Daniel 10-12



"O meu coração está profundamente abatido, e por isso eu penso em Deus. Assim como o mar agitado ruge, e assim como as águas das cachoeiras descem dos montes Hermom e Mizar e correm com violência até o rio Jordão, assim são as ondas de tristeza que o Senhor Deus mandou sobre mim. Que Ele me mostre durante o dia o Seu amor, e assim de noite eu cantarei uma canção, uma oração ao Deus que me dá vida."
Salmos 42.6-8


Imagem: Theologizando.
Talvez eu não generalize com a mesma ousadia de Einstein, quando eu tomo sua célebre frase emprestada e (re)afirmo que “tudo é relativo”. Mas admito que muitas verdades absolutas não são tão absolutas assim. Vazios, por exemplo, não estão tão vazios quanto parecem, principalmente no tocante à mente e à alma do homem.

O copo vazio está, na verdade, cheio de ar. O bolso vazio está cheio de expectativas. O prato vazio está cheio de visões. O vácuo, na verdade, está cheio de espaço desocupado esperando uma matéria que possa torná-lo tangível. Por um lado, o casamento realiza e esvazia a sacola de um sonho e, por outro, enche uma vida inteira de interrogações. A alma vazia está cheia de dores. A mente vazia, segundo um velho ditado popular, está cheia de ferramentas do diabo. É a sua oficina. Ele está lá dentro, trabalhando. Está tentando induzir alguém a fazer (mais) uma grande besteira.

Com efeito, muitas pessoas se envolvem exageradamente com o trabalho e com os estudos, quando os problemas – principalmente os sentimentais – eclodem.

Longe de querer agir como uma psicóloga – embora eu realmente acredite que nossos achismos nos tornam um pouquinho psicólogos informais – me arrisco a afirmar, por experiência própria, que as muitas ocupações exigem de nós uma concentração que substitui temporariamente as preocupações, a ansiedade e até mesmo a dor. E assim, podemos suportar mais um dia de aflições e de falta de perspectivas.

É como se nós chegássemos ao trabalho, colocássemos um macacão da responsabilidade e trancássemos nossas roupas das frustrações dentro do armário, até o momento de irmos embora e termos de vesti-las de novo.

Ao término do expediente, inevitavelmente devemos retomar nossas vestes de angústia e solidão, e retornar às nossas casas. Só que ali, não temos para onde correr. Qualquer outra peça dos guarda-roupas das nossas vidas fará parte desse nosso vestuário de tristezas. Resta, então, suportar até amanhã, quando voltaremos ao trabalho outra vez...

De fato, assentar-se num canto da vida, com as mãos sob o queixo, e gastar todo o oxigênio da terra em suspiros e ais não resolve nada, a não ser, acelerar a própria morte. Porém, não a morte física (porque as plantas continuam liberando oxigênio para o resto da humanidade - graças a Deus!), mas a sua própria morte interior. É que mentes vazias se ocupam da dor, do ódio, do desejo de vingança, e morrem aos poucos por dentro, com doses diárias do ópio da insatisfação pessoal intensa.

Muitas vezes, mentes vazias se enchem de ansiedade, sobem correndo o penhasco da impaciência e comumente se lançam no abismo da loucura. Outras vezes, elas simplesmente se arremetem contra a parede da solidão e se despedaçam em centenas de fragmentos sobre o chão da depressão. E ali permanecem sozinhas por dias, meses, anos até.

Quando nos calamos totalmente, o vazio que impera traz consigo um tédio singular. Quando estamos num lugar vazio, o ermo causa em nós um desconforto inexplicável. Nem Deus, quando viu a terra “sem forma e vazia” (Gênesis 1.2) deixou que ela permanecesse assim. Tratou logo de enchê-la de cores, seres, sons, movimento, vida!

Por outro lado, o exagero das muitas ocupações também não resolve os problemas. Ao contrário, acarreta mais um: além do vazio que continua existindo tão logo o expediente acabe, o cansaço complementa o rol de angústias do nosso ser, aumentando ainda mais nosso descontentamento.

Lembra de Deus, nos dando e exigindo que guardássemos os sábados (Êxodo 20.8-11)? “No sétimo dia Deus acabou de fazer todas as coisas e descansou de todo o trabalho que havia feito. Então abençoou o sétimo dia e o separou como um dia sagrado, pois nesse dia Ele acabou de fazer todas as coisas e descansou” (Gênesis 2.2-3). Não porque Ele tenha ficado exausto, pois “Ele não Se cansa, nem fica fatigado” (Isaías 40.29-31), mas Deus “cessou” (verbo “descansar”, no hebraico) de fazer a Sua obra no sábado, e deixou-nos o exemplo que parar e revigorar são sempre atitudes necessárias para gente cheia de limitações como nós.

O ponto central para uma vida de satisfação em Deus é sempre o equilíbrio. Mentes humanas não podem ficar vazias de ocupação e de boas ideias, e cheias de maquinações do mal. Mas também não podem ocupar-se tanto com coisas passageiras e esvaziar-se da própria vida e dos propósitos eternos.

Luciana Horta define o vazio da alma como um lugar mal assombrado, “que tanto nos faz repugná-lo e que por mais que a gente lute, um dia, em algum momento das nossas vidas, acabamos caindo nele”. Mas, se nós não podemos nos desviar dele, podemos, pelo menos, sairmos rapidamente de lá, não é?

É que o vazio da alma nos remete à solidão. O vazio da mente, à loucura. Mas a presença de Cristo é poderosa para preencher ambos e caminhar conosco pela certeza que não nos falta absolutamente nada.