sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Planos para dominar uma agência bancária


A Bíblia em um ano:
Ezequiel 34-36



Imagem: Google.

"Então, Jesus chamou as crianças para perto de Si e disse: ‘Deixem que as crianças venham a Mim e não proíbam que elas façam isso, pois o Reino de Deus é das pessoas que são como estas crianças. Eu afirmo a vocês que isto é verdade: quem não receber o Reino de Deus como uma criança nunca entrará nele’."
Lucas 18.16-17

Tudo começou na porta do banco. Aliás, isso acontece sempre. Eu, com essa minha cara de fugitiva internacional, faço o detector de metais da porta do banco disparar, mesmo quando eu não estou com nenhuma bolsa. Parece que minha imagem de terrorista na câmera da entrada já é suficiente para que o bendito dispositivo trave a porta e emita aquela mensagem irritante que testa ao extremo a paciência de qualquer cristão.

E lá fui eu. Depositei a bolsinha de moedas, as chaves e o celular “no compartimento ao lado”, e segui confiante pela porta giratória. Mas só tive o gostinho de girá-la até a metade, quando o vidro emperrou e eu ouvi aquela voz do além: “Por favor, deposite seus objetos metálicos no compartimento ao lado...

Sem graça com o rapazinho que torceu o nariz atrás de mim, voltei ao “compartimento ao lado” já revirando a bolsa, e encontrei uma pequena sombrinha. Depositei esse objeto potencialmente perigoso pela fissura na parede de vidro e retornei à fila da porta giratória.

Passa um. “Por favor, deposite seus objetos metálicos...”. Volta.

Próximo. “Por favor, deposite seus objetos metálicos...”. Ã-an. Não foi dessa vez. Pode voltar também.

Que bom! Hoje não estou sendo envergonhada sozinha.” – Sorri por dentro.

Mais um. [Giro completo.] Puxa! Esse é um cara de sorte.

Agora é minha vez... “Por favor, deposite seus objetos metálicos...”

Ah! Mas o que foi agora?” – Voltei pela segunda vez, frustrada. 

Toc, toc! – Bati no vidro, informando ao segurança que eu já havia tirado tudo o que continha metal de dentro da bolsa. Então, ele pediu que eu abrisse a bolsa para fazer uma inspeção avulsa com seus olhos de raios-X, através do vidro.

Confesso que, nessas horas, a gente tem vontade de abrir o zíper da bolsa todo de uma vez e, num solavanco, despejar tudo no chão, no mais puro estilo “histéricos de porta de banco”.

Certa vez, noutro banco, após a bendita porta ter travado quatro vezes comigo, e eu já prestes a ter um enfarto ali mesmo, um funcionário – não o segurança – fez-me abrir a bendita bolsa e também fez sua inspeção pelo vidro. Nessa época, eu tomava banho no trabalho e ia para a faculdade à noite. E tudo o que ele encontrou foi uma marmita vazia, um garfo e algumas roupas íntimas...

[Ah, era o garfo, então...]

Voltando ao segurança da inspeção - Ele astutamente constatou alguns objetos suspeitos na minha bolsa. Itens de primeira necessidade como band-aid da Turma da Mônica, hidratante para as mãos, soro fisiológico nasal, espelhinho, lixa de unhas, tudo dentro de uma bolsinha. E, num pequeno bolsinho embutido na própria bolsa, chiclete Trident de morango, um cartão telefônico (pro caso de uma emergência sem crédito no celular), e uma presilha de cabelo.

Mas o pior estava por vir. O segurança, perspicaz, perguntou-me:

- E isso aí, o que é? (Apontando para um estojo xadrez.)

- Ah! É o meu estojo de trabalho.

- Abra-o, por favor.

- Ãn? (Perguntei, franzindo as sobrancelhas...)

- Coloque-o aqui, por favor. (Ele corrigiu...)

- Ufa! Estou salva. Agora acredito que eu passo por essa maldita bendita porta!

Tentei de novo. E passei.

(Parêntese: Quanta burocracia para entrar numa agência bancária! Não sei se todo esse cuidado é mesmo para guardar nossos tesouros, ou se é para entreter os funcionários enquanto executam suas árduas tarefas de lidar com gente. Deve ser divertido ficar apertando o botão de um controle remoto, e ficar permitindo ou proibindo a passagem das pessoas por uma porta. Isso dá uma impressão de poder, de sublimidade. Faz todo o pessoal do banco se sentir grande, digno de reverência. Afinal, quem trabalha ali dentro são seres quase inacessíveis por meros mortais como nós, e tudo por causa de uma porta de vidro com detector de metal.)

Fico pensando em como é gostoso ser aceito por Deus como nós somos. O traficante com sua arma, pode ajoelhar-se onde estiver, e Deus Se fará pronto a recebê-lo. A prostituta pode orar ao Senhor e ela será ouvida instantaneamente por Ele, independente do que tenha acabado de fazer ou do tipo de roupa que esteja usando. O mendigo pode clamar ao Eterno Deus de amor e receberá Seu abraço, exatamente do jeito como está.

O amor de Deus é incondicional, e Sua atenção a nós é ininterrupta. Seu interesse por nós é real e sem a menor burocracia. Sua bondade é ágil, é sincera, é constante. (E nós não temos de pagar nenhuma taxa de manutenção a Deus por nada disso.)

Continuando... Finalmente, ao entrar triunfante dentro daquela agência, segui direto para “o compartimento ao lado” e, enquanto recolhia todas as minhas armas de guerra – inclusive aquela bazuca desmontável disfarçada de celular – o guardinha me cercou:

- O que tem dentro do seu estojo?

- Ah, sim... É parte do meu material de trabalho. Sou professora. – Respondi concentrada em recolher todas aquelas coisas.

- Deixe-me ver. – Ele disse, com ares de poucos amigos e muitas suspeitas.

- Tem certeza? – Eu perguntei, imaginando o que poderia haver de tão surpreendente dentro de um estojo escolar.

- O que são essas coisas?

- Essas coisas? – Perguntei incrédula. – Uma tesourinha, um estilete, canetas e lapiseira 0,5.

- Preciso reter isso comigo. São perigosos...

- Ah, claro! Porque eu poderia render o banco inteiro com uma tesourinha sem pontas e um estilete, não é?

- ...

- HEIM?

- ...

(Nenhum sorrisinho amarelo para alegrar ainda mais o meu dia.)

Então, agora que fui descoberta, só me resta seguir à fila da senha e pegar uma para o caixa. E foi isso o que eu fiz. Lá no caixa eu gastei dez minutos, diferente dos quase trinta que foram necessários só para que eu conseguisse adentrar a agência.

E a gente tem de levar isso na esportiva, se nós quisermos manter nosso equilíbrio enquanto estamos vivos. Só não posso deixar de comparar o sistema de segurança no acesso aos bancos com o sistema divino para acessarmos o Céu.

Para entrarmos no Céu, não há burocracia. Há um padrão – o da santidade (Hebreus 12.14) – que nós adquirimos ao longo dos dias, natural e espontaneamente, conforme caminhamos para a porta da eternidade com Deus. É como se todos os objetos metálicos (máculas de pecado) que pudessem nos impedir de entrarmos ali, fossem sendo perdidos enquanto caminhamos. Não há “compartimento ao lado” da porta do Céu. E quando chegamos diante da entrada, não temos mais o que temer. Basta passarmos por ela, certos que Jesus está nos esperando do outro lado, de braços abertos (João 6.37).

Totalmente o contrário da cara sisuda do segurança, que me devolveu o estojo, e me acompanhou atentamente com os olhos enquanto eu me retirava da agência, totalmente frustrada. Frustrada nem tanto pelo constrangimento e pelo exagero daqueles momentos anteriores, mas por ter sido desvendada.

Puxa! Era um plano perfeito, mas o guardinha do banco desmontou todo o meu esquema.

Eu tinha tudo muito bem planejado: Entraria no banheiro e armaria rapidamente a bomba caseira que levei, feita com hidratante para as mãos, soro fisiológico nasal e chicletes Trident (o de morango, pra deixar seu poder ainda mais destrutivo). Depois, pretendia criar um pequeno tumulto com minha bombinha dentro da agência, para chamar a atenção dos seguranças. Nesse momento, eu abateria os clientes com as moedas. Depois, renderia todos os seguranças com a lixa de unhas, canetas e lapiseira 0,5. Aí, amordaçaria os funcionários com meus band-aids da Turma da Mônica. Prenderia o gerente dentro do banheiro e trancaria a porta por fora com a presilha de cabelo. Daí, usaria o estilete e a tesoura sem pontas para arrombar o cofre do banco.

E, pra finalizar, com o espelhinho, eu arrumaria o meu disfarce e, depois, usaria meu cartão telefônico para ligar para os meus comparsas, de um dos telefones públicos do shopping onde fica a agência. Eles viriam me buscar de helicóptero, e depois de uma fuga bem sucedida, iríamos para uma ilha, lá nas Bahamas. 

Era o crime perfeito! Mas não deu. Quem sabe da próxima vez se, antes, Deus não me chamar para entrar à porta do Céu... 

Sim, porque gente como eu é uma grande ameaça para a sociedade.

[Com releitura e adaptações do texto Planos para dominar uma aeronave, de Ana Téjo - do extinto blog Respira pela barriga.]