segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Pontinhos, tracinhos e garatujas...


A Bíblia em um ano:
Ezequiel 22-24

By Elaine Cândida


"Todos os vales serão levantados, todos os montes e colinas serão aplanados; os terrenos acidentados se tornarão planos; as escarpas serão niveladas. A glória do Senhor será revelada, e, juntos, todos a verão. Pois é o Senhor quem fala."
Isaías 40.4-5

A vida tem seus encantos. Mas também tem momentos de intensa desilusão. E como somos seres humanos, temos sentimentos e estamos vivos, não é possível deixar de sofrermos em momentos assim.

A Bíblia nos conta de homens e mulheres que aprenderam a contornar e superar o sofrimento. Ela não conta de pessoas que faziam pouco caso do seu sofrimento como se ele não lhes pertencesse, ou que sorriam da sua dor como se fossem super heróis iguais aqueles dos desenhos animados. Não. Nenhum dos servos de Deus narrados na Bíblia bateu no peito e se achou o “bam-bam-bam” do evangelho, como se acham os discípulos formados pela teologia do triunfalismo dos nossos dias.

Ao contrário, a Bíblia conta lindamente do caminho da dependência de Deus que esses vitoriosos escolheram, vestindo-se em panos de saco, rolando em cinzas, chorando e se humilhando aos pés do Senhor, buscando e esperando Nele uma providência. E também, buscando a intercessão dos santos filhos de Deus.

Enquanto esperavam, aproveitavam os escapes que Deus lhes enviava, de forma a suportar tudo o que deveriam passar. E eram servos sempre determinados a permanecer na presença do Senhor, pois o temor de um servo de Deus não é passar pelos gélidos, sombrios e solitários vales, mas passar por lá sem o seu Senhor.

Se eu pudesse ilustrar a situação deste blog como um pequeno escape para a minha vida (ainda mais) complicada (ultimamente), seria exatamente a imagem acima: pontinhos, tracinhos, garatujas e uma linha reta, apontando para o Céu.

Os pontos representariam os primeiros anos das publicações curtas de uma principiante no manuseio da Bíblia. Mensagens totalmente vazias de sentimentos. Apenas letra.

Os traços representam avanço, maturação espiritual expressa em textos mais consistentes e melhores fundamentados na Palavra de Deus. Aqui, sentimentos também assinam as composições, mas de forma sutil, revelando que quem escreve também é um ser humano, não apenas um instrumento particular de Deus. E as publicações passam de simples reflexões bíblicas a resultados de uma experiência diária com o Senhor, a fim de obter direções e ajudar quem vive situações semelhantes.

Mas esses sentimentos implícitos nos textos, de repente, começam a gritar. Recentemente, várias coisas aconteceram de uma só vez. Posso dizer que as piores lutas da minha vida eu estou enfrentando agora. E a expressão da alma da autora do blog ficou bem mais evidente nas composições dos últimos dois meses, declarando grande revolta, tristeza e dor diante de tantos e intensos conflitos juntos. (Certamente, isso deixou muitos leitores impressionados, ou assustados, ou decepcionados...)

Na verdade, escrever, pra mim, sempre foi um escape. Mas agora, muito mais. E, então, os tracinhos se transformaram em rabiscos que gritam e extravasam um pouco da dor, da tristeza profunda, da perturbação. Garatujas, quais as artes das crianças, em seus primeiros contatos com lápis e folhas.

Aliás, creio que seja assim mesmo. Cada vez que as linhas dos belos desenhos das nossas vidas se transformam em garatujas, é sinal que estamos precisando começar a aprender a escrever e desenhar de novo. Cada vez que tudo conspira contra a nossa paz e todas as situações parecem fugir do nosso controle, é o momento de admitirmos que elas estavam mesmo sendo controladas por mãos erradas. E é o momento de entregarmos o lápis e a borracha nas mãos de Deus e deixarmos que Ele retome e reescreva a história como quiser, desenhando o que bem sonhar.

Às vezes, eu me pego sorrindo das coisas que escrevi nesses últimos dois meses. Rio das minhas garatujas espirituais. E com um sorriso despretensioso de criança (porque agora minha alma está descansado enquanto o temporal continua lá fora), vejo o Pai traçando os primeiros milímetros de uma linha reta que começa bem à minha frente, e apontando para o Céu.

Espontaneamente, Ele toma outro gole do Seu chocolate quente, engole com mansidão e um olhar concentrado, e coloca a caneca sobre a mesa. Empurra a cadeira do lugar à mesa onde estava sentado desenhando minha vida e ergue a folha em minha direção. Chama meu nome e, com um gesto lento e preciso, aponta para a linha, enquanto fala suavemente, quase cantando: “É por cima dela que você deve seguir”. Dá o Seu característico sorrisinho meio de lado. Entrega a folha em minhas mãos. E sai.

É por cima daquilo que Ele escolheu para mim que eu devo seguir. É por cima da linha que Ele desenha na sua vida que você também deve seguir. É tão mais fácil ser feliz assim...

E os problemas?

Bem, eles continuam lá, do mesmo jeito. A diferença é que escolhi seguir o exemplo dos vencedores da Bíblia. Diante do desespero, chorar tudo o que tenho direito e entregar todas as minhas causas nas mãos do Senhor.

E, depois? Ora, o óbvio: Prosseguir!

Pois a vida continua sendo desenhada. Mas agora, com uma linha inteira, reta e que dá para cima.