segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Ao adentrar a porta do Magistério...


A Bíblia em um ano:
Mateus 6-11

Imagem: Google.


“Todo aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no Reino dos Céus; mas aquele que praticar e ensinar estes mandamentos será chamado grande no Reino dos Céus.”
Mateus 5.19


Eu não escolhi ser professora. O Senhor me induziu a isso e os infortúnios do meu passado encerraram a porta do Magistério quando eu passei por ela. Na verdade, isso aconteceu de forma forçada, e foi por falta de opção. Leia e entenda...

Eu queria ser médica.

Desde criança, eu sonhava em ajudar pessoas. Mas eu queria ser uma médica que vivesse mais praticando o socorrismo do que consultando pessoas. Não queria que os pacientes viessem até mim. Eu queria ser paramédica no SAMU – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência do Corpo de Bombeiros. Queria viver os desafios de ir até as vítimas em tempo hábil e fazer tudo o que eu pudesse para ajudá-las, ainda que o final fosse um inevitável óbito. Esse era o sonho da minha vida.

Aos 17 anos concluí um curso técnico de Contabilidade. Até os 21, eu ficaria sem nenhuma direção sobre o que exatamente eu queria fazer numa faculdade, porque a Medicina, que era o meu grande sonho, estava fora do meu alcance naquele momento. Outro curso não me agradava tanto, embora eu ainda tivesse interesse em Arquitetura, o que também era um sonho muito distante para uma família que morava de favor num velho barraco de uma senhora espírita (in memoriam), na periferia de Valparaíso de Goiás.

Aos 20 anos, entrei num curso de Enfermagem e cheguei a fazer dois períodos, com o intuito de ingressar na área da saúde e ter como garantir a faculdade de Medicina posteriormente. Nessa mesma época, comecei a sentir dores terríveis de coluna e precisei ir a um médico. Exames de radiologia comprovaram que o formato da minha coluna havia se transformado num “S” bem acentuado, devido a uma diferença de 1 cm no tamanho das pernas (foi por causa dessas dores que eu descobri que tinha essa assimetria também).

No mesmo período dessa grande descoberta, tive minha primeira crise de rinite alérgica, doença que eu, até então, também não sabia que tinha, embora já tivesse sofrido de bronquite no passado e também já tivesse percebido algumas manifestações alérgicas sem um estudo específico de caso.

Coincidência ou não (creio que foi tudo uma providência divina, e logo entenderemos o porquê), foi também nessa mesma época que tive acesso a um edital do Corpo de Bombeiros. E foi então que tive conhecimento que eu não passaria no exame físico de um concurso tão exigente quanto esse.

A partir dali, fazer Enfermagem, pra mim, já não tinha mais tanta importância, porque meu objetivo final através dela não seria alcançado. Então, eu não tive coragem nem mesmo de prestar os exames escritos daquele concurso. Sabia que tinha condições de ser aprovada nesses, mas seria reprovada na avaliação física, e isso me traria uma frustração ainda maior. Daí, eu escolhi recuar. Optei por embrulhar meu sonho no papel dos nãos, guardá-lo na caixinha do esquecimento e colocá-lo num cantinho lá na última prateleira das frustrações, a mais alta da minha estante da vida.

Na sequência, foi aberta a primeira turma de Magistério na escola onde eu estava cursando Enfermagem. Como num momento de surto, decidi trancar esse curso e me tornar normalista. Parentes e amigos sempre questionavam o motivo pelo qual eu escolhi mudar de área tão repentinamente, uma vez que eu nem mesmo gostava de crianças.

Naquele contexto, meu coração era revoltado com a vida, com o mundo, com as pessoas. Penso que aquela escolha de mudança era, no fundo, no fundo, um grito de insatisfação e revolta com todas as circunstâncias infelizes a que eu e minha família, como um todo, tínhamos sido expostos até então.

Mas, enfim... Comecei a estudar para ser professora. Nessa época, eu era secretária executiva no escritório de um ex-ministro (in memoriam) do Superior Tribunal de Justiça. Um parêntese: Foi nessa advocacia que um estagiário de Direito me perguntou o motivo de eu não ter preferido o Direito ao Magistério. Minha resposta foi simplória: “Porque eu não gosto de Direito...”. E o que ouvi dele foi incrivelmente estúpido e arrogante: “Eu também não gosto. Mas o meu avô era ministro. Meu pai é juiz. E assim como eles, eu também não nasci para ser mandado por ninguém...” (Que bela frase de incentivo para alguém que estava apostando no Magistério como a última alternativa de se encontrar na vida...) Fecha o parêntese.

Prosseguindo... O meu novo curso duraria 15 meses. Por volta do sexto mês, eu já tinha me apaixonado pela área da educação. Estudar o ser humano, em especial a criança e sua evolução, tornou-se algo extremamente instigante, desafiador, fascinante e muitíssimo prazeroso pra mim. E foi aqui que decidi o que eu queria fazer numa faculdade.

Dois meses depois, nono lugar no vestibular de Pedagogia. Talvez não muito, em se tratando de uma faculdade do Goiás. Mas para uma jovem que se tornou o primeiro caso em toda a sua parentela a entrar numa faculdade, e principalmente pelo fato de essa jovem estar finalmente se encontrando na vida, já fazia valer à pena todo o sacrifício de sair de casa das segundas às sextas-feiras às 5:15 da manhã e retornar às 00h, e de passar os sábados e domingos enclausurada numa escola o dia inteiro, estudando para concluir o bendito Magistério, ainda em andamento.

Ao término do Curso Normal, eu já não estaria mais no escritório de advocacia. Me tornaria, aos 22 anos, gerente de uma empresa com 32 funcionários abaixo de mim. Mas o meu orgulho pessoal não me deixaria permanecer ali mais que seis meses. Deus precisou abater-me de sobre o cavalo da minha arrogância e me jogar no chão duro da humilhação, à caminho de Damasco, quando eu pensava fazer o que para mim parecia ser uma grande missão.

Fiquei desempregada, com o Magistério já concluído, mas com a faculdade em curso. E esta, eu precisei trancar, até que encontrasse outro emprego. Dois anos se passaram, e nenhuma oportunidade de emprego sorriu para mim. A moça cujo currículo chegou a ser escolhido por três empresas ao mesmo tempo em datas anteriores, de repente percorria um número incontável de empresas em Brasília com ele, literalmente, embaixo do braço, e simplesmente não era selecionada nem mesmo para um teste de aptidão.

Curioso como Deus age (ou induz outros a agirem) quando nos escolhe para uma missão nesse mundo. Para tratar meu caráter e começar um processo de cura e libertação em minha alma, aos poucos Ele foi fechando portas, e o fez com propósitos de me ensinar que tudo pertence a Ele e que eu também dependo Dele para tudo. Algumas empresas chegaram a me dispensar na entrevista com o seguinte argumento: “Seu currículo é excelente. Mas não podemos te contratar. Você é muito mais do que precisamos.” (Dá pra acreditar!?...)

Depois de incontáveis nãos das empresas e de muitos outros infortúnios que seguiriam, após dois anos lembrei-me do diploma do Magistério e fiz um currículo sem experiência alguma na área da educação para entregar a algumas escolinhas de São Sebastião, aqui no DF. E em cinco dias duas delas me chamaram para entrevista. Foi aqui que finalmente começou minha carreira na educação e o trabalho que exerço até hoje com muito afinco, zelo e dedicação.

Menos de um ano e eu já estava aprovada (novamente em nono lugar) num concurso público para professores. E este tem sido o meu emprego até hoje. Desde que ingressei no Magistério, doze anos discorreram. E nestes, muito mais aprendizado eu ganhei com minhas crianças do que elas de mim, certamente.

Mesmo com todos os aborrecimentos a que um professor está sujeito tanto dentro quanto fora dela, a sala de aula tornou-se uma terapia para mim. Mesmo com toda a desvalorização que desmotiva um professor, tenho encontrado o lado admirável dessa profissão e fiz disso a minha paixão profissional, que me impulsiona a dedicar o que posso pelo sucesso dos meus alunos.

Foi ali, na sala de aula, lidando com gente de verdade (as crianças), que aprendi a ser gente também. Deus não me queria na área da saúde, porque sabia que mesmo sendo médica, eu não teria tanto contato com a simplicidade, com a verdade e com a humildade que há nos seres humanos, tal como tenho ao lidar diretamente com crianças todos os dias. (Detalhe: o "S" da minha coluna simplesmente desapareceu. Foi só um pretexto que Deus usou para me desviar dos meus planos e me enquadrar nos Dele, que são muito mais altos que os nossos. - Isaías 55.8-9)

Além disso, o Senhor havia me dado o dom de ensinar e eu não sabia. E isso Ele queria que fosse aproveitado intensamente no serviço do Reino. A Didática que me forneceu base para trabalhar em sala de aula também me deu respaldo para meu trabalho dentro e fora da Igreja. E as técnicas que aprendi para lidar com pessoas em processo de aprendizagem têm sido utilizadas incansavelmente para ensinar pessoas que precisam aprender o Evangelho também, sejam crianças, jovens ou adultos.

Precisamente como o meu amigo Rodrigo Silva me escreveu por e-mail dia desses, em Mateus 5.19 “o próprio Cristo exaltou o sacerdócio pedagógico, enfatizando que o “ensinar”, veículo de manifestação do ofício do pedagogo, também é veículo de manifestação da própria Palavra de Deus. Logo, o Professor é um dos maiores agentes da evangelização (que responsabilidade, não é mesmo!?), conquanto segundo a Palavra, aquele que cumprir os mandamentos e os ensinar, será chamado grande no reino dos céus. (!!!)”.

Hoje, vejo minha profissão como um grande presente que Deus me deu. E faço tudo o que posso para honrá-la, não porque eu queira ser reconhecida, mas para que minha consciência possa dormir todas as noites tranquila e convencida que fez o seu melhor em relação a tudo o que podia fazer. E também para que Deus seja glorificado pelo bom testemunho da Sua serva.

Hoje, agradeço a Deus por estar ajudando vidas de outra maneira: implantando valores morais, éticos, sociais e até espirituais nos corações das crianças com quem trabalho. Agradeço ao Senhor por Sua insistência em me levar para uma direção que jamais esteve nos meus planos, e por ter me mostrado quão gratificante é participar da construção do projeto mais caro que há: o ser humano.

Hoje, mesmo com todo o cansaço mental e físico a que sou submetida por causa da minha dedicação em levar a sério o meu trabalho de alfabetizadora (neste momento, mais precisamente, como coordenadora), posso concluir mais um dia grata a Deus pela oportunidade que Ele me deu de servir e de aprender algo a mais com os pequeninos. Cada vidinha em minha sala de aula é um mundo a ser descoberto, explorado e encaminhado pela órbita do bem. Louvo a Deus por poder participar desse momento tão único de cada um deles.  

E hoje, na verdade, nem feriado é. Estamos gozando um recesso nacional que lembra o dia dos professores. Mas que importa se temos direito a um feriado ou não, quando todos os dias temos um encontro com a oportunidade de nos realizarmos e nos superarmos enquanto profissionais e enquanto seres humanos?

Data nenhuma significa tanto, nem dinheiro algum nesse mundo paga essa satisfação que há em ser um professor que honra o chamado para formar e encaminhar vidas. E, dentro de mim, eu agradeço a Deus todos os dias por ter sido comissionada por Ele a isso.

Se Deus escreve certo por linhas tortas, honestamente eu não sei. Se Ele primeiro endireita as linhas para depois escrever sobre elas, também nunca consegui comprovar. Só sei que o que Ele escolheu fazer da minha história e está fazendo em mim tem sido maravilhoso e motivador.

Porque nessa grande sala de aula que é a vida, os sorrisos sinceros, os carinhos desinteressados e as atitudes inocentes das crianças têm sido meus grandes professores. E o maior de todos os aprendizes ao longo desses anos tenho sido eu mesma.


Fotos: Algumas fotos das minhas aulas. Anos e séries diferentes.
(Clique para ampliar.)