quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Noites...


A Bíblia em um ano:
Zacarias 1-6

Imagem: Google.


“Por isso, não abram mão da confiança que vocês têm; ela será ricamente recompensada. Vocês precisam perseverar, de modo que, quando tiverem feito a vontade de Deus, recebam o que Ele prometeu; pois em breve, muito em breve, ‘Aquele que vem virá, e não demorará. Mas o Meu justo viverá pela fé. E se retroceder, não Me agradarei dele’.”
Hebreus 10.35-38


Dia desses vi uma manhã acontecendo. Da janela do meu quarto observei por uns instantes – curtos, mas suficientes – a madrugada escura rompendo pela força da luz do sol que surgia tímida no horizonte e, pouco a pouco, se tornava mais densa, aquecendo a frieza, clareando a escuridão, forçando a saída da noite.

A noite...
Oh, sim! A noite...
Essa bela malvada que inspira tão profundamente os poetas, mas estraçalha-lhes os corações solitários que sonham (re)encontrar um grande amor. Essa doce vilã que, debaixo de um maravilhoso, infindo e inimitável cobertor de estrelas abriga as obras (e os obreiros) do mal, que fogem, a todo custo, da luz.

Noite...
Tema de lindas canções e palco de grandes tragédias. Momento de realizações para casais apaixonados, horas de maiores tristezas para os solitários. Às vezes, ela chega portando boas notícias. Às vezes, chega narrando as piores e mais tristes histórias. Às vezes, é o marco da reconciliação e, às vezes, a pedra fundamental da separação, do adeus.

Tão comum ver a noite chegar. Tão raro vê-la partir... Geralmente, estou dormindo nesse momento. Ou, de tão ocupada, já colocando coisas em ordem para começar mais um dia de muito trabalho, não sobra tempo para olhar pela janela e contemplar esse sutil espetáculo.

Mas, dia desses, eu vi. E, creio, foi uma sensação parecida àquela que sentimos quando um período escuro, triste e frio das nossas vidas começa dar lugar à uma bela manhã de sol agradável. Meus olhos se alegraram em ver aquilo que minha alma anseia tanto sentir.

Em nossas vidas, as noites parecem chegar tão rápido, não é? Da mesma maneira como nosso dia começa calmamente, pouco a pouco nos envolvemos, nos ocupamos aqui e ali... E, quando menos percebemos, a noite chegou, fazendo quase tudo parar, dificultando nosso andar, tornando mais perigosos e delicados os nossos momentos. Salvos os que trabalham excepcionalmente à noite (e também aqueles que a desperdiçam em boemia), não podemos fazer muitas coisas durante a noite. Da mesma maneira, nossas almas enfrentam noites que conhecemos como outros nomes: adversidades, conflitos, esperas intermináveis, dores intensas, tristezas terríveis, perdas, decepções.

A impressão que temos é que as coisas (e as pessoas) boas vêm e passam tão rapidamente, que duram somente o tempo de nos lembrar que elas existem. São como nossos curtos dias. Logo, logo, aquilo que parecia um dia ensolarado cede a uma noite fria e escura demais, muitas vezes sem nenhuma estrela no céu. E da janela da alma, muitas vezes olhamos para o infinito sem nenhuma expectativa de ver o sol nascer outra vez...

Longas noites, essas!

Suspiros. Lágrimas. Orações. Gemidos. Esperança.
Suspiros. Lágrimas. Orações. Gemidos.
Suspiros. Lágrimas. Gemidos.
Suspiros. Lágrimas.
Suspiros.
...

Só Deus sabe o que acontece numa alma tomada pela noite.

Mas ainda bem que, pelo menos, Ele sabe. E isso é suficiente! Deus sabe quão difícil é viver em trevas. Tanto que o primeiro espetáculo de Deus na Criação foi dissipar a escuridão: “E disse Deus: ‘Haja luz!’. E houve luz” (Gênesis 1.3). Jesus Se revelou como a luz do mundo, que tira o homem das trevas do pecado e lhe encaminha para a vida eterna em segurança (João 8.12). As nossas vidas – salvas e convertidas – são determinadas pelo Senhor como luzeiros para mundo (Mateus 5.14-16), para servirem de referências do poder de Deus àqueles que pensam que não é mais possível haver transformação em suas vidas (Filipenses 2.14-16; Colossenses 1.27-28).

Ainda bem que Deus sabe que noites geralmente aumentam nossa ansiedade, nosso vazio, nossa tristeza. E há quem misture a ausência, a impossibilidade, a incerteza, e beba sozinho desse coquetel poderoso que potencializa ainda mais a sua dor, a ponto de, muitas vezes, tombar sobre o travesseiro das suas angústias, em plena exaustão e desnorteamento para com a vida.

Ainda bem que Deus sabe!...
E porque Ele sabe que a noite é, em parte, um problema para nossos frágeis, fracos e medrosos corações, Ele nos deu a promessa de um novo dia, que virá trazendo seus renovos e sua alegria própria (Salmos 30.5).

Contudo, a noite tem o seu lado bom. Em parte ela nos limita e condiciona a parar. E em parte, essa limitação, esse condicionamento, nos leva a descansar. Por isso, Deus criou a noite também (Gênesis 1.14-19), “e viu Deus que era bom.”

Cada noite das nossas almas está para a paz das nossas vidas, assim como cada noite do nosso dia está para o descanso dos nossos corpos em nossas camas.

Assim como dormimos e descansamos à noite, à espera de um novo dia, precisamos descansar em Deus à espera da ruptura das madrugadas escuras que nos causam aflição. Noites espirituais nos levam a isso: a recorrer ao colo de Deus, a aprendermos a esperar no Senhor. A exercermos mais a nossa fé e a confiarmos mais.

Por isso, noites são períodos complicados, que muitas vezes parecem ser mais longos que nossos dias, e ainda assim também são tempos propícios para deixarmos toda complicação nas mãos de Deus. Noites trazem consigo melancolias, mas essas nos encaminham à promessa de um novo dia que virá em seguida, portando raios singulares de um sol que se faz novo sobre nós a cada manhã; despertando os pássaros que saudarão a manhã com preciosos cantos de ternura e gratidão ao Criador. É como meu amigo Willmondes escreveu recentemente no seu blog: "Uma tristezinha como essa até faz bem ao coração, deixa-nos uma incompletude que serve de mola para os sonhos, de referência para o caminho a ser trilhado."

Vinícius de Moraes escreveu que “o sofrimento é o intervalo entre duas felicidades”. Permita-me parafrasear sua frase, nobre Vinícius, para animar um pouco mais esse coração que agora nos lê (e o meu também): “uma noite é o intervalo entre dois dias”. Um dia se foi, mas o outro está chegando. A noite ao meio está quase terminando.

Olhe da janela da sua alma e, radiante, contemple você mesmo uma nova manhã acontecendo. O sol da glória de Deus começa nascer para nós lá fora (Isaías 60.1-2).

Creiamos.
Logo será dia perfeito.