quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O perdão secreto


A Bíblia em um ano:
Marcos 7-9


“Jesus, sabendo que o Pai tinha depositado nas Suas mãos todas as coisas, e que havia saído de Deus e ia para Deus, levantou-Se da ceia, tirou os vestidos, e, tomando uma toalha, cingiu-Se. Depois deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos, e a enxugar-lhos com a tolha com que estava cingido.”
João 13.3-5


Por Max Lucado


Imagem: Google.
Não é fácil ficar olhando Jesus lavar esses pés.

Ver as mãos de Deus massageando os dedos dos homens, bem... não está certo. Os discípulos é que deveriam lavar-Lhe os pés. Natanael deitaria a água. André levaria a toalha. Mas não o fizeram. Ninguém o faz. Ao invés de servir, ficam discutindo para saber quem é o maior (Lucas 22.24).

Quanta decepção essas palavras devem ter provocado em Jesus!

“Eu sou o apóstolo número um.”
“Não, eu sou mais espiritual que você.”
“Ei, gente, vocês estão loucos. Fui eu quem trouxe o maior número de pessoas para ouvir Jesus.”

Enquanto argumentam, a bacia fica no canto, intata. A toalha permanece no chão, sem utilidade alguma. A roupa de serviço continua na parede, intocada. Todos os discípulos O vêem. Eles sabem para que serve cada uma dessas coisas. Mas ninguém se move, exceto Jesus. Enquanto discutem, Ele Se levanta.

Mas nada diz. Despe a capa, e tira da parede o avental de serviço. Pegando a jarra, derrama a água na bacia. Ajoelha-Se diante deles, e com a bacia e a esponja, começa a lavar-lhes os pés. A toalha que Lhe cobre a cintura é também a toalha com que lhes seca os pés.

Não está certo.

Não basta que essas mãos sejam rasgadas pela manhã? Precisam esfregar sujeira esta noite? E os discípulos... merecem ter os pés lavados? Sua paixão minguou, sua lealdade hesitou.

Queremos dizer...

Olha para João, Jesus. É o mesmo João que Te pediu para que destruísses uma cidade. O mesmo João que exigiu que censurasses um seguidor que não era do Teu grupo. Por que lhe lavas o pés?

E Tiago! Ele queria o lugar de honra. Ele e o irmão queriam tratamento especial. Não lhes dês. Dá-lhes a toalha. Que lave os próprios pés. Que aprenda a lição.

E enquanto estás ocupado, Jesus, podes também pular a Filipe. Ele Te disse que não havia comida suficiente para alimentar a multidão. Tu o provaste, e ele foi reprovado. Deste-lhe uma oportunidade, e ele a mandou pelos ares.

E Pedro? Com certeza, são os pés que andaram sobre a água, mas também são os pés que afundaram. Ele não acreditou em Ti. É certo que ele confessou que Tu eras o Cristo, mas também foi ele quem Te repreendeu, dizendo que não tinhas de morrer. Ele não merece ter os pés lavados por Ti.

Nem um deles merece. Quando estavas para ser apedrejado em Nazaré, alguém veio em Tua defesa? Quando os fariseus tomaram pedras para matar-Te, alguém se ofereceu para ficar no Teu lugar? Tu sabes o que eles fizeram.

E mais, Tu sabes o que eles estão para fazer!

És capaz de ouvi-los já roncando no jardim. Eles dizem que ficarão acordados, mas hão de ser vencidos pelo sono. Tu irás suar sangue; eles dormirão como pedras.

És capaz de ouvi-los se esquivando dos soldados. Fazem promessas esta noite. Amanhã estarão em fuga.

Olha em torno da mesa, Jesus. Dos doze, quantos ficarão contigo na corte de Pilatos? Quantos dividirão contigo as chibatadas romanas? E quando caíres sob o peso da cruz, qual dos discípulos estará perto o suficiente para lançar-se ao Teu lado, e carregar Teu fardo?

Ninguém. Nem um. Um estranho será chamado; nem um discípulo estará por perto.

Não lhes laves os pés, Jesus. Manda-lhes que lavem os Teus.

E isso o que queremos dizer. Por quê? Por causa da injustiça? Porque não queremos ver nosso Rei agindo como serviço? Deus, com as mãos e os joelhos no chão, os cabelos caídos em torno do rosto? Fazemos objeções porque não queremos ver Deus lavando pés?

Ou fazemos objeções porque não queremos fazer o mesmo?

Pare e pense um instante. Não temos pessoas como os discípulos em nosso mundo?

Pessoas de duas caras, quebradores de promessas. Amigos de tempo bom. O que disseram e o que fizeram – duas coisas diferentes. Ah, talvez não o tenham deixado sozinho na cruz, mas talvez o tenham deixado sozinho com as contas...
         Com suas perguntas,
                   com sua doença.

Ou talvez você simplesmente tenha sobrado no altar,
         ou no frio,
                   arcando com as consequências.

Votos esquecidos. Contratos abandonados.

A lógica diz: “Cerre os punhos”.
Jesus diz: “Encha a bacia”.
A lógica diz: “Esmurre o nariz dela”.
Jesus diz: “Lave-lhe os pés”.
A lógica diz: “Ela não merece isso”.
Jesus diz: “Isso mesmo, mas você também não”.

Não compreendo como Deus consegue ser tão gentil conosco. Ele Se ajoelha diante de nós, toma os nossos pés em Suas mãos e os lava. Por favor, entenda que, ao lavar os pés dos discípulos, Jesus está lavando os nossos. Você e eu estamos na história. Nós estamos à mesa. Somos nós sendo lavados, não da sujeira, mas de nossos pecados.

E a limpeza não é apenas um gesto; é uma necessidade. Ouça o que Jesus disse: “Se Eu não te lavar, não tens parte comigo” (João 13.8).

Jesus não disse: “Se não te lavares”. Por que não? Porque não conseguimos. Não conseguimos lavar nossa própria sujeira. Não conseguimos remover nosso próprio pecado. Nossos pés precisam estar em Suas mãos.

Não perca o significado disso. Colocar os pés na bacia de Jesus é colocar as partes mais sujas de nossa vida em Suas mãos. Antigamente, no Oriente, os pés das pessoas ficavam cobertos de barro e pó. O servo do banquete cuidava de limpar os pés aos convidados. Jesus está assumindo o papel de servo. Ele lavará a parte mais suja da sua vida.

Se você Lho permitir. A água do Servo só chega quando confessamos que estamos sujos. Somente quando confessamos que estamos cobertos de sujeira, que andamos por trilhas proibidas, e seguimos os caminhos errados.

Temos a tendência de resistir, de ser como Pedro: “Não estou tão sujo, Jesus. Só jogue algumas gotas em cima de mim, e ficarei ótimo”.

Que mentira! “Se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e não há verdade em nós” (1João 1.8).

Nunca ficaremos limpos a não ser que confessemos que estamos sujos. Nunca seremos puros até admitirmos que somos sujos. E nunca seremos capazes de lavar os pés dos que nos feriram até que permitamos que Jesus, a Quem ferimos, lave os  nossos.

Veja: esse é o segredo do perdão. Você nunca dará a ninguém um perdão maior do que o que Deus já lhe deu. É só deixando que Ele lhe lave os pés que você terá forças para lavar os pés das outras pessoas.

Ainda é duro pensar no assunto? Ainda é duro pensar na possibilidade de perdoar alguém que o tenha ferido?

Então, volte mais uma vez à sala. Observe Jesus enquanto vai de discípulo em discípulo. Consegue vê-Lo? Consegue ouvir o barulho da água? Consegue ouvi-Lo arrastando-Se pelo chão até a próxima pessoa? Muito bem. Segure essa imagem.

João 13.12 diz: “Depois que lhes lavou os pés...”

Por favor, observe: Ele acabou de lhes lavar os pés. Isso significa que não deixou ninguém de fora. Por que isso é importante? Porque também significa que Ele lavou os pés de Judas. Jesus lavou os pés do Seu traidor. Deu a mesma atenção ao traidor. Em poucas horas, os pés de Judas estariam conduzindo os soldados romanos até Jesus. Mas nesse momento, recebem o cuidado de Cristo.

Não estou dizendo que foi fácil para Jesus.
Não estou dizendo que é fácil para você.
Estou dizendo que Deus nunca lhe chamará para fazer algo que já não tenha feito.


[LUCADO, Max. O perdão secreto. In Ouvindo Deus na tormenta. 21ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. Pág. 55-59.]