sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Suicidomania


A Bíblia em um ano:
Marcos 14-16

Imagem: Depressão. Disponível no Google.


“O pobre e o necessitado buscam água, e não encontram! Suas línguas estão ressequidas de sede. Mas Eu, o Senhor, lhes responderei; Eu, o Deus de Israel, não os abandonarei.”
Isaías 41.17

Eu já devia estar acostumada com gente que tem tendência suicida ao meu redor.

Uma vizinha (e irmã em Cristo) não pôs fim à sua vida porque, antes que consumasse o que já havia começado, saiu desesperada da sua casa e veio correndo à minha, em crise, em prantos, numa madrugada qualquer de 2008. Uma amiga do Ensino Médio ficou internada por alguns dias após tentar se matar com gás de cozinha. Outra, de séries anteriores, cortou os pulsos e teve de fazer cirurgia nos dois braços para sobreviver aos ferimentos que provocou. Um amigo dos meus irmãos, conhecido meu, que frequentava muito nossa casa, jogou-se, há alguns anos, de cima de uma torre de telefonia. Minha própria mãe já tentou suicídio por várias vezes, sem êxito (Graças a Deus!). O mesmo, porém, não aconteceu com um tio meu, que pôs fim à própria vida por ciúmes da esposa.

E eu poderia citar outros casos. Mas vou pular para o mais recente: uma colega de trabalho, em crise depressiva, bebeu veneno com a intenção de morrer, anteontem. Esse fato não me impressionou por si mesmo. Mas deixou-me intrigada pela sutileza com que tudo ocorreu.

Há alguns anos a turma evangélica lá do local onde trabalho se empenha em levar um pouco de Cristo aos demais. Algumas vezes, obtivemos êxito nesse convívio, nessa influência, pelos conselhos. Mas na maioria das vezes (ainda) não, embora todos insistam em sempre apresentar uma imagem de relevância às dificuldades dos seus dias, uma aparência de superação, de equilíbrio, de autossuficiência.

Porém, basta conversar um pouco mais com essas pessoas para que percebamos o vazio dentro delas. Basta dar-lhes um pouco mais de espaço para que abram-nos seus corações, e constatamos sem muito esforço que por dentro dessas imponentes montanhas, rugem vulcões caminhando para a erupção.

Pelas experiências que já tive ao longo dos meus 35 anos de existência, posso dizer com conhecimento de causa que sei o que é sofrer uma intensa desilusão, conviver com nãos como a última resposta, ter crises de desespero, surtar, ter depressão, sentir uma dor profunda e inexplicável na alma, ser vazio, sozinho e solitário, amargar a rejeição e o desafeto, entre outros. Vivi um bocado de todas essas coisas, o suficiente para encontrar o caminho que nos tira delas. E em todas elas, a saída foi sempre pela mesma porta, sempre na mesma direção, sempre rumando à mesma luz brilhando ao final do túnel. A saída foi sempre Jesus.

Não nego que ouvi – e ainda ouço, vez em quando – satanás sussurrando aos meus ouvidos coisas do tipo: “Mate-se. Quem se importa com você?”, “Dê fim à sua vida. Que valor você tem nesse mundo?”, “Liberte-se dessa tristeza, desse sofrimento. Que futuro você consegue ver à sua frente?”.

Quando temos uma intimidade com Deus, conseguimos discernir quando o Senhor fala ao nosso coração e quando demônios tentam nos iludir. E a estes, repreendemos. Mas quando não, qualquer voz que soe um pouco mais eloquente é capaz de dominar a nossa mente e ditar comandos sobre nós, manipulando nossas ações e até nos levar a cometermos uma loucura.

É como aquele turista perdido noutro país sem dinheiro, sem endereço, sem comida, sem ao menos conhecer aquela língua e poder comunicar-se. E sem poder voltar. Ele segue seus dias perambulando pelas ruas das cidades, tristes, sem esperança, sozinhos no meio de multidões que passam por ele, mas não lhe percebem. Ele entra em becos sem saída, volta deles desolado. Não tem motivação, embora tenha desejo de encontrar o caminho de volta. Desejo de, pelo menos, sobreviver e viver, na verdade... Sabe que existe uma saída, mas não consegue encontrá-la. E desfalece.

Quem resiste a uma entrega pessoal à vontade do Senhor, amarga seus infortúnios quase sempre sozinho, de um modo semelhante ao personagem acima. E é a intimidade com Deus, a sujeição ao Seu governo, que nos dá forças para resistir ao diabo e vê-lo fugindo de nós (Tiago 4.7). É a presença do Eterno Senhor que nos fortalece e não nos permite realizarmos as doidices a que o mal nos instiga, muitas vezes.

Por isso é necessário buscarmos a presença de Deus constantemente, e nos apoiarmos na força do Seu poder. Deus agarra nossa mão e nos dá equilíbrio e segurança durante nossa travessia pela estreita ponte dos nossos destinos, enquanto a morte, por meio de todas as suas facetas, chama nosso nome e acena para nós, esperando uma só queda nossa para nos puxar de uma vez.

Ele nos enxerga perdidos no meio das multidões e aquece nossos corações, de forma a não nos deixar sozinhos nem mais um instante. Aonde andarmos sentiremos a presença constante do Senhor. E onde estivermos, saberemos que estamos no lugar certo, porque Ele nos levou até ali.

É certo (e é bíblico) que uma vida com Deus não está isenta das adversidades, mas está fortalecida para enfrentá-las quando elas chegarem. Por mais terríveis que sejam as circunstâncias na vida de um filho de Deus, “para a árvore pelo menos há esperança; se é cortada, torna a brotar, e os seus renovos vingam. Suas raízes poderão envelhecer no solo e seu tronco morrer no chão; ainda assim, com o cheiro de águas ela brotará e dará ramos como se fosse muda plantada.” (Jó 14.7-9)

Pobre e necessitado, você cuja língua está ressequida, que busca água e não a encontra. O Senhor, a nossa força em todo tempo, o nosso socorro bem presente na angústia, te responderá. Por isso, não se isole, não se encafue no seu mundo, deixando Deus de fora.

Sé Ele é forte para nos livrar, para nos abençoar e nos dar toda a direção que devemos seguir, porque só Ele consegue enxergar o que nós não podemos ver acontecendo neste momento nas dimensões celestes (Efésios 6.12).

Contudo, esteja consciente: Muitas vezes Ele não responderá o que queremos ouvir, mas sempre responderá o que precisamos saber.

E isso é o suficiente para que contemplemos o cuidado do Senhor e experimentemos Seu amor a cada dia, até que Ele mesmo nos retire desse mundo e nos coloque finalmente no lugar de descanso eterno.

Portanto, se sua vida parece não ter valor e você também já pensou em (ou já ouviu sugestões malignas sobre) dar-lhe um fim, antes de fazer qualquer besteira contra ela e entrar em qualquer esquina por orientação das “vozes do além”, peça informação ao Senhor e siga – sem medo – Suas instruções. Você não errará o caminho, pois estará seguro e muito bem acompanhado neste mundo que não é o seu.

Você perceberá o real valor da sua vida. E isso fará arder em seu coração, não só o desejo de vivê-la com intensidade aqui, mas principalmente o desejo de estendê-la eternidade à dentro.



*PS: Minha colega está melhor fisicamente, se recuperando em casa. [Carece muito das nossas orações.]