domingo, 4 de novembro de 2012

Bíblia


A Bíblia em um ano:
João 6-9


Imagem: Entrelinhas do Will.

“Sejamos simples e calmos
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...”
(Fernando Pessoa)


A Tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos 
e luz que clareia o meu caminho.
Salmos 119.105


Por Moacir Willmondes


Cecília Meireles confessou que se tivesse que levar um livro para uma ilha deserta, levaria um dicionário e justificou: “O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente”.

Confesso que meu livro da solidão seria outro: a Bíblia.

Muito novo pus-me a ler a Bíblia.

Ainda quando o incentivo eram as varadas de minha mãe (educação doutros tempos), pelo menino ladino que fui. Ela punha-me a ler em voz alta e eu ia sendo quebrantado em cada verso. De modo que quando dizia “Ó Deus, cria em mim um coração puro” (Salmo 51), já não era só um garoto lendo poesias escritas por um rei, mas um coração transbordando arrependimento sincero.

Depois o trem da vida seguiu seus inevitáveis trilhos, mas o que toca nosso coração em cada estação segue conosco por toda a viagem.

E quando no caminho me torno ansioso, lembro do mestre Jesus apontando as flores do campo e os pássaros do céu (Mateus 6), me ensinando tranquilidade. É quando me ponho a sentir nas flores o delicioso perfume da infância e pés descalços, vendo nos pássaros o vento que tocava meus cabelos e sustentava minhas coloridas pipas infantis nos céus do cerrado.

Mesmo diante das noites escuras e solitárias, me ponho a observar os espaços vazios do universo e a mudez das estrelas (Salmo 19), e o silêncio e a ausência de discursos confortam meu coração.

Nos dias triste no deserto, não teimo em aprender com o paciente Jó que “...há esperança para a árvore, pois, mesmo cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus rebentos. Se envelhecer na terra a sua raiz, e no chão morrer o seu tronco, ao cheiro das águas brotará e dará ramos como planta nova” (Jó14).

E quando colho uma flor vívida numa noite e ela se torna ressequida na manhã seguinte, não desisto de tentar alcançar o ideal de vida anunciado pelo salmista (Salmo 1) em que somos como “... a árvore plantada junto a ribeiros de águas, que no devido tempo dá o seu fruto e cuja folhas não murcham”.

[Gentilmente cedido por Moacir Willmondes, do Entrelinhas do Will.]