sábado, 24 de novembro de 2012

Em família...


A Bíblia em um ano:
1Coríntios 1-5


Imagem: Google.


“E agora uma palavra de vocês, pais. Não vivam repreendendo e irritando seus filhos, deixando-os irados e rancorosos. Antes, eduquem-nos com a disciplina amorosa que o próprio Senhor aprova, com recomendações e conselhos piedosos.”
Efésios 6.4


Certo pai de três crianças contou-me hoje que trabalha de segundas às sextas-feiras nos turnos da manhã, tarde e noite, e aos sábados o dia inteiro, além das manhãs de domingo, acumulando, ao todo, seis(!) empregos como professor.

Coff, coff, coff... Eu não lhe perguntei nada nesse sentido, mas fiquei interessada por compreender o que leva um pai de família a acumular tantas ocupações extrafamiliares assim...

Creio que os motivos sejam os mais diversos e, de fato, existam. Mas cá, com meus botões, penso que nossa sociedade seja cruel demais, permitindo que nós, reles mortais de vidas tão curtas e imprevisíveis, cometamos tantos infortúnios contra nós mesmos, quando nos permite ocupar-nos tanto com nossos empregos e outros afazeres (rentáveis ou não), em detrimento do nosso tempo gasto com coisas pequenas, simples e realmente importantes, como os momentos com a família.

Se eu fosse o líder máximo da nossa sociedade, ou se eu fosse Deus, proibiria que os pais acumulassem tantas obrigações e se mantivessem tão ausentes, tão distantes dos filhos. Proibira os finais de semana sem almoço em família ao redor de uma mesa, ou sentados em círculo no chão (a mesa é só um detalhe estético).

Ah, na sala onde estivessem reunidos os filhos e os pais, a televisão não poderia estar. Ela é um Mumm-Ra suscitado por botões, um tiranossauro-rex de listrinhas coloridas, que sutilmente abocanha momentos sublimes de comunhão em família e devora os melhores valores de uma sociedade inteira.

Se eu fosse uma grande autoridade ou mesmo Deus, decretaria a obrigatoriedade dos passeios periódicos em família aos parques, zoológicos, às praças, restaurantes ou mesmo à pastelaria da rodoviária.

Baixaria uma portaria determinando que as mães deveriam fazer bolos de chocolate (ou de outro sabor, em favor dos alérgicos, como eu), em parceria com suas filhas. E se acontecesse uma guerrilha de farinha de trigo na cozinha, numa brincadeira amorosa entre mãe e filha, estrelinhas extras seriam creditadas nas contas dos pais no Céu.

E o mesmo decreto também decidiria que os pais deveriam brincar de construir e soltar pipas com seus filhos. Fim de tarde ou manhã de domingo, skate, carrinho de rolimã, bolinhas de sabão, banho de mangueira no cachorro, toca do coelho. Tudo em família, em unidade, em alegre harmonia.

Enfim, se eu fosse Deus, proibira as famílias de deixarem de viver os momentos pequenos ou simples da vida, porque são eles que dão sentido a toda a nossa existência. E são eles que calçam nossas estradas até o cume das nossas grandes realizações.

Quanto aos filhos sem pais e quanto às famílias desfeitas, baixaria decretos para que ocorresse o mesmo entre as crianças e os seus responsáveis. Afinal, mãe não é somente quem gera, mas principalmente quem ama e cuida. E pai não é somente quem dá vida à criança, mas principalmente quem a ajuda a vivê-la dia a dia, no caminho das realizações, do respeito e do amor.

E os conflitos? Ora, certamente eles existiriam, pois onde estão seres humanos, ali estão os conflitos. Mas seriam resolvidos com mansidão, paciência, equilíbrio, amor. Ficaria proibido aos pais agirem com violência contra seus filhos, e aos filhos agirem com desrespeito de qualquer natureza contra seus pais...

Mas eu não sou Deus. E não posso obrigar o mundo a ser do meu jeito. (Que grande livramento para todos!)

E se o próprio Criador respeita nossas escolhas, não há nada que possa justificar haver em mim atitude contrária a essa. Além do mais, a obrigatoriedade tiraria a magia, o encanto das relações familiares. Esse tipo de coisa não se vive por imposição, mas por desejo, por convicção e por amor.

Bem, embora tenha conseguido pensar numa porção de motivos que mantêm tantas famílias diferentes daquilo que deveria ser cada uma delas, a única conclusão que consegui chegar é que nenhum deles é suficiente para justificar a ausência excessiva dos pais em relação ao lar. Mas todos eles contribuem grandemente para manter as famílias desfiguradas como anda a maioria delas.