quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Entretanto, amou-lhe...

A Bíblia em um ano:
2Coríntios 1-5

Imagem: The Return of the Prodigal Son, by Bartolomé Esteban Murillo (1670-74).


O filho lhe disse: “Pai, pequei contra o céu e contra ti. Não sou mais digno de ser chamado teu filho”. Mas o pai disse aos seus servos: “Depressa! Tragam a melhor roupa e vistam nele. Coloquem um anel em seu dedo e calçados em seus pés. Tragam o novilho gordo e matem-no. Vamos fazer uma festa e alegrar-nos. Pois este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado”. E começaram a festejar o seu regresso.
Lucas 15.21-24


Quase sempre vemos a história do filho pródigo sendo ensinada com ênfase na pessoa do filho que regressou ao lar e confessou seu erro, após ter deixado sua família e desperdiçado todos os seus bens vivendo irresponsavelmente (Lucas 15.13-14). Esse filho pródigo representaria a pessoa que deixou a família de Deus e aventurou-se no mundo longe do seu Pai Celeste e dos seus irmãos em Cristo.

Com algumas variações, a mesma história é explanada à luz do comportamento birrento do filho que ficou em casa e remoeu-se por dentro, quando no regresso do irmão. Tal comportamento assemelha-se ao dos cristãos que possuem tal título, mas não usufruem dos dons e direitos que ele lhes atribui.

Há, contudo, uma terceira – porém não-contraditória – interpretação sobre essa parábola. É a história de amor incondicional do pai por seu filho. O amor que concordou quando o filho reconheceu seu erro, mas foi incapaz de acusá-lo, de julgá-lo, de condená-lo. Entretanto, amou-lhe.

Quando o pródigo voltou ao seu antigo lar, o pai teve todos os motivos para lançar em sua face as suas culpas e causar-lhe grande constrangimento. Poderia, sim, recebê-lo com amor, mas fosse como um de nós, certamente primeiro lhe daria um belo sermão, daqueles de fazer doer a alma.

Porém, não o fez. Como o pai da parábola do filho pródigo representa Deus, ele não poderia agir como um de nós. E diante da confissão arrependida de um filho despedaçado por dentro, o pai simplesmente deu vazão ao seu amor, que é incomparavelmente maior que a tristeza causada por quaisquer erros que seu filho pudesse cometer.

O silêncio de Deus aqui, representado no comportamento do pai ao ouvir seu filho reconhecendo seu grande erro, fala tanto quanto ou até mais que Suas palavras. Se o pai tivesse brigado com o filho em resposta à sua confissão, o filho conheceria os limites do amor do seu pai. Mas seu silêncio e – mais impressionante ainda – sua atitude de convocar uma festa sem nada responder ao filho, estendeu os limites do amor do pai ao infinito e ao incompreensível.

Correção: Sem nada responder com palavras. Porque sua atitude de convocar uma festa para expressar seu perdão foi a resposta mais criativa, forte e agradável que um pai poderia dar ao seu filho nessa situação.

Quanto será e por quanto tempo será que o coração do pródigo meditou sobre essa atitude? Sobre o brilho daqueles olhos lhe consumindo de infinito amor? Sobre o abraço mais carinhoso e sincero que já recebeu na vida?

Um “Por quê?” sem resposta deve ter lhe acompanhado por todo o resto da sua vida. Um “Como?” misterioso deve ter lhe incomodado desde então. Mas uma certeza obviamente brotou naquele instante em sua alma, e essa certamente ninguém mais conseguiu arrancá-la de lá: A certeza que seu pai era a pessoa mais fantástica, adorável e digna de todo o mundo.

Essa é a certeza que temos quando nos aproximamos do Senhor Deus para confessar nossos pecados, admitir nossas culpas, reconhecer nossos erros. Manso e cheio de amor, Ele nos recebe, nos ouve e nos responde com uma linda obra de restauração. Vestindo em nós Sua túnica de amor. Calçando nossos pés com Sua Palavra, para que possamos trilhar pelo caminho da verdade sem vacilar. E nos dando um anel, o anel de honra. A honra de sermos filhos do Rei. A honra de exercermos Sua autoridade celeste na terra.

Quanto ao cordeiro?

Bem, o Cordeiro já foi morto. Foi sacrificado por nós. Morreu no alto de um maldito madeiro há quase dois mil anos e fez-Se maldito também para nos tornar benditos do Pai.

Deu-Se, sofreu e morreu, para que da perdição fôssemos encontrados, e da morte fôssemos regenerados Nele. Assim, temos o direito de também regressarmos ao Lar. E os Céus fazem festa.

Por causa disso, o Seu amor concorda conosco quando nós reconhecemos nossos erros, mas é incapaz de acusar-nos, de julgar-nos, de condenar-nos. Entretanto, nos ama.