quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Fragmentos da Rocha


A Bíblia em um ano:
Romanos 9-11


Imagem: Imotion Imagens.

O Senhor Deus diz: ‘Escutem, os que procuram a salvação, os que pedem a Minha ajuda! Lembrem da rocha da qual foram cortados, da pedreira de onde foram tirados’.
Isaías 51.1

  
Às vezes, uma dor profunda abraça meu coração por alguns instantes. É só por alguns instantes, mas é um abraço doloroso demais. Aperta com tanta intensidade que faz doer a alma.

Os motivos disso variam e se somam. Um deles, posso contar, tem origem na diminuição do meu eu diante de algumas circunstâncias desafiadoras que a vida nos impõe. Começa com o inimigo das nossas almas me subjugando. Passa pela cobrança que faço de mim mesma e pelos complexos que eu mesma alimentei por muitos anos. Termina nas provações a que Deus tem me submetido.

A parte que cabe ao maligno fazer, eu aprendi renunciar. Há algum tempo aprendi a trancar a porta da caixa de correios da minha alma para os carteiros do inferno que sempre traziam correspondências de lá: Cartas de acusação e de rebaixamento, escritas com a tinta do desdém, no papel da aversão daquele que subestima a presença do Espírito Santo em mim. E aprendi a fazer isso com jejum, oração e Bíblia.

A parte que me cabe, eu estou aprendendo a superar, principalmente pela presença de algumas pessoas que cruzaram meu caminho e seguiram alguns passos comigo, enviadas por Deus para me abençoar. A maioria delas já passou, mas uma em especial, que conheci há alguns meses, ainda está por aqui – um pouco distante, infelizmente, mas perto o suficiente para, de longe, me ajudar a crescer.

Os complexos de inferioridade eu deixei para trás. Aprendi com alguns anjos postos em meu caminho que eu também tenho asas e posso voar. Vi que aqueles complexos eram indevidos. Eram sacos de batatas podres que, além de pesados, tornavam meus dias desagradáveis pelo fedor da autocomiseração. Joguei fora as batatas.

A mania de perfeição que eu tinha, já não anda tão perfeita assim. (Aprendi que é necessária um pouco de imperfeição, vez em quando, para que a vida seja perfeita, e estou me adaptando a isso.)

A cobrança de mim mesma também diminuiu um pouco, depois que percebi que o próprio Deus não cobra de mim tanto quanto eu mesma exigia. Vi recentemente sobre isso, inclusive, no livro que estou terminando de ler (e que recomendo). Posso compartilhar um trechinho? (Claro que posso, sim! Sou eu quem está escrevendo pra você.)

Olhe para o bebê recém-nascido. O que ele consegue fazer? Consegue andar? Consegue alimentar-se sozinho? Consegue cantar ou ler ou falar? Não, ainda não. Mas algum dia o conseguirá.
Crescer leva tempo. Mas será que os pais na sala de parto, têm vergonha do bebê? A mãe fica constrangida porque o bebê não consegue soletrar... porque o recém-nascido não consegue andar... porque o nenê não consegue fazer um discurso?
Claro que não. Os pais não ficam envergonhados; ficam orgulhosos. Sabem que o crescimento virá com o tempo. Deus também. “O Senhor é longânimo para convosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se” (2Pedro 3.9).
Em geral, Deus é mais paciente conosco do que nós próprios. Achamos que se caímos, não nascemos de novo. Se tropeçamos, não nos convertemos de verdade. Se temos os velhos desejos, com certeza não somos nova criação.
Se você fica angustiado com isso, por favor, lembre-se: “Aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1.6).

[LUCADO, Max. Nossa escolha. Ouvindo Deus na tormenta. 21ª Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. Pág. 152-153, trecho.]

Apesar da simplicidade e da clareza dessas afirmações, nós continuamos cobramos demais de nós mesmos. Sempre fazemos exigências a nosso respeito às quais nem sempre conseguimos responder. E quando isso acontece, nos decepcionamos tanto conosco...

E o pior: transferimos nossa autoinsatisfação ao Senhor, como se Ele também estivesse tão decepcionado, a ponto de diminuir o Seu amor por nós. Mas um dos versículos mais expressivos e poderosos da Bíblia, que é o Salmo 18.19: “Me livrou do perigo e me salvou porque me ama.”

O que Deus tem feito por nós, não é porque nós merecemos, mas porque precisamos. E nós temos de aprender e apreender isso. Ele sabe que nem sempre conseguiremos fazer o bem que planejamos, assim como nem sempre evitaremos o mal que desaprovamos.

Como é bom saber que Deus não procura por santos, mas por pecadores arrependidos, não é? Como é maravilhoso saber que Ele não espera nos encontrar perfeitos no mundo, mas em vivendo no mundo e buscando a perfeição co Céu, absorvendo-a em nós a cada dia! (Hebreus 12.14; Mateus 5.48; 2Pedro 3.18; Marcos 2.17).

Porém, ainda existe uma terceira parte que causa-me certa angústia, algumas vezes. É a parte da provação do Senhor, que nem sempre está carregada de porquês explícitos. Essa, com certeza, é a que mais dói, porque muitas vezes nos leva a duvidarmos da fidelidade de Deus, mesmo sabendo que Ele não merece isso.

Há manhãs em que nossas almas despertam tão doloridas, que viver mais um dia se torna um grande martírio. (Por que você está me olhando desse jeito? O Evangelho nunca nos isentou do sofrimento.) Mas dias assim são propícios ao nosso crescimento enquanto pessoas, enquanto filhos de Deus, enquanto tudo aquilo a que nos dispomos ser.

São em dias assim que olhamos com mais cuidado para nossa essência, e compreendemos mais um pouco do dilema da nossa existência. Por um lado, percebemos com mais clareza o quanto somos criaturas pequenas, limitadas, frágeis e carentes de Deus. E, ao mesmo tempo, ouvimos da Sua Palavra: “Lembrem-se da rocha da qual foram cortados, da pedreira de onde foram tirados” (Isaías 51.1).

Então, aquela provação que, parece, não suportaremos, deixa de ser um peso molesto, quando admitimos que somos pedras, fragmentos da rocha, substâncias duras e compactas. Pedras extraídas de rochas suportam muito peso. São fortes. São pequenas, mas são fortes. E podem até causar grandes danos, se usadas de maneira imprópria. É importante saber disso, para que não duvidemos que o Senhor não deixa sermos tentados ou provados acima do que podemos suportar (1Coríntios 10.13). Nós podemos suportar!

Contudo, mesmo as pequenas pedras retiradas da rocha, embora sejam dotadas de certa resistência, podem ser destruídas. Não podemos nos esquecer disso. É por isso que a passagem bíblica em apreço não nos diz para lembramos de quem somos, embora indiretamente nos aponte isso, porque Deus sabe o quanto é importante para nós sabermos que temos uma origem e uma estrutura forte. À priori, a Palavra nos diz para lembramos da rocha da qual fomos cortados. Essa sim, a Rocha da nossa salvação, é indestrutível.

A dor da alma costuma passar quando nos abrimos para verdades assim. Porque elas não estão sendo ditas para massagear nosso ego, mas para nos lembrar alguns fatos que nós insistimos em esquecer quando em momentos ruins.