sábado, 10 de novembro de 2012

Os mesmos erros...


A Bíblia em um ano:
Atos 4-7


Levantando os olhos e vendo uma grade multidão que se aproximava, Jesus disse a Filipe: ‘Onde compraremos pão para esse povo comer?’ Fez essa pergunta apenas para pô-lo à prova, pois já tinha em mente o que ia fazer. Filipe Lhe respondeu: ‘Duzentos denários não comprariam pão suficiente para que cada um recebesse um pedaço!’ Outro discípulo, André, irmão de Simão Pedro, tomou a palavra: ‘Aqui está um rapaz com cinco pães de cevada e dois peixinhos, mas o que é isto para tanta gente?’
João 6.5-9


Imagem: Reflexo imperfeito, by Caetano Borges.
Gosto de estudar a ignorância e a incredulidade dos discípulos de Jesus para que eu possa ver a minha.

No afã de deixar bem claro para Jesus que a minha realidade está desenhada sobre a tábua das impossibilidades, assim como os discípulos, por vezes me vejo dando respostas patéticas ao Senhor.

Jesus havia perguntado a Filipe “onde” comprariam pão para alimentar a multidão. Filipe deveria indicar um lugar, não um valor. O Dono do ouro e da prata (Ageu 2.8) não precisa Se preocupar com valores. O Rei a quem pertence sabedoria, força, honra, poder, riqueza (Apocalipse 5.12) não precisa fazer conta de quantidades.

Mas nós pensamos que sim. Pensamos que o Deus que criou o Universo e mantém todos os seus sistemas – do mais simples ao mais extraordinariamente complexo – funcionando em perfeita harmonia, precise de uma calculadora e, por vezes, Se assusta  com os resultados, tendo assim de deixar de prover o que Seus filhos precisam.

Jesus havia perguntado a Filipe “onde”. Filipe deveria indicar apenas um lugar, e não fazer cálculos, como se o Mestre já não os tivesse feito antes. Se Jesus estava perguntando “onde”, é porque já tinha Se preparado. Já estava com os bolsos cheios. Ele já sabia da quantidade de pessoas e a equação quilo de alimento por pessoa já estava resolvida. Ele já tinha em mente tudo o que precisava ser feito para ir até o lugar certo e comprar o bendito alimento para todo aquele povo.

Mas nós pensamos que não. Confessamos com nossos lábios que o Senhor é o Dono da razão e sabe o que precisa ser feito, mas agimos como se Ele nunca pudesse ser capaz de fazê-lo.

Quando Ele nos pergunta sobre a solução que esperamos para nossas situações complicadas, em vez de Lhe darmos um nome, nós vamos fazer cálculos e tentar convencer ao Senhor que nossas causas são tão difíceis de serem resolvidas, que nem vale à pena sugerir um nome, na esperança de reverter as situações.

Jesus somente perguntou “onde”, e Filipe fez afirmações sem responder nada à pergunta de  Jesus.

Não é isso mesmo o que fazemos também? Nós olhamos nossas vidas e começamos a afirmar ao Deus do impossível que nada é possível à nosso respeito. Ele nos pergunta sobre um lugar, e nós respondemos com sentenças em vez de simplesmente citarmos um nome. O nome que Ele espera ouvir.

Quando André se aproxima de Jesus para Lhe dar uma resposta traz, em vez da informação, outra demonstração de incredulidade. Em vez de responder a Jesus um bendito nome, o discípulo já traz uma resposta pronta e insuficiente. Jesus não pediu aos discípulos para procurarem comida no meio da multidão, mas tão somente fez uma pergunta que exigia apenas um nome como resposta. Só isso.

Jesus sabia que a multidão não tinha o que comer, e sabia que, ainda que alguns tivessem – como no caso do menino que tinha dois peixes e cinco pães – somente seria suficiente para alguns, para quatro ou cinco homens, no máximo, comerem.

Por isso Jesus queria ouvir dos discípulos um nome. O nome de um lugar. O lugar onde se pode comprar “vinho e leite sem dinheiro e sem custo”, e se deliciar “com a mais fina refeição” (Isaías 55.1-2). O lugar onde o pão é da melhor qualidade e servido de graça para quem quer se fartar (João 6.37).

Mas André, na verdade, é apenas o nosso representante. Nós também fazemos assim. Se tentamos responder a Jesus para indicar o lugar cujo nome Ele requereu, nós indicamos o lugar errado. Indicamos o lugar onde o alimento é insuficiente. Indicamos soluções humanas, pessoas, títulos, recursos materiais. Indicamos soluções precárias, falidas.

E o mais curioso: nos sentamos em cima desse nosso banquinho da fé, satisfeitos com os nossos argumentos, enquanto Jesus fica parado diante de nós, esperando que subamos a escada e cheguemos a lugares mais altos da nossa confiança Nele e naquilo que Ele já demonstrou ser e ter para nós.

Apontamos valores impossíveis e duvidamos. Fazemos cálculos absurdos e recuamos.  Afirmamos coisas sobre as quais Deus ainda está calado, e sofremos. Buscamos socorro em lugares errados e desfalecemos.

Ainda bem que Jesus não Se permite agir por impulsos como nós, não é? Ainda bem que Ele não age segundo a nossa medida de fé!

“Quando os discípulos não oraram, Jesus orou. Quando os discípulos não viram a Deus, Jesus buscou a Deus. Quando os discípulos estavam fracos, Jesus foi forte. Quando os discípulos não tinham fé, Jesus teve fé. Ele agradeceu a Deus. [...] E em vez de punir os discípulos, Ele os emprega. Lá vão eles, distribuindo o pão que não pediram, desfrutando a resposta da oração que nem fizeram. Se Jesus tivesse agido de acordo com a fé dos discípulos, as multidões teriam ficado sem comida. Mas Ele não fez isso, e não faz isso. Deus é fiel a nós, mesmo quando O esquecemos. As bênçãos de Deus são distribuídas de acordo com as riquezas da Sua graça, não de acordo com a profundidade da nossa fé.” [1]

Por isso, mesmo que nossas respostas sejam absurdas, imbecis ou dignas de pena, o Senhor Jesus prova Sua bondade, paciência e amor para conosco, e nos abençoa grandemente.

A resposta que precisamos Lhe dar é a mesma que os discípulos deveriam ter dado. Quando Jesus perguntou “Onde compraremos pão para esse povo comer?”, tudo o que Filipe deveria ter respondido era: “Em Ti, Senhor. Tu és o pão da vida.”

O quê? Ouvi você dizendo que os discípulos ainda não tinham ouvido de Jesus esse discurso sobre ser Ele o pão da vida?

Ah, sim, é verdade. Só depois da primeira multiplicação dos peixes e dos pães é que eles ouviram de Jesus que Ele é o pão da vida. E foi um duro sermão (João 6.25-70). Porém, eles já tinham presenciados outros milagres. O poder e a inteligência do Senhor não era para ser subestimada como foi com aquelas respostas dos discípulos, e como tem sido com as nossas respostas também.

Contudo, um ponto a mais em favor dos discípulos!

Porque eles, pelo menos, não sabiam da história do Pão da Vida. Mas nós já sabemos. Já conhecemos todo o sermão do Senhor e também a história de como aqueles seguidores de Jesus agiram com incredulidade e ignorância. Já sabemos como devemos agir diferente deles e quais respostas dar ao Senhor, porque aprendemos a identificar tudo o que os discípulos fizeram de errado. Mas curiosamente continuamos cometendo os mesmos erros.

No curso desse nosso imenso aprendizado com os nossos pais espirituais  os apóstolos de Jesus –, o espelho das nossas vidas deveria refletir muito mais do que vemos hoje. Deveria reproduzir não somente os erros dos discípulos, mas principalmente a sua extraordinária transformação.


[LUCADO, Max. Sua voz. In Ouvindo Deus na tormenta. 21ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. Pág. 129.]