quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Que amor é esse?

Imagem: Google.

“Então, Jesus contou esta parábola: Se algum de vocês tem cem ovelhas e perde uma, por acaso não vai procurá-la? Assim, deixa no campo as outras noventa e nove e vai procurar a ovelha perdida até achá-la. Quando a encontra, fica muito contente e volta com ela nos ombros. Chegando à sua casa, chama os amigos e vizinhos e diz: Alegrem-se comigo, porque achei a minha ovelha perdida. Pois Eu lhes digo que assim também vai haver mais alegria no Céu por um pecador que se arrepende dos seus pecados do que por noventa e nove pessoas boas que não precisam se arrepender.”
Lucas 15.3-7


Atribui-se a São João Maria Vianney a frase que diz que “não é o pecador que vem a Deus para lhe pedir perdão, mas é o próprio Deus que corre atrás do pecador e que o faz retornar.” Esse amor extravagante de Deus por cada um de nós é um sentimento realmente excepcional. E a cada dia que passa, eu fico mais impressionada com a imensidão do amor do Senhor por uma ovelha perdida.

Penso em Deus Santo, assentado sobre um trono cuja glória ofuscaria os olhos de qualquer mortal. Penso em Sua santidade, Seu esplendor, Sua nobreza: servido por anjos, habitando um palácio decorado com pedras preciosas, ruas de ouro sem lama e sem poeira. Perfeição, paraíso, a magnitude do extraordinário e do belo.

Mas só penso. Porque o que vejo, de fato, é um cenário de sujeira, fedor, um cocho forrado com panos velhos, em meio a animais no fundo de uma estrebaria qualquer, e um menino deitado dentro dele. Vejo um homem maltratado pela vida, mãos calejadas, sandálias calçando Seus pés empoeirados e cansados de percorrer as ruas de cascalho e areia de Nazaré.

Vejo um homem sendo humilhado como um desvalido, açoitado como um animal, desprezado como um bandido, acusado como um marginal, condenado como o pior dos criminosos. É assim que vejo o Senhor, Deus e Rei do universo. O Criador dos céus, da terra e de tudo o que neles há.

Não se parece nada com quem Ele é e com o que realmente Ele merece ter, não é? Pela nossa lógica, um Deus como o Altíssimo Senhor não merecia absolutamente nada disso, nem mesmo ser privado do Seu trono por um dia sequer. Mas foi – por quase trinta e quatro anos. E não foi por imposição, nem por violência, não por interferência de terceiros. Mas por amor. Unicamente por amor.

Um amor que eu e você provavelmente jamais conseguiremos compreender. Um amor inexplicável, capaz de abrir mão de todo o Seu esplendor voluntariamente e habitar como um dos menores dentre os pecadores.

Na parábola das cem ovelhas (Lucas 15.1-7), Jesus tenta explicar de relance como se processa esse sentimento tão nobre e intenso no coração de Deus.

Por algum motivo, que não cabe aqui julgar qual foi, o pastor perdeu uma de suas cem ovelhas. Mas a Bíblia não diz que ela era a mais importante do rebanho. Não diz que ela tivesse alguma propriedade que a tornasse especial acima das outras. Não. Era apenas uma ovelha. Uma qualquer dentre aquelas cem.

E aqui começa um grande favor de Deus tipificado por um exemplo tão simples: o Senhor não faz acepção de pessoas. Não tem preferidos. Seja o maior e mais cobiçado acionista de uma grande empresa multinacional, ou o gari solitário, que varre as ruas; seja o filho de um rei ou o menino barrigudo e catarrento brincando no beco de uma favela; seja o líder religioso mais íntegro nos seus trabalhos ou o criminoso no corredor da morte. Todos têm o mesmo valor e recebem o mesmo amor de Deus, o Senhor. Não há distinção (Romanos 2.11). Qualquer um que se desviar e se perder do rebanho, será procurado pelo Bom Pastor, e Ele fará isso incansavelmente, decididamente, valentemente.

O pastor que deixou as noventa e nove ovelhas no aprisco e foi atrás da uma que se desgarrou, provou por esse comportamento seu sentimento de cuidado e afeto para com seu bichinho. Certo modo, Ele sacrificou o rebanho inteiro com Sua ausência para ir atrás daquela que se afastou. Lobos, leões, serpentes, ladrões. Esses são alguns dos perigos que aquelas ovelhas corriam ali, longe do seu dono. Mas o pastor indubitavelmente decidiu correr esse risco para que nenhuma, nem uma ovelha sequer, morresse distante dele.

Quanto zelo, quanto amor há em Deus fazendo assim por Suas ovelhas... Ele chega a usar Seus servos e vai com muitos deles por um caminho de sacrifícios, de renúncias, de paciência e dedicação, em prol de alcançar uma vida que se afastou da Sua casa. Mas não abre mão daquela vida. Luta por ela, procura por ela, chama por seu nome, percorre valados, matagais, caminhos desérticos e pedregosos, até encontrá-la.

Às vezes, na sua busca obstinada, o Bom Pastor precisa parar na estrada. Precisa esperar para ouvir à Sua volta. Concentra-se na direção do vento e tenta sentir o cheiro da Sua ovelha. Emprega atenção especial aos sons, na ânsia de ouvir o menor dos gemidos. E logo que isso acontece, o Pastor Amado corre em direção à Sua pequena peluda.

E quando a encontra, não verifica se está doente ou machucada para levá-la de volta apenas se ainda for útil ao rebanho. Não. O pastor, quando encontra sua ovelha, fica muito contente e volta com ela em seus ombros, mesmo com todos aqueles carrapichos. Ele simplesmente a toma em seus braços e regressa.

Pela maneira como Jesus respondeu aos fariseus e mestres da Lei que O criticavam quando estava com cobradores de impostos e outras pessoas de má fama (Lucas 15.1-7), nós percebemos que o Senhor tem Se preocupado muito com a quantidade de pessoas machucadas dispersas pelo mundo, que têm sido excluídas do seio da igreja por serem avaliadas por ela segundo o que elas têm, não segundo o que de fato elas são. Suas Palavras expressam incômodo em como a igreja julga e condena um membro que se afastou, em vez de praticar o amor do Senhor e buscar incansável e ininterruptamente por essas ovelhas, até que a encontrem e a tragam de volta – precisamente como o próprio Jesus tem feito.  

Ele, mais do que ninguém, sabe o quanto custou-Lhe cada uma dessas vidas. Ele, mais do que ninguém, sabe o quanto elas são importantes para Si. E Ele, mais do que ninguém, lhes amou de maneira incomparável e insubstituível. Por isso Ele Se importa tanto em ir atrás de uma única que tenha se afastado do Seu rebanho. Por isso, Sua alegria é indizível, quando encontra essa pequena ovelha e a toma em seus ombros outra vez.

Que sensação de alívio – ela está viva!
Que alegria – o resgate foi cumprido com sucesso!
Que prazer – ela retornou para os Seus cuidados!

Que amor é esse, que faz Deus perder noites a fio, percorrendo a solidão das madrugadas em ruas, becos, bares, boates, prostíbulos, procurando por vidas perdidas? Que amor é esse, que faz com que Seu coração permaneça sorrindo, mesmo com o sangue das feridas na ovelha sujando suas vestes de Senhor e Rei, enquanto a leva de volta? Que amor é esse, que aumenta a intensidade do brilho do amor puro e verdadeiro nos olhos do Bom Pastor, cada vez que sente a respiração quente de sua ovelhinha cansada, débil e trêmula?

Eu não sei dizer como isso pode ser assim. Estamos acostumados a ver seres humanos jogando outros de nós fora – metafórica e literalmente também – e isso certa forma nos deixa duvidosos que alguém seja capaz de nos amar tanto.

Mas Deus ama.
Ama sem limites.
Ama sem critérios.
Ama, simplesmente.

E nós somente somos completos em nossas pequenas vidas, nós somente encontramos o verdadeiro sentido da vida, quando nos rendemos aos cuidados que esse amor perfeito gentilmente tenta nos conceder a cada instante.


Ovelha errante - Regina Mota (2001)