sábado, 23 de fevereiro de 2013

Muito além das aparências...


Imagem: Ultradownloads.



Os lábios que dizem a verdade permanecem para sempre, mas a língua mentirosa dura apenas um instante. O engano está no coração dos que maquinam o mal, mas a alegria está entre os que promovem a paz.
Provérbios 12:19-20


Fiquei muito lisonjeada quando, há alguns anos, um amigo presenteou-me com um buquê de flores do campo, e justificou o motivo pelo qual as escolheu pra mim. Disse que era uma comparação justa. Como uma flor do campo, por fora eu aparentava ser uma pessoa livre, resistente, e certo modo ríspida, mas por dentro tinha toda a essência de uma flor, com sua delicadeza, sensibilidade, perfume... E isso torna a flor do campo tão especial: ela não encanta pela sua aparência peculiar somente, mas principalmente pela sua beleza interior.

Por anos tenho remoído essas frases, buscando jamais me esquecer sobre o quanto é mais importante ser a ter, fazer a discursar, viver a apenas sonhar. Mas a gente nunca consegue ser tudo o que pretende ser, ou que deveria ser, não é?

Dentre tantos outros problemas por resolver, eu tenho um problema em especial que comumente se manifesta no meu expressar: Eu não sei lidar muito bem com palavras faladas. Com as escritas eu brinco. Com as faladas, me embanano.

Por isso, costumo dizer que sou melhor escrevendo do que conversando. É que escrevendo, eu posso rever as frases, apagar expressões indevidas ou fortes demais, refazer colocações de forma mais suave e gentil – embora você, que lê o que escrevo já há alguns anos, tenha percebido meu temperamento forte e determinado em quase tudo o que escrevo...

Falando, porém, vez e outra soo agressiva, embora essa rarissimamente seja minha intenção. É que não sou muito lapidada nas palavras, e esse meu jeito curto, objetivo e franco de me expressar, muitas vezes assusta as pessoas, principalmente num primeiro momento, onde a primeira impressão acontece...

E assusta não tanto pela precisão da resposta, mas pela sinceridade contida nela. Há muito tempo, aprendi – e aprendi das maneiras mais doloridas – que mentiras são ferrugens que destroem até o mais resistente dos metais. São cupins que danificam toda a estrutura e põem abaixo uma casa inteira. São os motivos das maiorias das desgraças das famílias. O fel que torna a vida amarga e (quase) insuportável.

Quem não tem o hábito de massagear o ego de ninguém, de inventar mentiras para ser agradável ou aceito, muitas vezes é mal visto, mal ouvido, mal interpretado, evitado. Mas em contrapartida, ninguém consegue ter mais paz na sua alma do que esse alguém.

Precisei ganhar muitas bofetadas da vida para aprender que mentiras, por menores que sejam, magoam, ferem, maltratam, humilham, excluem. E se isso é ruim demais para mim, para o outro pode ser ainda pior. Eu, pelo menos, sei até onde resisto e, então, utilizo uma estratégia de reação. Quanto ao outro, eu não sei qual é a sua capacidade de suportar. E pode ser que ele não suporte. Por isso, me esforço ao máximo para não fazer com ele o que também não quero para mim, por mais que isso me comprometa ou me cause danos.

A mentira foi o vinho que alegrou os corações de Ananias e Safira, e o veneno que os destruiu (Atos 5:1-11). Foi o brinquedo que divertiu Sansão e a arma que o escravizou até a morte (Juízes 16:4-31). Pode ser a corda que nos segura hoje e nos enforcará amanhã... Porque mentiras sempre vêm à tona. E sempre fazem isso causando um grande estrago na superfície, desde as profundezas.

Foi Jesus quem nos ensinou que a mentira caracteriza uma pessoa como filha do diabo (João 8.44). E isso deve ser suficientemente motivo de vergonha e arrependimento pra qualquer que diz ser filho de Deus e age como filho do diabo.

Falar a verdade muitas vezes dói, mas é necessário. Mentir muitas vezes alegra, mas é extremamente perigoso. Mesmo que dizer a verdade seja a saída mais difícil, o melhor é sempre passarmos por ela. Como já disse Martinho Lutero, “a paz, se possível, mas a verdade, a qualquer preço”.

Quem está acostumado a ser bajulado vai resmungar por causa da nossa franqueza. Quem está acostumado a viver de ilusões também. Mas, o que importa? A verdade deve mudar nossas vidas, e não nós mudarmos a verdade em mentiras, por melhores que sejam nossas intenções.

Sinceridade e fidelidade são palavras testificadas pela conduta (e não apenas nos discursos) de qualquer que experimentou o amor de Deus.

Num mundo de hostilidades, interesses e fingimento, em que as pessoas valem pelo que têm e não pelo que são, ser fiel e verdadeiro é ser como uma flor do campo, que embeleza e perfuma o lugar onde está plantada, mesmo que poucas pessoas a valorizem.

É ser raro e caro como uma joia encontrada nas areias da praia. Quem não sabe que é uma joia, isto é, quem julga pela aparência, quando muito, brinca um pouco com ela e depois joga fora. Geralmente, apenas ignora, resiste, evita, despreza, e até zomba.

Mas quem sabe que aparências não explicam nada direito sobre a grandeza do ser, perceber sinceridade no coração de uma pessoa e procurar mantê-la sempre por perto é algo mais valioso que ganhar sozinho na loteria. É ser feliz.