domingo, 3 de fevereiro de 2013

Músicas e músicas...

Imagem: Ultra Downloads.


“[...] Porque Ele faz com que o sol brilhe sobre os bons e sobre os maus e dá chuva tanto para os que fazem o bem como para os que fazem o mal.”
Mateus 5.45


Há muito tempo, desde que retornei ao Evangelho e me tornei uma cristã protestante de fato (porque nasci em berço evangélico, mas ainda menina, por motivos familiares, me afastei da Igreja, retornando somente aos dezenove anos de idade), fiz uma escolha de não mais ouvir músicas seculares. Os motivos eram vários.

O primeiro deles era a religiosidade que imperava em minha mente, alegando que qualquer música que não fosse direcionada para o Evangelho e para o seu Cristo tinha origem demoníaca e deveria ser rejeitada pelos cristãos.

Outro motivo, é que compreendi desde muito cedo que músicas eram uma grande paixão, estavam em minha alma quase como parte de mim, fui dotada com o dom de cantar, e se eu continuasse ouvindo músicas seculares, certamente não conseguiria me envolver quanto deveria com os louvores sacros, deixando de direcionar esse dom a serviço de um ministério.

Um terceiro motivo é que eu sentia estar traindo Deus quando cantava ou ouvia músicas não sacras. Queria (e a inda quero) que minha vida fosse exclusivamente voltada para Ele como o princípio de tudo. As demais coisas somente deveriam ser acrescidas por Ele, da Sua maneira e no Seu tempo (Mateus 6.33; Eclesiastes 3.1-8).

E há ainda outro motivo que posso citar, que é o fato de muitas músicas me remeterem a lugares e pessoas que fizeram parte de um tempo muito sofrido da minha vida, o qual eu não pretendo esquecer por se tratar da minha história, porém, não quero que me acompanhe e interfira em meu presente e futuro, pois o seu lugar é precisamente o passado.

Com o tempo, fui aprendendo pelas experiências que o próprio Deus me trouxe num processo intenso de transformação, e pela meditação diária sobre Sua Palavra, que a graça foi derramada sobre todos, e toda capacidade criativa, todo dom perfeito vem do Senhor (Tiago 1.17). A arte, a música, o dom de redigir, entre tantas outras habilidades, são presentes distribuídos por Deus aos homens, segundo Seus critérios (muitos dos quais desconhecemos), e nenhum desses dons é melhor que outro, mas sim e apenas diferentes, se encontrando e completando esse imenso mosaico da vida, nos seus mais diversos seguimentos, dando-lhe forma, som, cor, cheiro, sabor.

Infelizmente, muitos desses dons e habilidades são utilizados de forma a disseminar maldade, perversão, preconceitos. Músicas e arte, por exemplo, há que louvam a Deus em cada detalhe das composições. Há também as obras que não estão dirigidas ao Senhor mas também não contradizem Seus princípios, por cantarem e expressarem o belo, os sentimentos bons, desejos puros, bons ensinamentos, virtudes. Mas há uma terceira parte dessa produção que é imoral, é feia, má, agressiva, promíscua, irritante, errada. É a parte que contraria princípios e valores de bem elaborados durante toda uma geração – ou durante todas as gerações anteriores – e que sustentam com equilíbrio a existência e a convivência humana.

Mas não estenderei esse assunto. Quero falar especificamente sobre música, e sobre esse poder extraordinário ela exerce sobre nós...

Há alguns anos, por exigência da minha profissão, aprendi a utilizar algumas músicas seculares para trabalhar com meus alunos em sala de aula e dinamizar a aplicação dos conteúdos disciplinares. Mas é recente o fato de eu ter ouvido uma música secular espontaneamente.

Na verdade, eu tinha esquecido como a música tem poder de alcançar e agitar os mais profundos dos nossos sentimentos. Lembro de quando eu as ouvia em volume bastante alto, repetidas vezes, indescritivelmente decepcionada com a vida e com vontade de cometer algumas loucuras (não necessariamente suicídio – isso nunca foi um intento do meu coração). Nessa época eu andava bem longe de Cristo e não percebia um motivo razoável para eu estar aqui, neste mundo. E assim, me encerrava atrás da porta da minha existência vazia, na escuridão do meu mundo cheio de complicações, medos, dúvidas, perdas e desilusões.

Com o tempo, fui amadurecendo e criando uma estrutura espiritual que já não me permite ser seduzida pelas propostas que sutilmente suscitam dentro de nós, motivadas pela intensidade das notas, arranjos, vocais e letras harmoniosamente justapostos nas belíssimas canções seculares. Não se pode negar sobre esse poder que a música tem de alcançar nossas emoções e produzir nelas sensações de dor ou de prazer sem igual. E não me admira ver pessoas sofrendo mais do que deviam por suas intensas perdas, como se nunca mais pudessem ser felizes outra vez, quando, na verdade, estão alimentando suas dores com música.

Eu mesma já fiz isso muitas vezes. E por isso mesmo, em momentos de grandes decepções – com pessoas, principalmente – aprendi a ouvir louvores em vez de músicas seculares, e permitir que eles conduzam meu coração por caminhos de paz e esperança, de consolo e de orientação, em vez de permitir que canções seculares  lindas porém traiçoeiras  soprem as brasas incandescentes já ardentes dentro de mim e produzam as chamas impiedosas das lamentações e da insatisfação, que inevitavelmente me consumirão por dentro, provocando uma morte lenta e torturante que, parece, nunca se consumará.

Se por um lado a música tem o poder de libertar, de conduzir por caminhos da livre expressão e da superação de limites, por outro muito mais tem o poder de rapidamente aprisionar alguém em seus próprios sentimentos e dores, frustrações e sofrimentos.

Nossas emoções e sentimentos mais íntimos ficam expostos ao som de músicas. Por isso, antes de ouvi-las, façamos as escolhas certas. Não porque devamos escondê-los ou porque seja errado ouvir músicas seculares, mas sim porque queremos encaminhar nossas emoções e sentimentos pela via menos sofrível e mais segura. E esta, sem dúvidas, é aquela que nos leva à presença de Deus, onde há refrigério, consolo e esperança para nossos corações, por mais feridos que eles estejam.