quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Origens...

Imagem: Google.

Lembrem-se do Senhor, nosso Deus, pois é Ele quem lhes dá força para poderem conseguir riquezas. Vocês estão vendo que assim Ele está cumprindo a aliança feita por meio de juramento com os nossos antepassados.
Deuteronômio 8.18


Fazia dezoito anos, desde a última vez em que estive na escola onde me formei em Contabilidade. Desde que recebi meu diploma, não mais voltei àquele lugar, embora tenha retido em meu coração parte das poucas boas lembranças que trago da minha adolescência sofrida.

Estudar no Elefante Branco foi um desafio para mim, já desde a matrícula. Precisei passar uma noite fria e chuvosa às claras no pátio da escola, acompanhada do meu irmão caçula, para conseguir uma vaga na tão prestigiada escola – até hoje, uma referência entre os colégios públicos de Brasília.

Nesta tarde, já desde o caminho do ponto de ônibus até o colégio, muitas imagens até então arquivadas numa das gavetas mais distantes do meu ser, ressuscitavam e bailavam em minha mente, como se tudo tivesse acontecido semana passada.

O tempo passou tão rápido, que ao reviver aquelas lembranças, eu parecia ouvir as vozes dos meus colegas de classe. Parecia ver as expressões em seus rostinhos, ora sorrindo das bobagens que constantemente conversávamos, ora decepcionados com as notas inesperadas, ora chorando em confissões pessoais entre amigos, ora em desavenças (vez em quando os ânimos se alteravam por lá), ora flertando com alguém pelos corredores, ora sonhando com um futuro desconhecido que seria muito generoso com alguns de nós e extremamente rigoroso com os demais...

Observando as pilastras que eu também ajudei a pintar num projeto de arte inovador para a época, parecia sentir os mesmos cheiros vindos da lanchonete – ainda no mesmo lugar –, e sentir os mesmos sabores dos intervalos regados de Stiksy e Coca-Cola.

Os caminhos por onde fugíamos nos horários vagos unicamente para conversar, ainda pareciam ser os mesmos. O lugar à grama verde onde nos sentamos para o nosso último amigo oculto também. Parecia ser a mesma grama. Pareciam ser os mesmos bancos. Mas não eram... Cresceram demais, e precisaram ser cortadas. Tornaram-se obsoletos, e precisaram ser substituídos. Estragaram-se com o mau uso, e tiveram de ser refeitos. É o inevitável ciclo da vida.

Fui tomada da emoção de estar ali outra vez após dezoito anos e involuntariamente rever um pouco de quem eu era e do que fazia. Com os olhos marejados e um nó na garganta, me apresentei à secretária e tentei explicar-lhe o motivo de minha ida até lá.

Talvez, o documento que eu precisei requerer da minha antiga escola seja o pretexto que Deus usou para lembrar-me – e de forma tão intensa – o quanto é importante retornarmos às nossas raízes.

Esse é um exercício necessário para que a gratidão não se perca quando dias difíceis chegarem para nós. Temos uma tendência natural de esquecermos quem somos e o quanto fomos transformados e enriquecidos pelas experiências da vida no decorrer dos anos.

Ver uma foto “três por quatro” minha, daquela época, na documentação já amarelada, foi muito importante para me lembrar sobre coisas boas e grandes aprendizados, que a gente insiste em esquecer quando nossas almas são gravemente feridas e muitas valores parecem perder o sentido para nós.

Retornar às origens também é em muito necessário para fecharmos as portas do orgulho que tantas vezes nos faz valorizar a grandeza dos castelos invalidando a importância das pedras que, no oculto das suas belíssimas paredes, deram origem a toda a estrutura dos palácios e ainda lhes mantêm de pé.

José do Egito (Gênesis 37 a 50) é um desses exemplos extraordinários de pessoas que, embora com o coração ferido pelas agruras que da vida sofreram (Gênesis 42.24), não guardaram rancor do seu passado, nem deixaram de serem humildes, compreensivas e compassivas. E, no caso de José, principalmente depois que se tornou governador. Ao contrário, sua fala expressa reconhecimento e gratidão a Deus quanto a tudo o que José foi, o que deixou de ser e o que se tornou:

“Agora, não fiquem tristes nem aborrecidos com vocês mesmos por terem me vendido a fim de ser trazido para cá. Foi para salvar vidas que Deus me enviou na frente de vocês. Já houve dois anos de fome no mundo, e ainda haverá mais cinco anos em que ninguém vai preparar a terra, nem colher. Deus me enviou na frente de vocês a fim de que Ele, de um modo maravilhoso, salvasse a vida de vocês aqui neste país e garantisse que teriam descendentes. Portanto, não foram vocês que me mandaram para cá, mas foi Deus. Ele me pôs como o mais alto ministro do rei. Eu tomo conta do palácio dele e sou o governador de todo o Egito.” (Gênesis 45:5-8)

Saí caminhando lentamente pelo portão principal daquela grande escola, debaixo de um sereno suave que se manteve após a chuva desta tarde, ainda vivendo em minha mente relances de momentos do passado e sentindo cócegas no meu coração. Sutilmente sorri passando por debaixo das árvores em cujas sombras me assentei por dois anos intensos, na companhia de pessoas adoráveis que já não estão comigo no presente, mas que também contribuíram para que ele fosse o que é.

Ergui a cabeça, olhando firmemente para a saída onde a vida – a minha vida – continua e o futuro me espera, consciente que ele será bem melhor agora, depois da interessante e necessária experiência de parar por alguns instantes e retomar minhas origens, reconhecendo quem de fato sou.

Se não fizermos isso – retornar às origens com a mesma frequência que o sol renasce a cada manhã sobre nós – o mundo nos fará descarrilar. Ele nos levará por horizontes onde Deus não está. O mundo e seus ardis tirarão de nós os princípios da graça e da gratidão ao Senhor, e mudarão a motivação maior de pertencermos a Deus em qualquer circunstância, criando em nós um interesse pessoal de exercermos o nosso próprio senhorio sobre nós mesmos. Às vezes, o passo mais avançado que damos é precisamente aquele que nos faz regressar um pouco.

Talvez, a atual conjuntura das nossas vidas seja um meio que o Senhor está usando para nos alertar e fazer olhar com maior reconhecimento e alegria para o lugar das nossas origens. Nós teremos maior segurança para caminharmos rumo ao futuro se soubermos dar importância aos feitos do Senhor no nosso passado e no nosso presente.

E então, finalmente poderemos seguir pelos portões, de cabeça erguida e olhando firmemente para o amanhã. Pois a vida continua, e nós devemos prosseguir, convictos do quanto crescemos, do que hoje somos e do que realmente temos em Deus.