quarta-feira, 6 de março de 2013

Em dias escuros...


“Ouve a minha oração; escuta o meu grito pedindo socorro. [...] Sou como aqueles que estão para morrer; já perdi todas as minhas forças. Estou abandonado no meio dos mortos; sou como os soldados mortos jogados nas covas; sou como aqueles que foram completamente esquecidos por Ti e que não têm mais a Tua proteção. [...] Tu fizeste com que meus queridos e meus vizinhos me abandonassem, e agora tenho como companhia a escuridão.”
Salmos 88.2,4,5,18


Imagem: Victor Melo, in 1000Imagens.com.
Pela fé nas promessas do Senhor e pela tenacidade nos princípios que Ele nos ensinou, os filhos de Deus aprendem a superar todo tipo de adversidade. Mas o distanciamento e/ou o silêncio do Pai é algo que está além de qualquer recurso capaz de manter nosso equilíbrio espiritual (e muitas vezes mental, também).

O distanciamento do Senhor é algo insuportável para os filhos de Deus. Deixar de ouvi-Lo é perder-se do caminho iluminado e protegido. Deixar de vê-Lo atuando em nossa caminhada é perder toda a motivação e forças para prosseguir.

E Deus, melhor do que ninguém, sabe que isso é assim. Por isso, Ele jamais nos abandona. Contudo, muitas vezes Deus Se cala e, noutras tantas, não nos permite enxergar Seu agir. É nesses momentos que nossa fé é levada aos limites dos extremos, e se não a exercitarmos permanentemente, qualquer vacilo será uma brecha de tamanho suficiente para que a mão do maligno se introduza em nossas almas e acenda o pavio da bomba do desespero.

O Salmo 88, de Hemã, e que é considerado o mais triste salmo da Bíblia, demonstra pelas palavras do poeta ezraíta um pouco dessa angústia de sentir-se abandonado por Deus. Contudo, demonstra também a grandeza desse equilíbrio em permanecer confiando e buscando ao Senhor mesmo quando essa sensação de afastamento do Eterno nos sobrevier, com a certeza que Ele, o Senhor, continua fiel.

O homem lamurioso confessa a aflição de sentir-se sozinho no mundo, questiona com o Senhor sobre o seu estado presente e futuro – relacionando este com a morte –, atribui ao Senhor todo o seu sofrimento, mas permanece honrando a Deus com os seus lábios e com o seu coração. Chega a comparar-se com o soldado que, de tão ferido, e à beira da morte porém ainda vivo, é lançado na vala com os demais já mortos, uma vez que os outros que ainda permanecem em combate já lhe tem por caso perdido e fardo pesado demais para que alguém insista por sua vida. E mesmo assim, aquele soldado, agonizando sobre um colchão de corpos de combatentes mortos, ainda reúne forças para reconhecer quem é Deus e o quanto Ele é importante para nós.

É interessante como isso contradiz, entre outras, duas teorias absurdas sobre o modus vivendi do cristão à luz do Evangelho nos padrões hodiernos.

Primeiro, lemos pelos versos deste salmo (e em toda a Bíblia, na verdade) que os filhos de Deus não estão livres de sofrer, mas que quando sofrem não estão sendo fantoches nas mãos de satanás. O maligno somente toca onde, como e quando Deus permite. O diabo e seus demônios não têm poder para agir aleatoriamente na vida de um filho de Deus se este se mantiver sob total dependência do seu Senhor (Jó 1.12, 2.6; Isaías 37.33-35; Salmo 91.9-16; 1Tessalonicenses 3.3).

O sofrimento é um personal trainer que Deus requisita sempre que necessário para tratar-nos espiritualmente e condicionar-nos a superarmos limites. Não para nos destruir.

Charles Haddon Spurgeon (1834-1892), intitulado “O príncipe dos pregadores” e “O último dos puritanos”, foi um dos servos mais ilustres do Reino de Deus no trabalho evangelístico mundial. Contudo, acometido de grandes crises depressivas, muitas vezes necessitou ser, literalmente, carregado por obreiros, de sua casa até a Igreja por ele pastoreada, para que pudesse ministrar a Palavra nos cultos.

Martinho Lutero (1486-1546), a figura central da Reforma Protestante (1517), também era tão entristecido e vivia em meio a tantos combates que, por vezes, conforme relatam diversas biografias, em intensa depressão, recusava-se a levantar-se da cama ao acordar pela manhã.

John  Bunyan (1628-1688), autor de “O Peregrino” (1678), a alegoria cristã mais conhecida de todos os tempos e também o livro cristão mais lido no mundo após a Bíblia , compôs essa obra baseando-se nas suas experiências pessoais de intenso sofrimento e persistência em suportá-lo com a graça de Deus, visando a vida eterna.

Por esses e tantos outros exemplos, como os de Paulo de Tarso e do próprio Jó, detectamos que nenhum ser humano, do mais alto executivo ao menor dos mendigos, está isento de sofrer. A diferença está em como cada um de nós enfrenta situações assim. Alguns escolhem apoiar-se em Deus, e são bem aventurados. Outros – a grande maioria –, preferem ir sozinhos. E quase sempre não têm um final aprazível.

Em segundo lugar, os verdadeiros filhos de Deus amam e buscam ao Senhor pelo que Ele é, e não pelas propostas que Ele nos fez, tampouco pelas coisas que Ele pode nos dar. Não vemos no Salmo 88 e nem em nenhuma parte da Bíblia a fé sendo usada como uma moeda de troca. Não vemos o salmista negociando uma bênção com Deus. Ao contrário. Em vez de exigir, ele oferece ao Senhor seu sincero reconhecimento. Hemã atribui ao Senhor a responsabilidade por tudo o que de mal está lhe acontecendo, mas não retira nenhum atributo do Senhor. Antes, Lhe exalta e entroniza no lugar de honra que Lhe é devido. E comportamentos assim atraem ao Senhor.

Certa vez, em Malaquias 1.2a, Deus (novamente) declarou Seu amor pelo Seu povo. Mas os israelitas não acreditavam nesse amor do Senhor, pois eles eram um povo sofredor, submetido à opressão política e econômica, em tempo de grande desemprego, aglomerando muitos órfãos e viúvas por causa das guerras. Tempos esses de incertezas que induzem o povo a abandonar a fé e o serviço religioso. Desconfiados, os israelitas questionam ao Senhor sobre como Ele amava aquela nação, se lhe permitia todo tipo de sofrimento. (Malaquias 1.2b)

A nação de Israel na sua totalidade e na maneira como se mantivera ao longo dos séculos, era na verdade um grande milagre do amor de Deus. Mas para o povo, a prova do amor do Senhor somente se veria pela boa condição financeira, pela segurança física, pela saúde, pela prosperidade... A nação de Israel media o amor de Deus pela condição material que Ele dá aos homens. (Toda a semelhança com a teologia da prosperidade pregada em nossos dias não é mera coincidência. É a continuidade histórico-cultural do apego do homem às coisas terrenas.)

Deus, num “bate-boca santo” e com uma santa paciência para com aquele povo relativamente cínico, respondia aos seus questionamentos, ensinando-lhe sobre princípios do Seu amor, que não lida com o homem como nosso amor lida. E a resposta do Senhor foi afirmar que, embora não tivesse de fazer nenhuma escolha – uma vez que o mundo preferiu viver em pecado e distante do seu Criador, em perversão e desobediência – Deus escolheu Jacó e não Esaú, embora este fosse o primogênito e herdeiro legal da bênção da primogenitura. Isso significa que o Senhor separou para Si os filhos de Abraão, isto é, as doze tribos oriundas da linhagem Abraão-Isaque-Jacó, dentre todas as nações da terra (Malaquias 1.2c-5). Tratava-se de um povo pequeno, obscuro, esquecido pela História em um lugar qualquer da Palestina, mas escolhido pelo Criador do universo para firmar com Ele uma aliança eterna e se tornar o berço do Salvador do mundo.

O alvo de Deus ao dizer que amava Israel era despertar aquele povo para adorá-Lo em meio à desesperança. Pois é essa consciência do amor fiel do Senhor para conosco que nos motiva a continuar mesmo em contrariedades que marcam a nossa vida. O povo, contudo, não cria, porque estava constantemente debaixo de opressão, problemas financeiros, dificuldades políticas, incertezas quanto ao futuro por causa das ameaçados pelas nações vizinhas. E os israelitas precisavam ouvir essas palavras motivadoras do Deus que é Poderoso para interferir nas suas vidas. Contudo, ao ouvirem Deus dizer que lhes amava, os israelitas questionavam a fidelidade de Deus e do Seu amor. Isso era resultado da dureza dos seus corações.

A resposta de Deus explicou o Seu amor através da Sua escolha soberana. Sua prova de amor foi ter escolhido um povo que, por ser pecador, merecia a ira divina, a condenação eterna. E o escolheu para perdoá-lo, justificá-lo, erguê-lo no mundo em santidade, e salvá-lo eternamente. A prova do amor de Deus não se encontra nas bênçãos materiais, mas no fato de que Ele nos ama e escolheu nos salvar (Romanos 5.8).

Por isso, os filhos de Deus conseguem manter gratidão e paz nos seus corações, quando mesmo em dificuldades neste mundo observável, espiritualmente reconhecem quanta graça Deus tem derramado misericordiosamente sobre nós.

Hamã, o salmista, deixou claro que, mesmo diante dos seus conflitos, ele continuava clamando e buscando ao Senhor, porque ele cria que Deus estava além de todos os seus infortúnios. Aquilo que parecia ausência de Deus, na verdade, era uma prova à sua fé.

E tendo se mantido fiel ao Senhor mesmo diante do Seu silêncio, a fé de Hamã foi aprovada e registrada nos anais da História para servir de exemplo e motivação a nós, quando a sua e a minha fé oscila e parece se perder na solidão e na dor dos dias escuros...