segunda-feira, 3 de junho de 2013

Como se não houvesse amanhã...

Imagem: Google.


“Então entendi que nesta vida tudo o que a pessoa pode fazer 
é procurar ser feliz e viver o melhor que puder.”
Eclesiastes 3.12


Às vezes, na solitude do meu quarto ou num lugar qualquer onde a vida me força a parar por alguns instantes e provoca um vento suave a soprar meus pensamentos, me pego meditando sobre a efemeridade que caracteriza essa nossa existência.

Penso em como as coisas acontecem rapidamente e, na maioria das vezes, não conseguimos acompanhá-las. Fatos grandes ou pequenos, importantes ou sem valor, simples ou complexos, breves ou intensos, belos ou feios, simpáticos ou desprezíveis. Acontecimentos de todos os jeitos, que chegam, tocam, marcam (ou não), e vão.

Penso (ou tento imaginar) em como seria nossas vidas se aproveitássemos melhor o que ela nos proporciona hoje. E faço assim porque a efemeridade da vida não nos permite ter certeza nem mesmo sobre os próximos cinco minutos que virão. Daí, acabo concordando (novamente) com o poeta que cantou que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar, na verdade não há.

Eu completaria esse pensamento de Renato Russo, enfatizando que não é preciso somente amar as pessoas como se não houvesse amanhã, mas também viver intensamente e melhor o máximo que pudermos dos eventos que a vida nos traz, como se não houvesse amanhã. Porque se nós pararmos pra pensar, na verdade não há.

Penso em quão bom e importante é ganhar um ótimo salário e juntar muitas riquezas. Porém, a experiência prova que mais importante ainda é aproveitar um fim de tarde com um amigo à beira de um lago, ou sentado com ele no tapete da sala comendo pipoca, como duas crianças sorrindo e conversando bobagens. Dinheiro nenhum no mundo compra a verdade e o prazer de momentos assim, com que eventualmente a vida nos presenteia.

Penso e tento (inutilmente, claro) calcular quanto vale ocupar-se tanto de estudos e trabalho, se nenhum livro ou ocupação pode estender-nos seus braços quentes numa noite fria, fazer companhia em momentos tristes, beijar, afagar, oferecer atenção, ardentemente amar. Pessoas fazem isso. A pessoa amada então, faz ainda melhor.

É ela que nos completa mesmo quando o mundo inteiro tenta e não consegue. É ela que mantém nossos olhos enxergando a beleza, quando o mundo inteiro perde seu encanto. Olhar para ela a cada manhã nos motiva a prosseguir, mesmo quando o dia que começa nos oferece unicamente um grande lamaçal por estrada. E então, prossigo em filosofar: Que sentimento ou valor livros e trabalho podem expressar por nós? Quando choramos, podem enxugar nossas lágrimas e fazer-nos uma gracinha pra arrancar um sorriso ligeiro do nosso rosto abatido? Qual é a intensidade do calor do abraço que um livro ou uma hora a mais no trabalho pode nos dar (se é que podem dar)?

Penso nisso. E penso também em como é mais prazeroso esperar numa fila ou num ponto de ônibus quando puxamos conversa com alguém. E em como é melhor terminado o atendimento que recebemos do balconista quando nos despedimos dele com um sorriso. São momentos tão simples que podem nos dar grandes oportunidades de sermos um pouco melhores ou de tornarmos o dia de alguém melhor.

Jesus foi uma dessas pessoas que soube aproveitar Seus momentos, ainda que para nós hoje, eles pareçam tão insossos. Nosso Senhor foi a festas quando foi possível, e numa delas aproveitou para socorrer os convidados no embaraço da falta do vinho, em vez de embaraçá-los embebedando-Se e figurando de forma vergonhosa entre eles1.

Ele (Jesus) aproveitava as oportunidades de fazer o bem e o fazia com esmero2. Chorou quando foi preciso3, orou sempre que necessário4,, pronunciou-Se e calou-Se nos momentos certos5, ensinou e elogiou nos momentos oportunos6, descansou quando teve necessidade7, e até descansando soube ser útil8.

A vida de Jesus foi curta, mas foi intensa. A Bíblia não nos narra todas as coisas que aconteceram Sua vida, mas o pouco que é contado prova quão sábia e envolvente foi a maneira de Nosso Senhor viver.

Na verdade, nós não conseguimos ser tão sábios. Poucos apenas conseguem chegar um pouco mais perto dessa altura de Cristo. A maioria de nós troca pessoas por coisas, tem medo de se envolver, contenta-se em ver de longe, recebe e não toma posse, sente e reprime, toca e ainda duvida, alcança e se afasta. E consequentemente perde mais uma oportunidade de ser feliz e de fazer alguém feliz.

Contudo, a vida é breve. Os acontecimentos são breves. Pessoas são breves. Tudo passa, inclusive os céus e a terra passarão9. Deus, porém, tem nos dado tempo. Tempo que, bem aproveitado, não deixa vaga para um espírito triste ou depressivo. E quando terminar, ainda que cedo termine, será selado com a certeza que viver vale mesmo à pena. 


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1 João 2.1-11.
2 Marcos 6.56; Atos 10.38.
3 João 11.35.
4 Mateus 14:22,23; Lucas 6:12; João 17.
5 Lucas 4:16-30; João 8:46-59.
6 Mateus 18:1-6.
7 João 4:5-6.
8 João  4:7-42.
9 Lucas 21.33.