domingo, 16 de junho de 2013

Entregar-se...

Imagem: Google.

“Entregue o seu caminho ao Senhor, confie Nele, e Ele agirá.”
Salmos 37.5


Na sua totalidade, o verso 5 do Salmo 37 expressa uma graça incomparável sendo derramada de forma extravagante por Deus sobre nós. O convite que nos é feito para entregarmos nosso caminho ao Senhor e confiarmos Nele para contemplarmos o Seu agir em nosso favor, é o indicativo do sublime amor de Deus, amor incondicional, que nos deu o direito de termos um relacionamento íntimo com Ele, ainda sendo nós pecadores, maus, sujos, indignos.

Esse convite também aponta para o fato que, ao pretendermos entregar algo a Deus, precisamos nos achegar a Ele. Precisamos nos aproximar. E hoje, pela graça, por meio da intervenção de Cristo, temos esse direito, esse livre acesso

Esse convite é, ainda, um lembrete aos cansados e oprimidos de que há uma saída e há alguém que nos ama, disposto a nos ajudar, a reparar nossos erros, a mudar a nossa sorte, por maior que tenha sido o nosso pecado.

Rubem Alves, famoso escritor, poeta, psicanalista, educador e teólogo do nosso tempo, trouxe uma ilustração – das quais, eu diria, a melhor que já vi – acerca da disposição de Deus em amar, perdoar, auxiliar e acolher Seus filhos, por maiores ou menores que sejam os seus erros. Numa explanação excepcional sobre a parábola do filho pródigo (Lucas 15:11-32), o autor ilustra um diálogo entre o pai e o filho caçula (pródigo), e outro diálogo entre o pai e o filho mais velho (o que ficou em casa), após estes lhe dirigirem a palavra.

O filho pródigo, depois de gastar todos os seus bens e retornar com um histórico de farras, ostentações e irresponsabilidade, voltou à presença do seu pai com um discurso pronto, declarando-se culpado e indigno. E diante de suas palavras, o pai teria respondido: “Filho, eu não contabiliza débitos.” Ao passo que, diante do discurso do filho mais velho, que reivindicava reconhecimento e premiação por sua boa conduta e suposta fidelidade ao seu pai (em contraste com o comportamento do irmão regresso), o pai teria lhe dito: “Filho, eu não contabiliza créditos.”

Do conhecimento que Deus não contabiliza nossos débitos ou nossos créditos para que possa nos amar menos ou mais, nasce a certeza que, embora as consequências dos nossos atos permaneçam e nós tenhamos que arcar com todas elas, o amor do Senhor por nós não muda. E o verso 5 do Salmo 37, ao nos convidar a entregarmos nosso caminho a Ele, e a confiarmos Nele, e a esperarmos por Seu agir, revela-nos essa possibilidade de recomeçarmos em Deus, enquanto houver vida em nós. Dá-nos a segurança que Ele nos receberá bem e nos acolherá, sejamos nós bons ou sejamos maus.

Mas essa curta, porém profunda palavra não nos orienta somente a chegarmos a Deus. Não nos instrui somente a confiarmos Nele ou esperarmos por Ele. Ela vai além, e expõe com grande clareza o que precisamos fazer antes de tudo: Entregar nosso caminho ao Senhor.

Entrega pressupõe desligamento, denota exercício de confiança no outro que recebe, expressa  rendição aos cuidados do outro. Entretanto, via de regra, não é assim que nós fazemos. Nós confiamos, e até esperamos. Mas continuamos segurando as rédeas, vivemos de forma a manter o controle da situação em nossas mãos. O domínio tem de continuar sendo nosso. E isso ocorre de uma maneira muito natural. Não precisamos discutir nada sobre esse assunto com Deus. Apenas queremos que Ele faça o que precisa fazer para nos abençoar, e enquanto isso nós permanecemos ditando as regras.

Mas isso é uma incoerência, não é mesmo? Qual ser que não é capaz de conhecer o futuro pelos próximos cinco minutos será capaz de garantir o futuro para os próximos anos, décadas, milênios? Contudo, nós somos assim: Totalmente impotentes diante da próxima hora, e convencidos – arrogante e erradamente – que saberemos conduzir nossas vidas pela eternidade.

É bem possível que nossa longa espera tenha se estendido até aqui porque ainda não entregamos o controle da situação ao Senhor. É bem provável que nossa confiança esteja esvaindo simplesmente porque queremos que Deus trabalhe em nossas vidas sem poder tocar nelas, de longe, sem nenhum domínio sobre o que precisa ser extirpado e sem nenhum contato com o que precisa ser, de fato, transformado em nós.

Por isso é que “os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado”, a um coração quebrantado e contrito o Senhor não desprezará (Salmos 51.17). É que onde há rendição, entrega, submissão, Deus tem liberdade para trabalhar e revelar, através dos detalhes de uma obra santa e completa, a perfeição da Sua glória.

E essa manifestação da glória de Deus sempre se reverte em alegria e satisfação para nós.