segunda-feira, 30 de setembro de 2013

As primeiras chuvas

By Elaine Cândida, com imagem disponível na Internet.


“Venham, voltemos para o Senhor. Ele nos despedaçou, mas nos trará cura;
Ele nos feriu, mas sarará nossas feridas.
Depois de dois dias Ele nos dará vida novamente;
ao terceiro dia nos restaurará, para que vivamos em Sua presença.
Conheçamos o Senhor; esforcemo-nos por conhecê-Lo.
Tão certo como nasce o sol, Ele aparecerá;
virá para nós como as chuvas de inverno,
como as chuvas de primavera que regam a terra.”
Oséias 6:1-3


As últimas semanas do inverno são a parte mais difícil de lidar nessa época do ano aqui, no Planalto Central. Quem tem problemas de alergia (como eu), passa por uma verdadeira via crucis até que chegue o fim desse período árido e sofrível.

Todos os anos, espero com ansiedade pela chegada da primavera, que abre pra vida as janelas de um novo tempo com um lindo sorriso do tímido sol das manhãs primaveris e o perfume da terra molhada pelas primeiras chuvas.

Nos dias mais rigorosos do nosso inverno, os últimos dias, quando o clima e a sensação térmica já se comparam aos de um deserto, frequentemente me pego olhado para o céu, procurando uma nuvem, um jeito de chuva, um sinal que possa me animar a crer que na manhã seguinte serei acordada pelo barulho das águas que vêm do alto.

Que sensação maravilhosa essa de ouvir o som das águas límpidas e fecundas do céu precipitando-se determinadas para um beijo molhado e longo com a terra!

Da emoção de ser agraciada com as primeiras chuvas da primavera, às angústias de um deserto espiritual que, por vezes, assola nossos corações e toma conta do nosso ser: As características são bem parecidas, não é mesmo?

Só que, no caso das estações do ano, nós enxergamos bem os fenômenos acontecendo na natureza. Tempo após outro, estação após estação, sequidão ou chuva, invernos ou floradas. Nossos olhos contemplam as mudanças e se alegram (ou se irritam) com isso.

Com a alma é diferente nesse aspecto. A fé é fator incontestável e imprescindível para lutarmos contra o que não vemos. E é por meio dela que compreendemos as orientações do Senhor: Se devemos permanecer quietos ou nos movimentar rumo ao lugar que Ele indicar.

Ocorre que muitos de nós não buscam do Senhor a sensibilidade para ouvir Sua voz, nem a paciência para conseguir esperar com calma até o momento de avançar ou retroceder.  (Perdoem-me os triunfalistas da teologia da prosperidade, mas retroceder ou esperar, muitas vezes, é o passo mais longo e seguro que Deus nos ajuda a dar.)

E então, temos as figuras dos “caçadores de primaveras”, aquelas pessoas inquietas que mudam de posição constantemente, aventurando suas vidas inconsequente e irresponsavelmente, tentando se esquivar dos invernos da vida.

Mas assim como em cada lugar do mundo ocorrem as quatro estações, também assim em nossas vidas elas são inevitáveis. Termina que, em algum momento, essa fuga constante da realidade se tornará enfadonha, cansativa, desmotivadora. E em momentos assim, comumente pela falta de experiência para lidar com as dificuldades com que a vida eventualmente nos presenteia, muitos de nós não conseguem lidar com as quedas bruscas da temperatura e a sequidão do clima das suas almas. E então, vêm as terríveis quedas, a incalculável fraqueza, e até a medonha desistência.

Sempre que olho a natureza, vejo ensinamentos do Senhor para nós. As mudanças das estações são um deles. Existem tempos de plantio, tempos de trabalho árduo, tempos de paciente espera, tempos de colheita, tempos de gozo. Mas existem também tempos de perigos, tempos de perdas, de chuvas fortes ou de sequidão desmedida.

Há momentos em que nosso trabalho flui com naturalidade, nossos sentimentos são correspondidos, nossos bens parecem multiplicar-se, nossos anseios parecem ser atendidos, nossas necessidades sanadas. Mas há momentos – inevitáveis – em que a vida parece dizer não em tudo, e é bastante comum o foco das nossas atenções deixar de ser o Senhor e passar a ser as circunstâncias.

É aqui que, perigosamente, começamos a questionar a fidelidade de Deus, evitando um confronto ou simplesmente ignorando a Palavra que diz: “Se somos infiéis, Ele permanece fiel, pois não pode negar-Se a Si mesmo” [1], e “Será que uma mãe pode esquecer do seu bebê que ainda mama e não ter compaixão do filho que gerou? Embora ela possa se esquecer, Eu não Me esquecerei de você! Veja, Eu gravei você nas palmas das Minhas mãos; seus muros estão sempre diante de Mim” [2]. As dores dentro de nós parecem sempre gritar mais alto que essas verdades.

Contudo, a Bíblia dos santos do passado continua sendo a nossa Bíblia, e permanece repleta de direções para nossos corações aflitos. Suas linhas e entrelinhas nos revelam amorosamente que, em momentos assim, o melhor é pararmos e, com a ajuda do Espírito Santo, agirmos com os verbos dos sete erres do vocabulário de um coração quebrantado e dependente de Cristo, a saber: refletir, reavaliar, reconhecer, reconsiderar, reorganizar, recomeçar e, consequentemente, (re)viver.

Vamos dar mais uma olhada na nova estação. Vejamos os ipês. Aqui em Brasília, eles começam a florir um pouco antes da chegada das chuvas. Certamente esse é um sinal de que, como eles, nós também podemos (e devemos) saudar a primavera em nossas vidas antes mesmo que ela chegue, na certeza que ela virá.

Refletir, reavaliar, reconhecer, reconsiderar, reorganizar, recomeçar e (re)viver podem ser essas nossas flores desabrochando em tons perfeitos nas copas de árvores ressequidas, cumprimentando a vida que sempre se renova na próxima estação, após o rigoroso e doloroso inverno. E, com ela, as primeiras chuvas.

A soma de muitos fatos nos últimos dois anos da minha vida me trouxe uma estação triste, dolente, perturbada, solitária. E esse foi o principal motivo de eu ter me afastado daqui por uns meses, em busca de um renovo para o meu coração na presença única do Senhor. Deu tempo de confrontar minhas motivações e reordenar o rol das minhas prioridades. E o resultado é este retorno, este recomeço primaveril – espiritual e literal.

Não que todos os problemas que mexeram com minha estrutura tenham sido sanados. Mas o foco voltou a ser Jesus. E sendo assim, a resolução de todo o resto volta a ser somente uma questão de tempo e esperança.

Tempo que está absolutamente sob o controle das mãos do Eterno Deus.
Esperança que nos faz retornar ao descanso...
Descanso tranquilo, ao som das primeiras (de muitas) chuvas.


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(1) 2Timóteo 2:13
(2) Isaías 49:15-16